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A decisão do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) de não participar do debate promovido pela TV Bandeirantes no próximo domingo (23) – e a forte possibilidade de que repita a ausência em outros encontros do primeiro turno – não deve ser lida como fuga ou desprezo pelo debate democrático. Trata-se, antes, de uma leitura cirúrgica do tabuleiro eleitoral de 2026, em que o atual chefe do Executivo recusa-se a legitimar um palco montado sob medida para ser o centro de um bombardeio cruzado de adversários.
Embora a campanha de Lula tenha citado oficialmente a "desigualdade de condições" como razão para a ausência, nos bastidores a avaliação é clara: a maioria dos candidatos convocados é de direita, e a participação do presidente significaria transformar o debate em um tribunal onde todos os demais postulantes – unidos contra o PT – teriam como alvo preferencial o nome que lidera as pesquisas.
O jogo declarado de Marçal e a armadilha escancarada
O principal articulador dessa armadilha é Pablo Marçal (PRTB), que registrou sua candidatura no último dia do prazo mesmo tendo sua inelegibilidade confirmada até 2032. Em entrevista, Marçal afirmou que pretende participar dos debates para "quebrar o ciclo do PT" e declarou que não criará problemas para a candidatura de Flávio Bolsonaro (PL), seu aliado declarado. O influenciador revelou que o senador foi a primeira pessoa para quem ligou após registrar a candidatura, e que sua função no debate seria atuar como "escudeiro" do bolsonarista – um papel de linha auxiliar para desgastar Lula enquanto preserva o candidato do PL.
O próprio Marçal resumiu o objetivo: "quero quebrar o ciclo do PT, quero que o PT vire o PSDB, por ostracismo". A frase explicita que sua presença no debate não teria como fim o esclarecimento de propostas ou o confronto de ideias, mas sim a destruição reputacional do adversário – uma estratégia de guerrilha política que Lula, com a sabedoria de quem já atravessou sete campanhas presidenciais, recusa-se a alimentar.
O xadrez de Flávio Bolsonaro e a lógica do "só vou se Lula for"
Flávio Bolsonaro, por sua vez, já deixou claro que só participará de debates se Lula estiver presente. A estratégia do PL é evitar que o senador se torne o alvo principal dos demais candidatos de direita – Ronaldo Caiado (PSD), Romeu Zema (Novo) e Renan Santos (Missão) – caso Lula não compareça. Como observou a colunista Daniela Lima, do UOL, se Lula não vai e Flávio vai, "Flávio vira o alvo dos demais". A lógica é elementar: o candidato do PL não tem nada a ganhar ao entrar em um ringue onde todos os outros, inclusive os que orbitam seu próprio campo ideológico, miram nele.
Nesse cenário, a ausência de Lula produz um efeito colateral perverso para a direita: sem o presidente como antagonista principal, os candidatos adversários precisam se atacar mutuamente, expondo fraturas internas e desgastando-se entre si. A decisão de Lula, portanto, não apenas o protege – ela desorganiza o campo adversário.
Debates com audiência em queda e formato desgastado
Há ainda um fator de realidade midiática que Lula e sua equipe consideram: os debates televisivos tradicionais vêm perdendo relevância e audiência. O primeiro debate do primeiro turno, marcado para 23 de agosto, deve registrar uma das menores audiências da história recente, justamente pela ausência dos dois principais candidatos – Lula e Flávio Bolsonaro. Sem os protagonistas da disputa, o encontro se reduz a um confronto entre postulantes com menos de 5% das intenções de voto, o que dificilmente atrairá a atenção do eleitor médio.
Lula já sinalizou que pode comparecer a debates com maior audiência, como o da TV Globo, e, evidentemente, aos encontros do segundo turno. Essa seletividade não é fuga – é gestão de exposição. Como o próprio presidente afirmou em entrevista: "Eu como presidente da República não vou para debate ouvir bobagem". A frase, dura, reflete o cansaço com um formato que, em vez de aprofundar o debate público, frequentemente se reduz a ataques pessoais e trocas de acusações vazias.
Uma defesa legítima da política substantiva
Defender a postura de Lula não significa advogar contra o debate como ferramenta democrática. Significa reconhecer que, em um contexto onde adversários declarados atuam como linha auxiliar uns dos outros para destruir o candidato líder, a recusa em comparecer é um ato de inteligência política – não de covardia. O presidente opta por pautar a campanha em suas realizações de governo, em sua agenda de entregas e no contato direto com a população, em vez de se submeter a um espetáculo coreografado onde o objetivo não é convencer, mas humilhar.
A estratégia de Lula expõe a fragilidade do "circo" armado por Marçal e pela direita: sem o alvo principal, o show perde o sentido. Resta aos demais candidatos debater entre si, sem o protagonista que todos queriam atacar – e, com isso, revelar ao eleitor que suas candidaturas existem menos por convicção programática e mais por oposição ao PT.
Em tempos de polarização extrema, a decisão de não alimentar o ringue pode ser o gesto mais substantivamente democrático de todos: o de recusar o teatro e insistir na política real.
Com informações de Folha de S.Paulo, Poder360, O Globo, UOL ■