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Sem Lula nos debates, Flávio Bolsonaro se torna alvo único
Ausência do petista em confrontos do primeiro turno expõe o bolsonarista a ataques concentrados de adversários de direita e extrema-direita; episódios de 2016 — suposta ligação com milícias, mal-estar ao vivo e socorro de Jandira Feghali — voltam a assombrar a campanha
Analise
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■   Bernardo Cahue, 04/08/2026

A decisão do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) de não participar dos debates do primeiro turno da eleição presidencial de 2026 não apenas altera a dinâmica do confronto eleitoral como também reposiciona o papel de seu principal adversário, o senador Flávio Bolsonaro (PL). Com a saída do petista do tablado, a avaliação nas campanhas adversárias é unânime: o filho do ex-presidente Jair Bolsonaro se tornará o “alvo único” dos ataques dos demais candidatos, todos posicionados no campo da direita e da extrema-direita.

A estratégia de Lula, já anunciada publicamente, prevê que o presidente substitua os debates coletivos por entrevistas individuais e sabatinas, privilegiando o controle da agenda e evitando ser “ilhado” por adversários que, juntos, concentrariam críticas contra ele. Como consequência direta, Flávio Bolsonaro, que até então se preparava para enfrentar o petista em confrontos diretos, vê-se agora na posição incômoda de ser o principal nome a ser desgastado pelos concorrentes. A campanha do senador já sinalizou que ele só comparecerá aos debates em que Lula estiver presente, justamente pelo receio de se tornar o foco das investidas.

“Parte da campanha de Flávio avalia que a presença dele só se justifica pelo embate direto com Lula”, resume a análise publicada pela revista Veja. Sem o petista, o senador fluminense ficaria exposto a um cenário no qual Ronaldo Caiado (PSD), Romeu Zema (Novo) e Renan Santos (Missão) — todos adversários que disputam o mesmo eleitorado conservador — teriam estímulo para mirar suas críticas no bolsonarista.

O que torna essa exposição ainda mais delicada para Flávio é o resgate, por parte da oposição e da imprensa, de episódios constrangedores de sua trajetória política. O mais emblemático ocorreu em 2016, quando ele disputou a Prefeitura do Rio de Janeiro e passou mal ao vivo durante um debate promovido pela TV Bandeirantes. Na ocasião, o então candidato do PSC sofreu uma queda de pressão, ameaçou cair e foi amparado pelos adversários Jandira Feghali (PCdoB) e Carlos Roberto Osorio (PSDB).

O episódio, que interrompeu o debate e impediu Flávio de retornar ao programa, ganhou contornos ainda mais dramáticos quando a deputada Jandira Feghali, que é médica, ofereceu-se para socorrê-lo e teve o auxílio recusado pelo pai do candidato, o então deputado federal Jair Bolsonaro. “Fascista, réu por estupro!”, reagiu Jandira ao vivo, enquanto Jair Bolsonaro dizia que ela daria “estricnina” para seu filho. O mal-estar foi atribuído pelos assessores a uma intoxicação alimentar que teria vitimado também um de seus colaboradores.

Nos anos seguintes, o episódio ganhou versões nas redes sociais que mencionam que o senador teria defecado nas calças durante o incidente — relato nunca confirmado oficialmente, mas que se tornou uma narrativa recorrente entre opositores e na internet. O próprio fato de Flávio ter precisado ser amparado por uma adversária política de esquerda, Jandira Feghali, tornou-se um símbolo da fragilidade do candidato sob pressão e é constantemente resgatado em debates virtuais sempre que seu nome é lembrado.

Além do episódio de saúde, outro fantasma que ronda a campanha de Flávio Bolsonaro é a sua suposta ligação com milícias no Rio de Janeiro. Ao longo dos anos, reportagens investigativas apontaram que o senador empregou em seu gabinete parentes de suspeitos de chefiar grupos paramilitares e que sua trajetória política foi marcada por homenagens a policiais denunciados por integrar organizações criminosas. A acusação de que Flávio teria “financiado e lucrado com a construção ilegal de prédios erguidos pela milícia usando dinheiro público” já foi alvo de reportagens do Intercept Brasil e de outros veículos, e voltará a ser tema central nos ataques dos adversários em um debate sem Lula.

Para analistas políticos, a ausência do petista no primeiro turno transforma o confronto em uma arena na qual Flávio Bolsonaro será cobrado não apenas por suas propostas, mas por todo o histórico familiar e pessoal que seus adversários de direita explorarão para tentar desidratar sua candidatura. “Sem Lula, o debate vira um ‘Flávio contra todos’”, resume a leitura de bastidores. O senador, que tenta construir uma imagem de “Bolsonaro moderado” para atrair eleitores que rejeitam o estilo radical do pai, verá esse esforço ser colocado à prova diante de adversários que não hesitarão em ressuscitar cada capítulo controverso de sua vida pública.

Nesse cenário, a decisão de Lula de não participar dos debates revela-se não apenas uma estratégia de preservação do líder nas pesquisas, mas também um movimento que transfere o centro da pressão eleitoral para seu principal oponente. Resta saber se Flávio Bolsonaro, que já sinalizou que pode seguir o exemplo do petista e também faltar aos confrontos, terá estômago — e resistência — para encarar o que promete ser um verdadeiro paredão de críticas ao vivo, ou se preferirá, como em 2016, buscar uma saída de cena antes do apito final.

Com informações de O Globo, Estadão, Gazeta do Povo, Veja, CNN Brasil, BBC News Brasil, Poder360, UOL e Jota ■

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