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O noticiário da TV Globo e de suas plataformas digitais voltou a escancarar, nos últimos dias, um descompasso editorial que já não pode ser atribuído ao acaso. Enquanto a Polícia Federal aprofundava as investigações contra o advogado Willer Tomaz — preso preventivamente nesta terça-feira (11) por decisão do ministro André Mendonça, do STF —, a emissora preferiu manter o foco em um caso periférico: o empréstimo de R$ 249 mil feito pela empresária Roberta Luchsinger, amiga de Lulinha, ao ex-chefe de gabinete da Presidência, Marco Aurélio "Marcola" Santana.
O contraste é, no mínimo, gritante. De um lado, a PF apreendeu uma máquina de contar dinheiro no escritório de Willer Tomaz, em Brasília, além de valores em espécie e documentos que apontam para uma estrutura organizada de lavagem de dinheiro. O advogado, amigo pessoal do senador e pré-candidato à Presidência Flávio Bolsonaro (PL-RJ), é descrito pela corporação como um "hub financeiro, patrimonial e logístico" que reunia empresas, imóveis, aeronaves, pilotos, funcionários, operadores financeiros e interlocutores políticos.
Do outro lado, o Jornal Nacional e os telejornais da Globo dedicaram mais de dez minutos em bloco único ao caso do empréstimo de Roberta Luchsinger — um valor que corresponde a menos de 0,6% das movimentações atípicas atribuídas a Willer Tomaz, estimadas em R$ 45,5 milhões. A cobertura se estendeu por quase nove horas de programação, com repercussões no Jornal da Globo, no GloboNews Em Pauta e nas edições digitais do G1 e do O Globo.
A diferença de tratamento não passou despercebida. Em artigo publicado no Brasil 247, o jornalista Renato Rovai apontou que "os jornalões Globo, Folha e Estadão estamparam manchetes rigorosamente idênticas sobre o indiciamento de Lulinha". O advogado de Lulinha, Marco Aurélio Carvalho, foi ainda mais incisivo ao afirmar, em entrevista à Revista Fórum, que a Globo "retoma velhos métodos da Lava Jato – um período tenebroso no país" e "usa a imagem do filho para desgastar o presidente Lula".
O que os números revelam é uma escalada de desproporção que fere os mais elementares critérios de relevância jornalística:
O caso do empréstimo de Luchsinger, por sua vez, ainda está em fase inicial de apuração. A própria PF, em nota, não estabeleceu qualquer vínculo direto entre o repasse e os descontos ilegais no INSS. A empresária já acionou o STF por suposto vazamento seletivo de informações, e o ex-chefe de gabinete Marcola afirmou que a transação foi um empréstimo pessoal já quitado.
Para analistas da comunicação política, a escolha editorial da Globo revela um padrão já conhecido: enquanto o escândalo envolve o clã Bolsonaro, a cobertura é diluída em notas rápidas ou relegada a blogs especializados; quando o alvo é o governo Lula, ainda que por conexões tênues, o espaço em telejornais de grande audiência é generoso. Prova disso é que o próprio O Globo publicou, em seu site, um perfil de Willer Tomaz e uma reportagem sobre a apreensão da máquina de dinheiro — mas nenhum dos dois conteúdos teve o mesmo destaque na TV aberta.
O silêncio da emissora sobre o avanço das investigações contra Willer Tomaz contrasta com o peso do que a PF já revelou. A Operação Sem Desconto, que já dura mais de um ano, investiga um esquema nacional de cobranças não autorizadas sobre aposentadorias e pensões do INSS, com prejuízos estimados em centenas de milhões de reais. Enquanto isso, a audiência da Globo assistiu, entre terça e quarta-feira, a quase sete horas de cobertura sobre um empréstimo de R$ 249 mil — e viu, quando muito, notas de rodapé sobre o advogado que, segundo a PF, movimentou dezenas de milhões e mantinha uma máquina de contar dinheiro em seu escritório.
A prisão preventiva de Willer Tomaz, decretada nesta terça-feira (11) pelo ministro André Mendonça, aprofunda ainda mais o fosso entre a gravidade dos fatos e a cobertura midiática. Enquanto o advogado é levado ao sistema penitenciário do Distrito Federal, a Globo segue em sua escalada de ataques a Lulinha — um roteiro que, para muitos, já se tornou previsível e desgastado.
Com informações de Imprensa Ética, Brasil 247, O Globo, Valor Econômico, G1, UOL Notícias, CartaCapital, Congresso em Foco, Gazeta do Povo e Revista Fórum ■