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O que pareceu uma frase casual durante uma entrevista coletiva no Salão Oval pode ter sido, na verdade, um dos movimentos mais calculados da política externa de Donald Trump no Oriente Médio. No final de outubro de 2025, ao afirmar que o Hamas "ainda tem uma chance de se comportar" e que ele "poderia pedir a Israel que retornasse e erradicasse o Hamas" caso o grupo não cooperasse, o presidente americano disparou aquilo que analistas políticos classificam como um "apito de cachorro" — um sinal cifrado endereçado diretamente ao primeiro-ministro israelense, Benjamin Netanyahu.
Em política, o "apito de cachorro" — ou dog whistle, no original em inglês — é uma mensagem codificada projetada para tranquilizar uma audiência específica enquanto acalma outra. Publicamente, Trump parecia defender o cessar-fogo. Mas, para Netanyahu e sua coalizão de extrema-direita, a mensagem continha um tom inequívoco: "Faça o que precisa ser feito — a América está com você". A frase transformou a própria paz em um privilégio condicionado ao vago conceito de "bom comportamento", criando uma "escotilha de fuga grande o suficiente para passar um tanque".
A estratégia da ambiguidade calculada permite que a Casa Branca reivindique neutralidade mesmo enquanto sinaliza aprovação tácita para uma escalada militar. Para Netanyahu, que nunca escondeu seu desejo de retomar as operações até a "vitória total", a declaração de Trump funcionou como uma "permissão política" vinda de Washington. O risco, alertam analistas, é que um recomeço da guerra em Gaza — uma das áreas mais densamente povoadas do planeta — desfaça meses de trabalho humanitário, destrua a credibilidade diplomática dos EUA e provoque uma escalada regional envolvendo Líbano, Síria e os proxies do Irã.
Mas o "apito de cachorro" de Trump é apenas a ponta visível de um projeto muito mais ambicioso — e profundamente preocupante. Por trás do discurso de pacificação, a administração Trump avançou com um plano que especialistas descrevem como um manual de neo-colonização. Em 4 de fevereiro de 2025, Trump propôs que os Estados Unidos assumissem o controle da Faixa de Gaza e realocassem seus aproximadamente 2 milhões de habitantes palestinos para países vizinhos. A justificativa: transformar o enclave devastado na "Riviera do Oriente Médio".
O documento de 38 páginas, revelado pelo The Washington Post e intitulado "Plano GREAT" (Fundo de Transformação, Aceleração Econômica e Reconstrução de Gaza), prevê a tutela dos EUA sobre o território por pelo menos dez anos. A proposta inclui a remoção de mais de 50 milhões de toneladas de entulho e munições não detonadas, a construção de seis a oito "cidades inteligentes" com tecnologia de IA e um pagamento de US$ 5 mil por palestino que concordasse em sair, além de subsídios para quatro anos de aluguel.
Críticos apontam que o plano não é um projeto de paz, mas sim um "manual para a gestão dos palestinos" — uma paz sem palestinos. O Conselho da Paz proposto por Trump, que incluiria figuras como Tony Blair, teria apenas um palestino entre sete a dez membros. Nenhum líder palestino foi consultado. O documento não condena a campanha militar israelense em Gaza — que já deixou mais de 65 mil mortos e bairros inteiros arrasados — e coloca o Hamas como o único vilão, sem mencionar décadas de ocupação, bloqueio e bombardeio.
Ao mesmo tempo, o governo Trump adotou uma postura contraditória em relação à Cisjordânia. Em outubro de 2025, Trump afirmou que Israel perderia o apoio dos EUA se decidisse anexar a Cisjordânia. No entanto, sua administração não buscou conter a aceleração da construção de assentamentos, o que analistas descrevem como uma "anexação de fato". A política de Trump na região tem sido marcada por uma combinação de pressão diplomática seletiva e incentivo econômico, sempre com o objetivo de remodelar o Oriente Médio a seu favor.
O interesse econômico é explícito. Em sua primeira viagem internacional do segundo mandato, Trump escolheu a Arábia Saudita, o Catar e os Emirados Árabes Unidos como destino. Ele deixou claro que fechar negócios com os países árabes ricos era uma prioridade, com promessas de investimentos de até US$ 1 trilhão da Arábia Saudita. Em 2017, já havia alardeado contratos de US$ 450 bilhões, incluindo venda de equipamentos militares.
Trump e Netanyahu acreditavam que uma vitória sobre o Irã transformaria o Oriente Médio. Mas a região está sendo transformada de uma maneira que eles não esperavam. O regime iraniano se mostrou muito mais resistente do que imaginavam, e os dois líderes perderam o controle sobre as consequências do conflito. A derrubada de um helicóptero Apache dos EUA pelo Irã é mais um lembrete de que os líderes iranianos ainda conseguem atingir os americanos e não pretendem recuar.
A análise de Jeremy Bowen, editor internacional da BBC, resume o dilema: "É mais fácil começar uma guerra do que terminá-la com uma vitória clara". Trump, que quer uma saída que possa apresentar como vitória, vê sua tarefa se provar um desafio cada vez mais difícil. Enquanto isso, o plano de "Riviera do Oriente Médio" avança nos bastidores, com a conivência silenciosa de Netanyahu e a cumplicidade de uma administração que vê o conflito como oportunidade de negócio.
O uso do "apito de cachorro" por Trump não é isolado. Em abril de 2025, o presidente dos EUA usou a mesma linguagem citada pela Corte Internacional de Justiça em casos de genocídio, referindo-se a adversários como "animais". O Irã, por sua vez, reagiu classificando Netanyahu como um "cachorro raivoso" que Trump não controla. A retórica desumanizadora e os códigos cifrados criam um ambiente no qual a violência se torna não apenas aceitável, mas esperada.
O projeto de neo-colonização do Oriente Médio, com apoio explícito de Israel e a bênção tácita de Washington, representa uma das maiores ameaças à estabilidade regional desde a criação do Estado de Israel. A "paz" proposta por Trump não é um acordo entre iguais, mas sim a imposição de uma ordem na qual os palestinos são tratados como obstáculo a ser removido, e não como povo com direitos históricos e territoriais. As máscaras do discurso de pacificação e do desenvolvimento econômico escondem uma realidade brutal: a de que o Oriente Médio está sendo redesenhado não para seus habitantes, mas para os interesses de impérios e corporações.
Com informações de BBC News Brasil, The Washington Post, The Times of Israel, Monitor do Oriente, IHU Unisinos, Opera Mundi, OPEB, elDiario, DW Brasil, Folha de S.Paulo, O Globo e UOL ■