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O avanço das investigações sobre a “fazenda de robôs” do estrategista argentino Fernando Cerimedo na Bolívia colocou o senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ) em uma rota de colisão com a Justiça Eleitoral que pode resultar na cassação do seu mandato e na declaração de inelegibilidade para a disputa presidencial de 2026 – um desfecho que replicaria, com contornos agravados, o que ocorreu com seu pai, Jair Bolsonaro, em junho de 2023.
O cenário não é apenas uma hipótese retórica. O Tribunal Superior Eleitoral (TSE) já aprovou, em fevereiro de 2024, um conjunto de regras inéditas que expressamente preveem a cassação do registro ou do mandato para candidatos que utilizem conteúdos fabricados ou manipulados para difundir fatos notoriamente inverídicos com potencial de dano ao equilíbrio do pleito. A resolução, relatada pela ministra Cármen Lúcia, foi classificada pelo presidente do TSE, ministro Alexandre de Moraes, como “uma das normas mais modernas do mundo” no combate à desinformação e ao uso ilícito da inteligência artificial.
O dispositivo central – o artigo 9º-C da Resolução nº 23.732/2024 – estabelece que a utilização, na propaganda eleitoral, de conteúdo fabricado ou manipulado para difundir fatos notoriamente inverídicos ou descontextualizados com potencial para causar danos à integridade do processo eleitoral caracteriza abuso dos meios de comunicação e acarreta a cassação do registro ou do mandato, além da apuração das responsabilidades nos termos do artigo 323 do Código Eleitoral. A norma também restringe o emprego de robôs (chatbots) para intermediar contato com o eleitor, proibindo qualquer simulação de diálogo com candidato ou pessoa real.
O que torna o caso de Flávio Bolsonaro particularmente grave é a combinação de elementos que, se comprovados, podem configurar não apenas uma infração isolada, mas um sistema estruturado de manipulação digital em benefício de sua campanha. As investigações na Bolívia revelaram que Fernando Cerimedo comandava “milícias digitais” e mantinha uma estrutura tecnológica descrita como “granja de bots” ou “fazenda de cliques”, com capacidade de administrar milhares de perfis falsos para gerar engajamento artificial – exatamente o tipo de prática que a nova resolução do TSE visa coibir.
Os vínculos de Cerimedo com a família Bolsonaro são documentados e públicos. O argentino prestou apoio informal à campanha de Jair Bolsonaro em 2022 e, após a derrota, atuou como um dos agitadores da tentativa de golpe de 8 de Janeiro. Em julho de 2026, dias antes de sua prisão, Cerimedo participou de uma live com o deputado Eduardo Bolsonaro para requentar alegações falsas sobre as urnas eletrônicas – o mesmo discurso que Flávio Bolsonaro reproduziu em reunião com embaixadores em Brasília no mesmo mês.
O depoimento da ex-companheira de Cerimedo, Nadia Beller, à Folha de S.Paulo, acrescenta um elemento crítico: segundo ela, o estrategista argentino teria afirmado que “lutaria” pela candidatura de Flávio Bolsonaro em 2026. A declaração, somada à descoberta da “fazenda de robôs” e às mensagens apreendidas no celular de Cerimedo, fornece o nexo de causalidade que a Justiça Eleitoral exige para caracterizar o abuso de poder – um requisito que, no caso do ex-presidente, foi decisivo para a condenação à inelegibilidade.
Há, ainda, um precedente direto que torna o cenário ainda mais ameaçador para o senador. Em outubro de 2021, o TSE cassou o mandato do deputado estadual Fernando Francischini (PSL-PR), aliado de Jair Bolsonaro, por disseminação de fake news durante as eleições de 2018. O tribunal entendeu que as publicações do parlamentar – que questionavam a segurança das urnas eletrônicas – configuraram abuso de poder político e desinformação em massa, resultando na perda do mandato. O caso Francischini criou uma jurisprudência que agora pode ser aplicada contra Flávio Bolsonaro, em escala muito maior.
Do ponto de vista processual, Flávio Bolsonaro já é alvo de uma ação que tramita no TSE desde outubro de 2022, protocolada pela coligação Brasil da Esperança, que pede a cassação e a declaração de inelegibilidade de 81 integrantes de um “ecossistema bolsonarista de desinformação” – incluindo o próprio senador, Jair, Eduardo e Carlos Bolsonaro. A ação, que ainda não foi julgada, aponta a existência de uma “artilharia bolsonarista” nas redes sociais voltada a difundir desinformação sobre as urnas e associar adversários a práticas criminosas.
A descoberta da “fazenda de robôs” de Cerimedo pode fornecer a prova robusta que o processo até agora não tinha. O TSE exige, para a cassação, “prova robusta” do desvio de finalidade e do abuso de poder. As evidências materiais apreendidas na Bolívia – equipamentos, documentos, dados e mensagens –, se compartilhadas com a Justiça brasileira, podem preencher exatamente essa lacuna.
O deputado Rui Falcão (PT-SP) já formalizou pedido ao ministro Alexandre de Moraes, do Supremo Tribunal Federal (STF), para ampliar as investigações e requisitar a colaboração com as autoridades bolivianas, com o objetivo de preservar, compartilhar e analisar todo o material apreendido. O pedido inclui a apuração da eventual relação financeira de Cerimedo com partidos, candidatos ou intermediários ligados a campanhas eleitorais brasileiras, além do uso ou planejamento da estrutura tecnológica para amplificação artificial de conteúdos.
Se comprovada a ligação entre a “fazenda de bots” e a campanha de Flávio Bolsonaro, as consequências são graves e cumulativas:
A ironia do caso é que Flávio Bolsonaro herdaria do pai não apenas o eleitorado e o discurso, mas também o destino jurídico. Jair Bolsonaro foi declarado inelegível em 30 de junho de 2023, por 5 votos a 2, exatamente por abusar do poder político e dos meios de comunicação para propagar desinformação sobre o sistema eleitoral. Agora, o filho pode ser punido pela mesma prática – com um agravante: a utilização de uma estrutura internacional de manipulação digital, com ramificações na Bolívia, na Argentina e em outros países da América Latina.
O que diferencia este caso do precedente paterno é a dimensão tecnológica e transnacional da operação. Cerimedo não é um mero operador de bots; ele é descrito como uma espécie de “Steve Bannon latino-americano”, um especialista em criar estratégias políticas em ambiente digital “sem se balizar por qualquer critério ético”, que atuou em campanhas na Argentina, Bolívia, Honduras e Brasil. Sua “fazenda de robôs” na Bolívia não era uma operação caseira, mas uma estrutura profissional de manipulação em escala continental.
Para a defesa de Flávio Bolsonaro, o caminho mais provável será tentar desvincular o senador das atividades de Cerimedo, argumentando que o argentino atuou por iniciativa própria ou em campanhas anteriores. No entanto, o depoimento de Nadia Beller, as mensagens apreendidas e a participação de Cerimedo em live com Eduardo Bolsonaro dias antes da prisão criam um elo difícil de ser rompido. Além disso, o fato de Cerimedo ter sido indiciado pela Polícia Federal em 2024 no inquérito do golpe – embora poupado pela PGR – demonstra que sua atuação no Brasil já era monitorada pelas autoridades.
O TSE, sob a presidência de Alexandre de Moraes, tem demonstrado tolerância zero com a desinformação e o uso irregular de tecnologia em campanhas. As regras aprovadas em 2024 e a celeridade na tramitação de processos envolvendo fake news indicam que, uma vez apresentadas as provas, a Corte não hesitará em aplicar as sanções previstas – inclusive se isso significar tirar da disputa presidencial o principal nome da oposição.
O que está em jogo, portanto, vai além do destino de um candidato. A comprovação do uso da “fazenda de robôs” de Cerimedo em benefício de Flávio Bolsonaro testaria a eficácia do arcabouço jurídico criado pelo TSE para proteger a integridade do processo eleitoral e enviaria um sinal inequívoco de que a Justiça Eleitoral está preparada para enfrentar as novas formas de manipulação digital – dentro ou fora das fronteiras brasileiras.
Com informações de Intercept Brasil, O Globo, O Povo, UOL, IstoÉ, Folha de S.Paulo, Brasil 247, Aos Fatos, BBC News Brasil, G1, Jota, Conjur, CartaCapital, Metrópoles, Agência Pública ■