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Nos últimos meses, uma onda de desinformação tem assombrado os mais de 160 milhões de brasileiros que utilizam o Pix diariamente. Vídeos manipulados por inteligência artificial — os chamados deepfakes — passaram a circular com força em aplicativos de mensagem e redes sociais, anunciando o fim do Pix e a suposta substituição do sistema de pagamentos instantâneos por uma nova plataforma controlada pelo governo ou por instituições privadas. Apesar de não haver qualquer fundamento nessas alegações, o impacto sobre a população já é preocupante: boatos semelhantes, como o da falsa “taxação do Pix” no início de 2025, atingiram mais de 9,4 milhões de brasileiros em apenas uma semana.
O que está em jogo, segundo analistas, vai muito além de um simples boato. A utilização de deepfakes para simular falas de autoridades — como o presidente da República, ministros e diretores do Banco Central — representa uma nova fronteira dos golpes financeiros e da manipulação da opinião pública. Em julho de 2025, por exemplo, o Estadão Verifica desmentiu um vídeo que clonava a voz de Paulo Picchetti, diretor do Banco Central, para anunciar uma falsa indenização a usuários do Pix. A tecnologia, segundo a ferramenta Hive Moderation, apontava 72,7% de probabilidade de o conteúdo ter sido gerado por IA ou deepfake.
O mecanismo é sempre o mesmo: criminosos produzem vídeos hiper-realistas em que figuras públicas parecem anunciar mudanças drásticas no sistema financeiro. Em seguida, disseminam o conteúdo em massa por WhatsApp, Facebook, Instagram e X (antigo Twitter), muitas vezes com o apoio de anúncios pagos. Um estudo do NetLab, da Universidade Federal do Rio de Janeiro, identificou que mais de 1.770 anúncios fraudulentos sobre o Pix circularam apenas entre 10 e 21 de janeiro de 2025 nas plataformas da Meta. Esses anúncios, muitos deles contendo deepfakes de políticos como o deputado Nikolas Ferreira (PL-MG), foram impulsionados financeiramente para alcançar o maior número possível de pessoas.
Diante da escalada da desinformação, o Banco Central adotou uma postura ativa de combate às fake news. Em janeiro de 2025, a autarquia publicou um vídeo irreverente nas redes sociais, utilizando a música viral “Descer para BC” para desmentir os boatos sobre taxação e quebra de sigilo bancário. Na ocasião, o BC reafirmou três pontos fundamentais:
O governo federal também agiu em outra frente. Em 15 de janeiro de 2025, foi editada uma Medida Provisória para reforçar a gratuidade do Pix, com o objetivo de “blindar o Pix de toda mentira que diversos atores nas redes sociais produziram com um único objetivo: causar desassossego e desordem no ambiente digital”. A Advocacia-Geral da União (AGU), por sua vez, acionou a Polícia Federal para investigar a origem das fake news sobre o sistema de pagamentos.
Apesar dessas iniciativas, os especialistas alertam que o problema está longe de ser resolvido. De acordo com dados do setor, os golpes envolvendo Pix somaram cerca de 28 milhões de casos em 2025, com prejuízos acumulados de R$ 2,7 bilhões em dois anos. E a tendência, segundo analistas de segurança digital, é que as fraudes se tornem ainda mais sofisticadas com o avanço da inteligência artificial generativa. Deepfakes, clonagem de voz e falsas centrais de atendimento estão entre as principais ameaças para 2026.
Outro aspecto preocupante é a instrumentalização política da desinformação sobre o Pix. Em abril de 2026, circulou uma montagem que associava o senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ) à defesa do fim do sistema de pagamentos. A assessoria do parlamentar desmentiu a informação, classificando a imagem como uma “montagem”. O episódio, no entanto, evidenciou como o debate sobre o Pix se tornou um campo de batalha narrativo em ano eleitoral, com cada lado acusando o outro de espalhar mentiras.
Para o cidadão comum, o impacto dessas fake news vai além da confusão informacional. Muitos brasileiros, especialmente os mais idosos e com menor acesso à educação digital, chegam a paralisar suas transações por medo de serem cobrados ou de perderem o dinheiro. Há relatos de comerciantes que deixaram de aceitar pagamentos via Pix e de consumidores que voltaram a usar apenas dinheiro físico, temendo que o sistema fosse desativado a qualquer momento.
Especialistas ouvidos pela reportagem fazem um alerta contundente: a desinformação sobre o Pix não é um fenômeno espontâneo, mas parte de um ecossistema organizado que combina interesses políticos, comerciais e criminosos. De um lado, plataformas digitais lucram com o engajamento gerado por conteúdos alarmistas. De outro, golpistas se aproveitam do pânico para aplicar fraudes, oferecendo falsos “resgates” ou “indenizações” que exigem o envio de dados bancários. E, no plano político, a narrativa do “fim do Pix” serve para desgastar a imagem do governo e semear desconfiança em uma das políticas públicas de maior sucesso popular das últimas décadas.
O Banco Central, por sua vez, reitera que não há qualquer medida em discussão que determine o encerramento do Pix. O que existe, neste momento, é uma disputa comercial e regulatória com os Estados Unidos — que abriram uma investigação contra o sistema em 2025 —, mas nada que ameace a continuidade do serviço para os brasileiros. As novas regras anunciadas para 2026, que tratam de exigências de capital social para instituições financeiras, não afetam os usuários finais e não significam o fim do Pix.
Diante desse cenário, a recomendação de especialistas em segurança digital e de órgãos oficiais é clara:
A batalha contra os deepfakes e as fake news sobre o Pix é, no fundo, uma batalha pela confiança — a confiança dos brasileiros em seu sistema de pagamentos, em suas instituições e uns nos outros. Enquanto a tecnologia avança em ritmo acelerado, a capacidade de discernimento do cidadão comum e a agilidade das autoridades em desmentir mentiras serão os principais fatores para evitar que o pânico financeiro se torne uma realidade. O Pix, como afirmou o presidente Lula em abril de 2026, veio para ficar: “Ninguém vai fazer a gente mudar o PIX”.
Com informações de Estadão Verifica, Agência Lupa, G1, Exame, Poder360, O Globo, UOL, BBC Brasil, IstoÉ, GaúchaZH, Agência Brasil, NetLab/UFRJ, Diário do Estado, ND Mais, Correio de Minas, Congresso em Foco, Welivesecurity e Banco Central do Brasil.
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