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Conta de água da SABESP financia a Guerra de Israel contra a Palestina
Fundos norte-americanos que detêm 13,42% da Sabesp já embolsaram R$ 577 milhões em dividendos desde a privatização da estatal paulista – e são os mesmos que compraram bilhões em títulos da dívida israelense, usados para sustentar o esforço de guerra em Gaza
Politica
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■   Bernardo Cahue, 01/08/2026

A privatização da Sabesp (Companhia de Saneamento Básico do Estado de São Paulo), concluída em julho de 2024 sob o comando do governador Tarcísio de Freitas (Republicanos), abriu as portas da maior empresa de saneamento do Brasil para fundos de investimento norte-americanos que figuram entre os maiores financiadores da guerra de Israel contra a Palestina. Desde então, três desses fundos – Wellington Management, BlackRock e Vanguard – que juntos controlam 13,42% do capital da companhia, já receberam R$ 577 milhões em lucros distribuídos. Paralelamente, esses mesmos gestores acumulam bilhões de reais em títulos da dívida israelense, os chamados “Israel Bonds”, cujas receitas abastecem diretamente o orçamento de guerra do Estado de Israel.

A conexão entre a água consumida pelos paulistas e o conflito no Oriente Médio se estabelece por meio de um fluxo financeiro que atravessa o Atlântico. Os recursos pagos nas contas de água – que, segundo denúncias de moradores da Grande São Paulo, chegaram a subir mais de 600% após a privatização – alimentam os lucros da Sabesp. Esses lucros, por sua vez, são distribuídos aos acionistas na forma de dividendos. E parte desses dividendos acaba sendo direcionada, pelos mesmos fundos, para a compra de títulos do governo israelense, que sustentam as operações militares na Faixa de Gaza.

Os fundos, as participações e os títulos de guerra

Desde a privatização da Sabesp, em 23 de julho de 2024, a companhia já distribuiu R$ 4,3 bilhões em lucros a seus acionistas. Desse total, R$ 577.060.000 (577 milhões e 60 mil) foram parar nas mãos de três fundos norte-americanos que, somados, detêm 13,42% do capital da empresa. São eles:

  • BlackRock Inc. – maior gestora de ativos financeiros do mundo, é a terceira maior acionista da Sabesp, com 6,1% das ações, atrás apenas do governo estadual (18,1%) e do Grupo Equatorial (15,1%). A BlackRock é a quarta maior detentora de títulos de guerra israelenses, com 68 milhões de euros (cerca de R$ 398 milhões).
  • Wellington Management Group – quarto maior acionista da Sabesp, com 5,4% das ações. Em abril de 2026, a Wellington ultrapassou o patamar de 5% de participação (5,09%, ou 35,9 milhões de ações ordinárias), o que acionou a obrigatoriedade de divulgação à CVM. É o terceiro maior financiador da guerra de Israel, tendo adquirido 250 milhões de euros (R$ 1,46 bilhão) em títulos de guerra.
  • Vanguard – sexto maior acionista da Sabesp, com 2,32% do capital. É o segundo maior comprador de títulos de guerra israelenses, com US$ 546 milhões (R$ 2,8 bilhões) investidos.

O quadro se completa com a PIMCO, subsidiária da seguradora alemã Allianz, que não é acionista da Sabesp, mas é a maior compradora de títulos israelenses entre todas as gestoras, com quase US$ 1 bilhão adquirido.

O papel do governo Tarcísio na atração dos fundos

A Wellington Management não adquiriu as ações da Sabesp por acaso. Conforme apurou a reportagem, o governador Tarcísio de Freitas viajou aos Estados Unidos na última semana de junho de 2024 – menos de um mês antes da privatização – com o objetivo deliberado de visitar sedes de fundos internacionais de investimento e apresentar a oferta de ações da Sabesp. A viagem, que antecedeu a desestatização, foi uma peça-chave para atrair o capital estrangeiro que hoje compõe a base acionária da companhia.

Israel Bonds: o mecanismo financeiro da guerra

Os “Israel Bonds” são títulos do tesouro do Estado de Israel, comercializados pela Development Corporation for Israel, entidade afiliada ao governo israelense. Desde 7 de outubro de 2023, data do início da escalada do conflito em Gaza, o governo israelense aumentou drasticamente a emissão desses papéis, “devido à situação de segurança de Israel”. As receitas arrecadadas com a venda dos títulos revertem para o orçamento geral do Estado e, conforme anunciado pelas autoridades, ajudam a sustentar a capacidade militar do país.

Em 21 de julho de 2026, o escritório na Europa da Anistia Internacional divulgou uma declaração pública afirmando que “a União Europeia (UE) deve pôr fim à venda de ‘Israel Bonds’ – títulos do tesouro do estado de Israel –, sob pena de se tornarem cúmplices do genocídio em curso contra os palestinos na Faixa de Gaza”. A organização humanitária alertou que as receitas dessas operações financeiras entram diretamente para o orçamento do estado israelita e para o “esforço de guerra”.

A conta de água e o financiamento indireto da guerra

O mecanismo é indireto, mas eficaz: o dinheiro pago pelos consumidores paulistas nas contas de água – que, em muitos casos, tiveram aumentos superiores a 600% – gera lucros para a Sabesp. Esses lucros são distribuídos como dividendos a acionistas como BlackRock, Wellington e Vanguard. Esses mesmos fundos, então, utilizam parte desses recursos – somados a outros capitais sob sua gestão – para comprar títulos da dívida israelense. O dinheiro, portanto, sai do bolso do cidadão de São Paulo, passa pela Sabesp, pelos fundos norte-americanos e chega ao orçamento de guerra de Israel.

Dados do governo israelense indicam que o país emitiu títulos soberanos entre 7 de outubro de 2023 e janeiro de 2025 no valor total de US$ 19,4 bilhões. Os fundos norte-americanos figuram entre os maiores compradores desses papéis – e, agora, também entre os maiores acionistas da Sabesp.

Conclusão

A privatização da Sabesp, apresentada pelo governo de São Paulo como um marco de eficiência e modernização, criou uma ponte financeira entre as contas de água dos paulistas e o financiamento da guerra de Israel. Os mesmos fundos que detêm 13,42% do capital da companhia de saneamento são os que injetam bilhões de reais nos títulos da dívida israelense – títulos que, segundo a Anistia Internacional, tornam seus compradores cúmplices de um genocídio. Enquanto os consumidores paulistas arcam com contas de água cada vez mais caras, os lucros da Sabesp atravessam o oceano e abastecem, ainda que indiretamente, um conflito que já devastou a Faixa de Gaza e ceifou dezenas de milhares de vidas palestinas.

A conexão entre a água e a guerra expõe a dimensão global do sistema financeiro e a forma como a privatização de serviços públicos essenciais pode gerar consequências que vão muito além das fronteiras nacionais – alcançando, literalmente, o outro lado do mundo.

Com informações de Diário do Centro do Mundo, Diário de Joinville, Anistia Internacional, IHU Unisinos, Outras Palavras, Operamundi, BankTrack, Exame, Valor Econômico, Infomoney, CNN Brasil e Bloomberg Línea ■

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