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O eleitorado jovem, tradicionalmente um dos termômetros mais sensíveis do humor político, apresenta movimentos contraditórios nas mais recentes rodadas das pesquisas BTG/Nexus e Quaest. De um lado, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) vê sua preferência entre os eleitores de 16 a 24 anos oscilar para baixo em alguns recortes — ou, no mínimo, perder o ímpeto de crescimento que vinha sendo registrado. De outro, o escritor Augusto Cury (Avante) dispara nas intenções de voto, mas não parece ser o principal beneficiário dessa migração juvenil. O dado mais revelador, porém, é que a queda de Lula entre os jovens não se traduz em votos para Cury — ao menos não na proporção que a narrativa da “nova terceira via” gostaria de fazer crer.
O que explica, então, essa aparente desconexão? Uma hipótese que ganha força nos bastidores é o impacto da decisão do governo de proibir as transmissões ao vivo e o compartilhamento de vídeos na plataforma Discord, em agosto de 2026. A medida, defendida publicamente pela primeira-dama Janja Lula da Silva após o caso de uma adolescente de 13 anos induzida à automutilação e ao suicídio na plataforma, foi recebida com reações mistas entre os jovens — justamente o público que mais utiliza o Discord como canal de organização, entretenimento e debate político. A suspensão das lives, ainda que justificada por razões de proteção a crianças e adolescentes, pode ter gerado um efeito colateral político: a percepção, entre os eleitores mais jovens, de que o governo estaria cerceando sua liberdade de expressão em um espaço digital que eles consideram seu. E, como mostram os números, esse descontentamento não está sendo canalizado para Cury.
Os dados das pesquisas são claros. Na rodada da Quaest divulgada em 2 de setembro, Lula aparece com 37% das intenções de voto no primeiro turno, contra 30% de Flávio Bolsonaro (PL) e 10% de Cury. No recorte etário de 16 a 24 anos, porém, o desempenho de Lula é o pior entre todas as faixas: apenas 30%, enquanto Cury alcança 14% nesse segmento. A queda é ainda mais evidente na comparação com a pesquisa BTG/Nexus de 17 de agosto, que mostrava Lula com 38% entre os jovens de 16 a 24 anos, contra 32% de Flávio. Em apenas duas semanas, o petista perdeu oito pontos percentuais nessa faixa — uma oscilação que, embora dentro da margem de erro em alguns cenários, aponta para uma tendência preocupante para a campanha de Lula.
O paradoxo, porém, é que o crescimento de Cury — que saltou de 2% para 11% na BTG/Nexus e para 10% na Quaest — não se deve a uma transferência direta de votos de Lula. Pelo contrário: a análise dos cruzamentos mostra que o avanço do escritor do Avante ocorre principalmente sobre o eleitorado de Flávio Bolsonaro e sobre o contingente de “independentes” — aqueles que não se identificam nem com a esquerda nem com a direita. Entre os bolsonaristas, Cury tem apenas 1%; entre os lulistas, também 1%. Seu caldo de cultivo são os eleitores que rejeitam a polarização e que, até então, estavam dispersos entre nomes como Renan Santos, Ronaldo Caiado e Romeu Zema. Ou seja: a queda de Lula entre os jovens não está alimentando Cury — está, na verdade, alimentando a abstenção, o voto nulo ou a migração para outros candidatos de nicho.
A hipótese do Discord, embora ainda careça de comprovação estatística robusta, encontra eco no timing dos acontecimentos. A proibição das lives na plataforma foi anunciada em meados de agosto, e as pesquisas que registraram a queda de Lula entre os jovens foram realizadas entre 30 de agosto e 1º de setembro. O intervalo é curto demais para uma mudança estrutural no eleitorado, mas longo o bastante para capturar um movimento de rejeição imediata a uma medida percebida como autoritária. A primeira-dama Janja, ao defender publicamente o bloqueio e classificar o Discord como uma “rede horrorosa”, pode ter inadvertidamente associado a imagem do governo Lula a uma postura de controle e censura — exatamente o oposto do que os jovens, criados na cultura da liberdade digital, costumam valorizar.
Há, porém, uma camada adicional de complexidade. A pesquisa Quaest mostra que, entre os jovens de 16 a 34 anos, Cury tem 14% das intenções de voto — mas esse mesmo grupo é o que menos conhece o candidato. Em outras palavras, o crescimento de Cury entre os jovens é mais um reflexo da rejeição ao status quo do que uma adesão entusiástica ao seu projeto político. O escritor, que ganhou mais de 2,5 milhões de seguidores no Instagram em duas semanas e tem 10,7 milhões de seguidores na plataforma, é mais um fenômeno de audiência do que de convicção. Prova disso é que, entre os eleitores de Cury, apenas 69% dizem que não mudarão de voto — um dos menores índices de convicção entre todos os candidatos.
O que os números da BTG/Nexus e da Quaest revelam, no fundo, é uma fotografia da fragilidade do eleitorado jovem brasileiro. Ele é volátil, influenciável por eventos recentes — como a proibição do Discord — e pouco afeito a lealdades partidárias. A queda de Lula nesse segmento não é, necessariamente, um sinal de erosão de sua base, mas sim um alerta de que sua campanha precisa se comunicar melhor com os nativos digitais. E o crescimento de Cury, por sua vez, não é um atestado de força da “terceira via”, mas um sintoma do vazio representativo que ainda persiste no espectro político brasileiro.
A pergunta que fica, portanto, é: se o efeito Discord realmente existir, ele será duradouro ou se dissolverá com o passar das semanas? E, mais importante, Cury conseguirá transformar seu capital de atenção em votos concretos, ou seu crescimento será apenas um fogo de palha alimentado pela rejeição momentânea a uma medida do governo? Por enquanto, os dados indicam que a dança das cadeiras entre os jovens ainda está longe de ter um desfecho definido — e que a Faria Lima, ao apostar em Cury como seu novo queridinho, pode ter subestimado a imprevisibilidade do eleitorado que ela mesma tenta pautar.
Com informações de Folha Agora, CartaCapital, Correio Braziliense, O Globo, Poder360, Vermelho, Jornal da Região, UOL Notícias, Revista Fórum, Veja, CNN Brasil ■