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“Vaza-Malu” e o relatório que incendiou o STF
Fonte da jornalista Malu Gaspar, perito João Cláudio Nabas produziu dossiês contra ministros e sugeriu vazamentos; o mesmo roteiro de manipulação de provas agora contamina o relatório que expôs Moraes e gerou a maior crise do Supremo
Analise
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■   Bernardo Cahue, 06/09/2026

O escândalo que atualmente paralisou o Supremo Tribunal Federal (STF) e colocou ministros em rota de colisão tem um elo comum que a maioria das análises tem ignorado: o perito criminal João Cláudio Nabas. O mesmo agente da Polícia Federal que serviu como fonte da jornalista Malu Gaspar — batizada de “Vaza-Malu” por analistas — é o responsável direto pela produção dos documentos que, meses depois, abasteceram o relatório de inteligência usado por André Mendonça para expor Alexandre de Moraes e deflagrar a crise institucional.

A cronologia dos fatos expõe um padrão de atuação deliberado que começa na manipulação de provas e termina no direcionamento político de investigações. Em novembro de 2025, Nabas foi convocado para auxiliar a equipe da Operação Compliance Zero, que apurava fraudes financeiras envolvendo o Banco Master. Em 1º de dezembro, ele acessou a extração dos dados do celular do banqueiro Daniel Vorcaro. Três dias depois, produziu dois arquivos intitulados “Moraes.pdf” e “Toffoli e esposa.pdf”, reunindo citações aos ministros encontradas no aparelho.

O conteúdo dos dossiês incluía, entre outros elementos, trechos de um contrato de R$ 129 milhões firmado entre o Banco Master e a advogada Viviane Barci de Moraes, esposa de Alexandre de Moraes. Segundo a investigação da própria PF, Nabas não apenas produziu os documentos, mas “direcionou seus esforços em sentido contrário ao escopo precípuo das investigações, buscando, no material objeto de análise, supostos elementos desabonadores de ministros desta Suprema Corte, com o intuito comprovado de publicizar tais informações por meio da imprensa nacional”.

O perito, que chefia o NUTEC da PF em Vilhena (RO) e tem 20 anos de carreira, sugeriu a colegas da própria corporação que o material fosse vazado. A proposta foi acolhida: as informações chegaram à colunista Malu Gaspar, do jornal O Globo, que as publicou em uma série de reportagens. A sequência de eventos levou a PF a concluir que Nabas foi o responsável pelo vazamento — o mesmo que a imprensa apelidou de “Vaza-Malu”.

Em 19 de maio de 2026, André Mendonça autorizou a 7ª fase da Operação Compliance Zero contra Nabas, com mandados de busca e apreensão e afastamento do cargo. O ministro, que é relator do caso Master no STF, acolheu a representação da PF e determinou as medidas. Até aí, o roteiro parecia o de uma apuração interna contra um agente desonesto. No entanto, o mesmo material produzido por Nabas — e que ele próprio tentou vazar — tornou-se, meses depois, a base do relatório de inteligência usado por Mendonça para expor Moraes e pedir sua investigação.

O paralelo entre os dois episódios é estarrecedor:

  • Manipulação seletiva de provas — Nabas produziu dossiês apenas contra ministros do STF (Moraes e Toffoli), ignorando outros elementos do celular de Vorcaro que poderiam beneficiá-los ou atingir outros alvos. O relatório de Mendonça segue a mesma lógica: destaca mensagens de Vorcaro a Moraes, mas não apresenta nenhuma resposta do ministro, alegando que eram de “visualização única”.
  • Vazamento como estratégia — Nabas sugeriu ativamente o vazamento do material à imprensa. O relatório de Mendonça, ao ser tornado público sem a devida instrução processual, produziu o mesmo efeito: expor um ministro do STF na opinião pública antes de qualquer contraditório.
  • Foco exclusivo em adversários políticos — Nabas mirou Moraes e Toffoli. O relatório de Mendonça, por sua vez, concentra-se em Moraes e no procurador-geral Paulo Gonet, mas silencia sobre a blindagem a Flávio Bolsonaro e as investigações contra Lulinha, como apontaram análises anteriores.
  • Fragilidade probatória — Os dossiês de Nabas eram “documentos apócrifos”, sem valor formal. O relatório de Mendonça é descrito pela própria PF como um documento de inteligência “sem valor probatório”, destinado apenas a subsidiar decisões.

A contaminação da cadeia de custódia é o ponto mais grave. Se Nabas manipulou os dados do celular de Vorcaro — produzindo recortes seletivos, sugerindo vazamentos e direcionando a narrativa contra ministros —, toda a prova extraída daquele aparelho fica sob suspeita. O relatório que Mendonça usa contra Moraes baseia-se exatamente no mesmo material que Nabas adulterou e vazou. É como usar uma prova forjada para condenar a vítima da forjaria.

O silêncio de Mendonça sobre esse elo é revelador. Em seu relatório de inteligência, não há uma linha sequer sobre a prisão e o afastamento de Nabas — o perito que, reconhecidamente, produziu os dossiês contra Moraes e os fez chegar à imprensa. O ministro ignora que a fonte primária de suas acusações é um agente público afastado por violação de sigilo e manipulação de provas. A omissão não é um detalhe: é uma falha metodológica insanável que compromete a credibilidade de todo o documento.

Ao reproduzir, em escala institucional, o mesmo roteiro de manipulação, vazamento e direcionamento que Nabas executou em pequena escala, Mendonça não apenas repete o erro do perito — ele o legitima. O que deveria ser uma investigação sobre a conduta de um agente desonesto transforma-se no uso político do material por ele produzido, com o agravante de que agora é um ministro do STF quem conduz a operação.

A crise atual, portanto, não é apenas sobre mensagens de WhatsApp ou contratos empresariais. É sobre um padrão sistêmico de produção e uso de provas que começa na manipulação de um perito, passa pelo vazamento seletivo à imprensa e culmina no uso institucional do material vazado para desgastar adversários políticos dentro da própria Corte. O “Vaza-Malu” e o relatório de Mendonça são dois atos do mesmo espetáculo: o primeiro, executado por um agente federal; o segundo, patrocinado por um ministro do Supremo.

Com informações de Revista Fórum, Folha de Pernambuco, ND Mais, GP1, SBT News, Estadão, Diário do Centro do Mundo, BBC News Brasil, Poder360, Jornal de Brasília ■

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