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Relatório de Mendonça omite prisão de perito que plantou contratos falsos no celular de Vorcaro
Documento usado pelo ministro para incriminar Moraes silencia sobre investigação que apura se perito da PF forjou provas contra magistrado; ausência levanta suspeitas de seletividade e direcionamento
Analise
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■   Bernardo Cahue, 06/09/2026

O relatório de inteligência da Polícia Federal produzido a pedido do ministro André Mendonça e que serve de base para a crise instalada no Supremo Tribunal Federal contém uma omissão que, segundo críticos, compromete sua credibilidade e revela um evidente viés seletivo: o documento não faz nenhuma menção à prisão e ao afastamento do perito criminal João Cláudio Nabas, investigado justamente por ter, em tese, produzido e vazado informações contra ministros da Corte a partir de dados extraídos do celular do banqueiro Daniel Vorcaro.

A omissão ganha relevo porque o próprio Nabas é apontado em investigações paralelas como o agente que criou arquivos intitulados “Moraes.pdf” e “Toffoli e esposa.pdf” a partir de citações aos ministros encontradas no aparelho de Vorcaro. Segundo a PF, o perito acessou os dados em 1º de dezembro de 2025 e, três dias depois, produziu os documentos que reuniam diálogos e menções aos magistrados. Um deles continha justamente o contrato de R$ 129 milhões firmado entre o Banco Master e o escritório da advogada Viviane Barci de Moraes, esposa de Alexandre de Moraes.

O perito também teria sugerido a colegas da corporação que o conteúdo fosse vazado à imprensa. A proposta foi rejeitada, mas, dias depois, detalhes do contrato vieram a público. A sequência dos fatos levou a PF a concluir que Nabas foi o responsável pelo vazamento. Em maio de 2026, André Mendonça autorizou a 7ª fase da Operação Compliance Zero, que resultou em buscas e apreensões contra o perito e em seu afastamento das funções por suspeita de violação de sigilo funcional.

Pois esse episódio — que envolve a prisão (em sentido amplo) de um agente público acusado de manipular provas contra ministros do STF — é completamente ignorado no relatório de inteligência que Mendonça usou para embasar suas acusações contra Moraes. O silêncio é ainda mais eloquente quando confrontado com o teor do documento: o relatório dedica dezenas de páginas a supostas mensagens de Vorcaro a Moraes, mas não apresenta nenhuma resposta do ministro, alegando que as conversas eram de “visualização única”. Em relação ao procurador-geral Paulo Gonet, o texto traz apenas “supostas repostagens” de mensagens, sem lastro probatório consistente.

A ausência de menção ao caso Nabas levanta ao menos quatro questionamentos graves:

  • Seletividade investigativa — por que o relatório que expõe supostos deslizes de Moraes silencia sobre uma apuração que envolve um perito da própria PF acusado de forjar provas contra o mesmo ministro?
  • Quebra da cadeia de custódia — se Nabas manipulou dados do celular de Vorcaro, toda a prova extraída daquele aparelho fica contaminada, incluindo as mensagens usadas por Mendonça contra Moraes.
  • Direcionamento político — a omissão reforça a tese de que Mendonça atuou com “motivação pessoal e política” para incriminar Moraes, conforme apontam relatórios da própria PF encomendados pelo ministro.
  • Falta de isonomia — enquanto Nabas é investigado e afastado por supostamente plantar provas, o relatório que sustenta a ofensiva contra Moraes não menciona sequer a existência dessa apuração paralela.

O Ministério Público Federal já abriu procedimento para apurar possível “interferência externa” na produção do relatório. A Procuradoria-Geral da República determinou que a PF esclareça as circunstâncias em que o documento foi elaborado e se houve “ordem ou interferência externa” capaz de comprometer seu conteúdo. A defesa de Moraes, por sua vez, sustenta que o relatório é “contaminado” e que a omissão do caso Nabas é mais uma prova do “direcionamento ilegal” das investigações.

O caso Nabas, no entanto, não é um detalhe menor. Trata-se de um perito criminal federal com 20 anos de serviço, chefe do Núcleo Técnico-Científico da PF em Rondônia, que teria usado sua posição para produzir dossiês informais contra ministros do STF e sugerir seu vazamento. A gravidade da acusação — plantação de provas — é tamanha que, se confirmada, anularia não apenas o relatório de Mendonça, mas todo o material extraído do celular de Vorcaro.

O silêncio de Mendonça sobre esse episódio em seu relatório de inteligência — o mesmo documento que usa para justificar a exposição de Moraes — é, para analistas, uma falha metodológica insanável. Ao omitir a investigação que apura a manipulação de provas justamente no aparelho que serve de base para suas acusações, o ministro entrega um relatório incompleto, tendencioso e de valor probatório nulo — exatamente o que seus críticos apontam desde o início.

Com informações de BBC News Brasil, UOL, Gazeta do Povo, Metrópoles, Revista Fórum, Congresso em Foco, Poder360, Exame, CBN, Diário do Centro do Mundo ■

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