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O relatório de inteligência da Polícia Federal produzido a pedido do ministro André Mendonça e que serve de base para a crise instalada no Supremo Tribunal Federal contém uma omissão que, segundo críticos, compromete sua credibilidade e revela um evidente viés seletivo: o documento não faz nenhuma menção à prisão e ao afastamento do perito criminal João Cláudio Nabas, investigado justamente por ter, em tese, produzido e vazado informações contra ministros da Corte a partir de dados extraídos do celular do banqueiro Daniel Vorcaro.
A omissão ganha relevo porque o próprio Nabas é apontado em investigações paralelas como o agente que criou arquivos intitulados “Moraes.pdf” e “Toffoli e esposa.pdf” a partir de citações aos ministros encontradas no aparelho de Vorcaro. Segundo a PF, o perito acessou os dados em 1º de dezembro de 2025 e, três dias depois, produziu os documentos que reuniam diálogos e menções aos magistrados. Um deles continha justamente o contrato de R$ 129 milhões firmado entre o Banco Master e o escritório da advogada Viviane Barci de Moraes, esposa de Alexandre de Moraes.
O perito também teria sugerido a colegas da corporação que o conteúdo fosse vazado à imprensa. A proposta foi rejeitada, mas, dias depois, detalhes do contrato vieram a público. A sequência dos fatos levou a PF a concluir que Nabas foi o responsável pelo vazamento. Em maio de 2026, André Mendonça autorizou a 7ª fase da Operação Compliance Zero, que resultou em buscas e apreensões contra o perito e em seu afastamento das funções por suspeita de violação de sigilo funcional.
Pois esse episódio — que envolve a prisão (em sentido amplo) de um agente público acusado de manipular provas contra ministros do STF — é completamente ignorado no relatório de inteligência que Mendonça usou para embasar suas acusações contra Moraes. O silêncio é ainda mais eloquente quando confrontado com o teor do documento: o relatório dedica dezenas de páginas a supostas mensagens de Vorcaro a Moraes, mas não apresenta nenhuma resposta do ministro, alegando que as conversas eram de “visualização única”. Em relação ao procurador-geral Paulo Gonet, o texto traz apenas “supostas repostagens” de mensagens, sem lastro probatório consistente.
A ausência de menção ao caso Nabas levanta ao menos quatro questionamentos graves:
O Ministério Público Federal já abriu procedimento para apurar possível “interferência externa” na produção do relatório. A Procuradoria-Geral da República determinou que a PF esclareça as circunstâncias em que o documento foi elaborado e se houve “ordem ou interferência externa” capaz de comprometer seu conteúdo. A defesa de Moraes, por sua vez, sustenta que o relatório é “contaminado” e que a omissão do caso Nabas é mais uma prova do “direcionamento ilegal” das investigações.
O caso Nabas, no entanto, não é um detalhe menor. Trata-se de um perito criminal federal com 20 anos de serviço, chefe do Núcleo Técnico-Científico da PF em Rondônia, que teria usado sua posição para produzir dossiês informais contra ministros do STF e sugerir seu vazamento. A gravidade da acusação — plantação de provas — é tamanha que, se confirmada, anularia não apenas o relatório de Mendonça, mas todo o material extraído do celular de Vorcaro.
O silêncio de Mendonça sobre esse episódio em seu relatório de inteligência — o mesmo documento que usa para justificar a exposição de Moraes — é, para analistas, uma falha metodológica insanável. Ao omitir a investigação que apura a manipulação de provas justamente no aparelho que serve de base para suas acusações, o ministro entrega um relatório incompleto, tendencioso e de valor probatório nulo — exatamente o que seus críticos apontam desde o início.
Com informações de BBC News Brasil, UOL, Gazeta do Povo, Metrópoles, Revista Fórum, Congresso em Foco, Poder360, Exame, CBN, Diário do Centro do Mundo ■