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A seletividade da Globo esconde o que realmente importa
Enquanto o caso Lulinha-Roberta Luchsinger ocupa capas e telejornais com vazamentos seletivos, escândalos bilionários que envolvem o Banco Master, o PCC, a RioPrevidência, a condenação de Eduardo Bolsonaro e a prisão do amigo de Flávio Bolsonaro, Willer Tomaz, seguem relegados ao limbo do noticiário. A pergunta que não cala: onde está a Globo quando o crime não tem o sobrenome certo?
Analise
Foto: https://rd1.com.br/wp-content/uploads/2025/02/cesar-tralli-jn.jpg
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■   Bernardo Cahue, 26/08/2026

A cobertura da grande imprensa brasileira, capitaneada pela Rede Globo, transformou a relação de Fábio Luís Lula da Silva (Lulinha) com a empresária Roberta Luchsinger no grande escândalo do momento. Mensagens de WhatsApp vazadas, supostos pagamentos de passagens aéreas e uma transferência de R$ 249 mil são repetidos à exaustão como se fossem a prova de um crime hediondo. Mas o que os fatos mostram é um roteiro conhecido: vazamentos seletivos, parciais e fora de contexto, que alimentam manchetes bombásticas contra um membro da família Lula, enquanto investigações de igual ou maior gravidade envolvendo adversários políticos são relegadas ao esquecimento.

Fontes da Polícia Federal atribuem os vazamentos sobre o caso Lulinha a integrantes "lavajatistas" da Procuradoria-Geral da República (PGR), que teriam repassado mensagens de WhatsApp fora de contexto para jornalistas de confiança da mídia liberal. Em 21 de agosto, o ministro André Mendonça, do STF, determinou que a PF investigue esses vazamentos de informações sigilosas, atendendo a pedido da defesa de Lulinha, que denunciou o uso seletivo de dados sob segredo de justiça. A tática, segundo agentes ouvidos pela revista Fórum, seria a mesma usada em 2006 contra Lulinha no caso Gamecorp — posteriormente arquivado por falta de provas.

Enquanto isso, o que a Globo e outros veículos "esquecem" de estampar em suas capas é um conjunto de escândalos que fazem o caso Luchsinger parecer uma coluna social:

  1. O rombo do Banco Master e da RioPrevidência: A Polícia Federal investiga desvios de R$ 3,69 bilhões dos cofres da previdência dos servidores do Rio de Janeiro (RioPrevidência) para o Banco Master, do banqueiro Daniel Vorcaro. Entre 2023 e 2024, o fundo aplicou R$ 970 milhões em Letras Financeiras do Master e, depois, mais R$ 2,01 bilhões em fundos estruturados pelo mesmo grupo. O RioPrevidência foi o único cotista de dois fundos ligados ao Master, o que, segundo a PF, indica "gestão fraudulenta".
  2. A ligação com o PCC: As investigações revelaram que o dinheiro do tráfico se misturou com os recursos da previdência. O Fundo Gold Style, administrado pela Reag Trust (gestora de Vorcaro), recebeu R$ 1 bilhão de empresas ligadas ao PCC, incluindo R$ 759,5 milhões da Aster Petróleo, apontada como núcleo financeiro da facção. O mesmo fundo também fez transações com a empresa responsável pela produção do filme "Dark Horse", sobre o ex-presidente Jair Bolsonaro.
  3. O papel de Cláudio Castro (PL): O ex-governador do Rio é apontado pela PF como peça-chave para viabilizar os aportes da RioPrevidência no Banco Master. Em troca, haveria pagamento de vantagens indevidas. Mensagens mostram uma relação promíscua com Vorcaro, com encontros no Rio, em São Paulo e em Nova York, onde o banqueiro pagou um jantar de R$ 60 mil e uma degustação de uísque de mais de R$ 5 milhões para o então governador.
  4. A condenação de Eduardo Bolsonaro: Em 16 de junho de 2026, o STF condenou o ex-deputado federal Eduardo Bolsonaro (PL-SP) a 4 anos e 2 meses de reclusão, em regime semiaberto, pelo crime de coação no curso do processo. Ele foi considerado culpado por tentar interferir no julgamento do pai, Jair Bolsonaro, articulando retaliações do governo Trump contra o Brasil. A condenação o torna inelegível por oito anos.
  5. O amigo de Flávio Bolsonaro no centro do maior escândalo do INSS: Willer Tomaz, amigo pessoal do senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ), é um dos principais alvos da Operação Sem Desconto, que investiga descontos ilegais em aposentadorias e pensões. A PF aponta movimentações financeiras atípicas de Tomaz que somam R$ 45,5 milhões entre maio e novembro de 2021. Ele viajou com Flávio para a Flórida em um jatinho e também mantém relação próxima com o senador Weverton Rocha (PDT-MA), cujos familiares foram alvos da operação.

Diante desse cenário, duas hipóteses explicam o silêncio seletivo da Globo — e nenhuma delas a isenta de responsabilidade editorial. A primeira é o interesse político-eleitoral: desgastar o governo Lula a poucos meses das eleições de 2026 rende mais audiência e engajamento do que expor um escândalo que envolve aliados de ambos os lados do espectro político. A segunda é a pauta guiada por vazamentos: a emissora se tornou refém de informações fornecidas por procuradores "lavajatistas", que usam a imprensa como arma para influenciar investigações e o debate público.

O jornalismo tem o dever de informar com proporção, critério e isonomia. Quando uma coluna social com contornos de investigação ocupa capas e telejornais, enquanto um rombo bilionário que lesa aposentados, se mistura com dinheiro do tráfico e envolve o entorno dos Bolsonaro é tratado como coadjuvante, a mídia não está prestando um serviço à verdade — está escolhendo um lado.

A seletividade na cobertura não é um acaso. É uma opção editorial que revela muito mais sobre os interesses de quem noticia do que sobre os fatos em si. Enquanto isso, o povo brasileiro continua pagando a conta — tanto a do INSS, quanto a de uma imprensa que insiste em tratar o país como um ringue de disputas políticas, em vez de um Estado que precisa ser investigado com seriedade e imparcialidade.

Com informações de O Globo, G1, Folha de S.Paulo, O Estado de S. Paulo, UOL, Congresso em Foco, CartaCapital, Gazeta do Povo, O Povo, Imprensa Ética, BBC Brasil, Poder360, Brasil 247, Diário do Centro do Mundo, Revista Fórum, Metrópoles, JOTA, ConJur, Band, Estadão ■

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