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Os holofotes da grande imprensa, capitaneados por O Globo, estão fixos sobre a empresária Roberta Luchsinger e sua relação com Fábio Luís Lula da Silva, o Lulinha. A narrativa construída busca transformar uma operação financeira lícita e um contrato de domínio público em um escândalo nacional de primeira página. Enquanto isso, o que realmente afeta o bolso e a dignidade de milhões de brasileiros — o rombo bilionário no INSS — permanece tratado como coadjuvante, quase um detalhe.
Do que se trata, afinal, a suposta "matéria de capa"? A Polícia Federal investiga uma transferência financeira de Roberta Luchsinger, apontada como lobista e amiga de Lulinha, para o ex-chefe do Gabinete Pessoal da Presidência, Marco Aurélio Santana Ribeiro, conhecido como Marcola. O ex-assessor de Lula afirma ter recebido os valores como um empréstimo pessoal já quitado, no valor de R$ 249 mil.
Vamos aos fatos objetivos que desmontam a tese do "escândalo":
O que O Globo e outros veículos chamam de "escândalo" resume-se a isso: uma transação financeira lícita entre particulares, um contrato público e uma amizade. A própria defesa de Marcola já esclareceu o ocorrido: "Nunca tive nenhuma relação que caracterize qualquer ilegalidade no exercício de minha função". A equipe de Lula, segundo o blog do Valdo Cruz, classificou o episódio como um "erro" do ex-assessor, mas confiou em sua versão.
Se o critério para manchete é a relevância pública, por que o jornal insiste em tratar como crime consumado o que a própria PF ainda investiga como suspeita? A resposta talvez esteja na lógica do espetáculo: é mais rentável transformar uma coluna social em escândalo nacional do que enfrentar a complexidade de um crime que realmente dói no bolso do cidadão.
Enquanto a capa é ocupada por essa "trama" de gabinete, um escândalo de proporções bíblicas segue seu curso nas páginas internas — quando é mencionado. A Operação Sem Desconto, da Polícia Federal, investiga o desvio de até R$ 6,3 bilhões dos contracheques de aposentados e pensionistas do INSS. O cerne da investigação é um sofisticado esquema de fraudes que descontava valores indevidos dos benefícios de milhões de idosos e pensionistas, muitos dos quais dependem exclusivamente desse recurso para sobreviver.
Nesse contexto, um nome surge como peça central: Willer Tomaz. O advogado é apontado pela PF como um dos principais beneficiários e operadores do esquema. O ministro André Mendonça, do STF, o caracterizou como um verdadeiro "hub financeiro, patrimonial e logístico" posto à disposição dos beneficiários do esquema. As investigações apontam que Tomaz mantinha relações com o senador Weverton Rocha (PDT-MA), vice-líder do governo, e teria utilizado empresas de fachada para lavar os valores desviados.
A dimensão do crime é estarrecedora:
Este, sim, é um escândalo que merece capa. Um crime que sangra a Previdência, lesa os mais vulneráveis e envolve uma teia de corrupção que atravessa o Congresso, o Judiciário, o Executivo e, porque não, as colunas sociais: Willer Tomaz é amigo pessoal do candidato à Presidência Flávio Bolsonaro. No entanto, a cobertura da grande imprensa sobre o caso tem sido tímida, ou nula, relegada a notas em cadernos de política ou a zero menções no Jornal Nacional.
Por que a mídia trata com tão diferentes pesos dois casos que, em tese, deveriam ter a mesma relevância pública? A resposta é incômoda: enquanto o caso Luchsinger-Lulinha permite explorar a narrativa do "tráfico de influência" no entorno do presidente Lula — com todos os apelos emocionais e políticos que isso carrega —, o escândalo do INSS envolve atores de diferentes espectros políticos, exigiria uma apuração mais complexa e poderia expor disfunções estruturais do sistema que vão além de uma mera disputa partidária.
O jornalismo tem o dever de informar com proporção e critério. Transformar uma coluna social em escândalo nacional, enquanto um crime bilionário contra aposentados segue em segundo plano, é uma distorção que fere a ética jornalística e desinforma o público. A manchete de O Globo não é um serviço à verdade; é um desserviço à cidadania.
Ao final, resta a pergunta que não quer calar: onde estaria o crime no caso Luchsinger? E, mais importante: por que o verdadeiro crime — o que desvia bilhões de quem já tem tão pouco — não ocupa o mesmo espaço?
Com informações de O Globo, Valor Econômico, G1, UOL, Poder360, Folha de S.Paulo, Gazeta do Povo, O Estado de S. Paulo, Metrópoles, CNN Brasil, Revista Fórum, R7, Diário do Centro do Mundo, Diário de Pernambuco, Migalhas, O Bastidor, TV Pampa, Times Brasil ■