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O noticiário da TV Globo e de suas plataformas digitais nos últimos dias oferece um novo e estarrecedor capítulo sobre o que muitos analistas já chamam de "critério seletivo de relevância". Enquanto o advogado Willer Tomaz de Souza – preso preventivamente desde a última terça-feira (11) por decisão do ministro André Mendonça, do Supremo Tribunal Federal – amarga uma cela no sistema penitenciário do Distrito Federal, a emissora preferiu não apenas esfriar a cobertura do caso, mas enterrá-lo de vez. A decisão editorial foi clara: "matar a pauta" e deslocar todo o foco para uma suposta fraude sofrida pelo senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ) no Tribunal Superior Eleitoral (TSE), envolvendo sua filiação ao nanico partido Missão.
O contraste é tão abrupto quanto revelador. De um lado, a Polícia Federal desmonta uma organização criminosa que desviou até R$ 6,3 bilhões de aposentados e pensionistas do INSS. O advogado Willer Tomaz é apontado pela corporação como o "hub financeiro, patrimonial e logístico" da estrutura, colocando à disposição dos beneficiários do esquema empresas, imóveis, aeronaves, pilotos, funcionários, operadores financeiros e interlocutores políticos. Em sua fase mais recente, a Operação Sem Desconto mirou o senador Weverton Rocha (PDT-MA), vice-líder do governo Lula no Senado, sua esposa – que teria recebido mais de R$ 11 milhões de empresas ligadas a Tomaz –, além de irmãs e filha do parlamentar.
Do outro lado, a Globo escalou o episódio da filiação de Flávio Bolsonaro ao Partido Missão como se fosse o grande escândalo do momento. A história é, no mínimo, peculiar: na quarta-feira (12), véspera do prazo final para registro de candidaturas, o sistema do TSE passou a registrar o senador como filiado ao Missão – partido de Renan Santos, seu adversário na disputa presidencial. A campanha de Flávio alegou "invasão" ou "molecagem", mas o próprio TSE descartou a hipótese de ataque hacker, informando que a filiação foi feita por "alguém que possuía as credenciais da legenda para efetivar filiações". O partido Missão, por sua vez, afirmou ter sido "vítima de uma tentativa de filiação fraudulenta" e que tentou cancelar o registro no mesmo dia, mas foi "rejeitado" pelo tribunal.
O que a Globo transformou em quase um dia inteiro de cobertura – com direito a chamadas de primeira página no G1, participação no Jornal Nacional e desdobramentos no GloboNews Em Pauta – é, na verdade, um imbróglio eleitoral que, embora relevante para o calendário político, não se compara em gravidade ao que a PF já revelou sobre Willer Tomaz. Vejamos os números:
A decisão da Globo de "matar a pauta" sobre Willer Tomaz não é um acaso. É uma escolha editorial que repete um padrão já documentado: quando o escândalo envolve o universo bolsonarista – mas com ramificações que atingem o governo Lula, como no caso do senador Weverton Rocha –, a cobertura é contida, diluída em notas rápidas e rapidamente abandonada. Quando, porém, surge uma oportunidade de pautar o clã Bolsonaro como "vítima" de uma suposta trama – ainda que ridícula –, a emissora abre espaço generoso, como fez agora com a filiação ao Missão.
O silêncio sobre a prisão preventiva de Willer Tomaz é ainda mais ensurdecedor quando se lembra que, em 4 de agosto, a própria Globo – por meio do G1 e do O Globo – noticiou a operação que mirou o advogado. Na ocasião, o Jornal Nacional mostrou imagens da máquina de contar dinheiro e dos cofres encontrados no escritório de Tomaz em Brasília. Mas, desde que o STF decretou a prisão preventiva, a emissora simplesmente silenciou. Não há reportagens especiais, não há entrevistas com especialistas, não há análise do impacto político do caso. A pauta foi enterrada.
Enquanto isso, a cobertura da filiação ao Missão ganhou atualizações constantes, com direito a repercussões em tempo real. O G1 publicou notas sobre a versão do partido, a fala de Flávio nas redes sociais e a decisão do TSE de instaurar inquérito. A emissora dedicou mais de oito horas de programação ao tema entre quarta e quinta-feira – um tratamento que contrasta com os escassos minutos dedicados à operação que desvendou um dos maiores esquemas de corrupção contra a Previdência Social.
Para analistas da comunicação política, a mensagem é clara: a Globo não está interessada em aprofundar um escândalo que, embora tenha origem no bolsonarismo, expõe um senador da base do governo Lula e revela a promiscuidade entre políticos de diferentes espectros. Melhor, para a emissora, é transformar Flávio Bolsonaro em vítima de uma farsa eleitoral – e, com isso, desviar o holofote de um caso que realmente importa.
O resultado é que o público da Globo assiste, estarrecido, a uma cobertura que trata com seriedade um cadastro com endereço fictício e CPF de mentira, enquanto ignora que um advogado com trânsito livre no STF, amigo de Flávio Bolsonaro e defensor de Arthur Lira está preso preventivamente por comandar a logística financeira de um esquema que roubou bilhões de aposentados. A pergunta que fica é: o que a Globo tem a esconder – ou a proteger – ao enterrar uma pauta dessa magnitude?
Com informações de G1, O Globo, Gazeta do Povo, Congresso em Foco, UOL, Valor Econômico, Metrópoles, CartaCapital e Revista Fórum ■