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Globo dedica quase 9 horas a empréstimo de amiga de Lulinha e ignora hub do INSS
Enquanto a PF cumpria 18 mandados contra o advogado Willer Tomaz, apontado como operador financeiro de esquema bilionário, a emissora carioca preferiu escalar o caso de um repasse de R$ 249 mil entre a empresária Roberta Luchsinger e o ex-chefe de gabinete de Lula
Analise
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■   Bernardo Cahue, 05/08/2026

A cobertura jornalística da TV Globo na última terça-feira (4) escancarou um descompasso que já circula nos bastidores da política e do jornalismo: enquanto a Polícia Federal deflagrava a nova fase da Operação Sem Desconto, com 18 mandados de busca e apreensão contra o advogado Willer Tomaz — apontado como “hub financeiro, patrimonial e logístico” de um esquema de fraudes bilionárias contra aposentados e pensionistas do INSS —, a emissora dedicou quase sete horas de sua programação a um único desdobramento periférico: o empréstimo pessoal de R$ 249 mil feito pela empresária Roberta Luchsinger, amiga de Lulinha, ao ex-chefe de gabinete da Presidência, Marco Aurélio “Marcola” Santana.

O contraste é gritante. De um lado, a PF apreendeu uma máquina de contar dinheiro no escritório de Willer Tomaz, em Brasília, além de valores em espécie não divulgados. O advogado, amigo pessoal do senador e pré-candidato à Presidência Flávio Bolsonaro (PL-RJ), é descrito pela corporação como o responsável por prover a “sustentação financeira e patrimonial” da organização criminosa. Relatórios da PF citam R$ 45,5 milhões em movimentações consideradas atípicas atribuídas a Tomaz entre maio e novembro de 2021, além de transferências de R$ 120 mil a Milton Salvador de Almeida Júnior, que depois assumiu a direção de empresas do “Careca do INSS”, apontado como o principal operador das fraudes.

Do outro lado, o Jornal Nacional e os telejornais da Globo dedicaram mais de dez minutos — em bloco único — ao caso do empréstimo de Roberta Luchsinger a Marcola, um valor que corresponde a menos de 0,6% das movimentações atípicas de Willer Tomaz. A cobertura se estendeu por praticamente nove horas de programação, com repercussões no Jornal da Globo, no GloboNews Em Pauta e nas edições digitais do G1 e do O Globo, que estamparam manchetes sobre o repasse.

A diferença de tratamento não passou despercebida. Em artigo publicado no Brasil 247, o jornalista Renato Rovai apontou que “os jornalões Globo, Folha e Estadão estamparam manchetes rigorosamente idênticas sobre o indiciamento de Lulinha”, enquanto “o militante bolsonarista Nunes Marques à frente do Tribunal Superior Eleitoral se constitui em séria ameaça à lisura do pleito”. O advogado de Lulinha, Marco Aurélio Carvalho, foi ainda mais incisivo ao afirmar, em entrevista à Revista Fórum, que a Globo “retoma velhos métodos da Lava Jato – um período tenebroso no país” e “usa a imagem do filho para desgastar o presidente Lula”.

O silêncio da emissora sobre o avanço das investigações contra Willer Tomaz contrasta com o peso do que a PF já revelou:

  • O advogado é apontado como o operador de um “hub financeiro, patrimonial e logístico” que reunia empresas, imóveis, aeronaves, pilotos, funcionários, operadores financeiros e interlocutores políticos.
  • Samya Rocha, esposa do senador Weverton Rocha (PDT-MA) — vice-líder do governo Lula no Senado — recebeu mais de R$ 11 milhões de empresas ligadas a Willer Tomaz.
  • O ministro André Mendonça, do STF, que autorizou a operação, destacou que o senador Weverton Rocha “teria se beneficiado dos valores ilícitos provenientes dos descontos associativos fraudulentos”.
  • Willer Tomaz já havia sido preso em 2017, em desdobramento da Operação Lava Jato, suspeito de intermediar propina a um procurador da República.
  • O escritório do advogado em Brasília, no Lago Sul, tem trânsito livre entre ministros do STF e do STJ, e ele atuou como defensor do presidente da Câmara, Arthur Lira (PP-AL).

O caso do empréstimo de Luchsinger, por sua vez, ainda está em fase inicial de apuração. A própria PF, em nota, não estabeleceu qualquer vínculo direto entre o repasse e os descontos ilegais no INSS. A empresária já acionou o STF por suposto vazamento seletivo de informações, e o ex-chefe de gabinete Marcola afirmou que a transação foi um empréstimo pessoal já quitado.

Para analistas da comunicação política, a escolha editorial da Globo revela um padrão já conhecido: enquanto o escândalo envolve o clã Bolsonaro, a cobertura é diluída em notas rápidas ou relegada a blogs especializados; quando o alvo é o governo Lula, ainda que por conexões tênues, o espaço em telejornais de grande audiência é generoso. Prova disso é que o próprio O Globo publicou, em seu site, um perfil de Willer Tomaz e uma reportagem sobre a apreensão da máquina de dinheiro — mas nenhum dos dois conteúdos teve o mesmo destaque na TV aberta.

A Operação Sem Desconto, que já dura mais de um ano, investiga um esquema nacional de cobranças não autorizadas sobre aposentadorias e pensões do INSS, com prejuízos estimados em centenas de milhões de reais. Willer Tomaz, em nota, afirmou que “não é investigado no âmbito da Operação Sem Desconto e não possui qualquer vínculo com o esquema de fraudes em descontos previdenciários apurado pela Polícia Federal”. A defesa do advogado também já recorreu ao STF contra os mandados de busca e apreensão.

Enquanto isso, a audiência da Globo assistiu, entre terça e quarta-feira, a quase sete horas de cobertura sobre um empréstimo de R$ 249 mil — e viu, quando muito, notas de rodapé sobre o advogado que, segundo a PF, movimentou dezenas de milhões e mantinha uma máquina de contar dinheiro em seu escritório.

Com informações de O Globo, G1, Brasil 247, Revista Fórum, CartaCapital, Metrópoles, UOL, Estadão, Valor Econômico e Congresso em Foco ■

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