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Extrema-direita apela para colunas sociais
Sem propostas de governo e isolada, a direita bolsonarista vê sua pré-candidatura presidencial perder fôlego e usa brigas familiares para ganhar destaque na imprensa
Analise
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■   Bernardo Cahue, 28/07/2026

A extrema-direita brasileira atravessa seu momento mais delicado desde a ascensão de Jair Bolsonaro ao poder, em 2018. A três meses das eleições presidenciais de outubro de 2026, o que se vê é um movimento em queda livre nas pesquisas de intenção de voto, desprovido de propostas de governo consistentes e consumido por disputas internas que têm sido acompanhadas de perto pelas colunas sociais como se fossem um reality show político. O desgaste do pré-candidato do PL, senador Flávio Bolsonaro, é evidente: em abril, ele aparecia numericamente à frente do presidente Lula (PT) na simulação de segundo turno da pesquisa Genial/Quaest, com 42% contra 40%. Em julho, a situação se inverteu brutalmente — Lula abriu oito pontos de vantagem (45% a 37%). No primeiro turno, a diferença chega a 12 pontos percentuais.

O movimento de recuo, segundo os dados, é explicado em grande parte pela perda de apoio entre dois públicos específicos: os eleitores independentes e os que se autodeclaram "direita não bolsonarista". Entre esses últimos, Flávio caiu de 84% para 74% das intenções de voto no segundo turno entre março e julho. O diretor da Quaest, Felipe Nunes, descreveu a situação como um "paradoxo da direita": Flávio perde força, mas nenhum outro nome da direita ou da centro-direita consegue ocupar esse espaço — somados, os candidatos alternativos alcançam apenas 12% das intenções de voto. É o retrato de um campo político que se desfaz por dentro, sem conseguir se reorganizar.

O "Rei Midas reverso" e a implosão da candidatura

O colapso eleitoral não é fruto do acaso. O próprio entorno de Flávio Bolsonaro tem sido palco de uma sucessão de escândalos que o The Intercept Brasil descreveu como "o ecossistema de corrupção implodindo a pré-candidatura". O senador acumula o que a reportagem chamou de "Rei Midas reverso": tudo o que toca vira inquérito. A chapa ao Senado que ele articulou no Rio de Janeiro desmoronou antes mesmo do primeiro comício — o cabeça de chapa, o ex-governador Cláudio Castro, tornou-se alvo da Polícia Federal em maio, foi declarado inelegível e desistiu da candidatura. Seu suplente, Márcio Canella, foi preso em flagrante com um fuzil calibre .556 no porta-malas.

Ao mesmo tempo, vieram a público as mensagens em que Flávio Bolsonaro pediu dinheiro ao banqueiro Daniel Vorcaro, do Banco Master, para financiar o filme "Dark Horse", sobre a vida do pai. O pedido foi de cerca de R$ 134 milhões, dos quais R$ 61 milhões teriam sido efetivamente pagos. O caso foi considerado um erro por 65% dos entrevistados da pesquisa Quaest. A defesa do senador, por sua vez, tem reagido com ataques à imprensa: aliados de Flávio acionaram o Supremo Tribunal Federal (STF) e o Tribunal Superior Eleitoral (TSE) para apurar supostos "vazamentos" , enquanto a Associação Brasileira de Jornalismo Investigativo (Abraji) repudiou publicamente os ataques do senador ao The Intercept. A Repórteres Sem Fronteiras (RSF) também condenou ameaças contra o veículo após reportagens sobre Flávio.

Milei em São Paulo: o eco das críticas e a crise diplomática

Em meio ao desgaste, a estratégia da extrema-direita foi recorrer a um velho expediente: importar críticas estrangeiras contra o STF e o governo Lula. No sábado, 25 de julho, o presidente da Argentina, Javier Milei, participou da convenção nacional do PL que oficializou a candidatura de Flávio Bolsonaro. Em um discurso inflamado de quase meia hora, Milei chamou o ministro Alexandre de Moraes de "lixo careca" e criticou duramente o presidente Lula e suas políticas sociais.

As falas tiveram repercussão imediata. O presidente do STF, ministro Edson Fachin, reagiu publicamente. O Ministério das Relações Exteriores convocou o embaixador da Argentina no Brasil para "transmitir a repulsa" do governo brasileiro e chamou o embaixador do Brasil em Buenos Aires para prestar esclarecimentos. A imprensa argentina classificou o episódio como a "maior crise diplomática do último meio século entre a Argentina e o Brasil". O jornal La Nación afirmou que o governo Milei já deixou claro "que não haverá pedido de desculpas". O Clarín, por sua vez, escreveu que "uma crise como esta, com insultos dirigidos a um chefe de Estado em seu próprio país, como os que Milei proferiu contra Lula no sábado no Brasil, é inédita na história democrática".

A tática de repetir as críticas de Milei, no entanto, parece ter surtido efeito contrário: em vez de fortalecer a candidatura, expôs o isolamento internacional da extrema-direita e sua dependência de figuras tão controversas quanto imprevisíveis. As falas do argentino, ademais, ecoam denúncias anteriormente veiculadas pelo The Intercept e que foram objeto de análise no STF — mas que, longe de fortalecer a narrativa bolsonarista, contribuíram para aprofundar as investigações sobre o entorno do ex-presidente.

A guerra dos Bolsonaro: quando a política vira "Casos de Família"

Se os dados das pesquisas e os escândalos já eram suficientes para comprometer a campanha, a extrema-direita ainda encontrou tempo para se autodestruir em praça pública. O gatilho foi a divulgação, em 24 de junho, de um vídeo de quase meia hora em que a ex-primeira-dama Michelle Bolsonaro disse ter sido "apunhalada", maltratada e humilhada pelo enteado Flávio. "Ele foi muito ríspido, me desrespeitou e me maltratou ao telefone", afirmou ela, relatando uma discussão sobre alianças eleitorais no Ceará. "Ele disse que seria melhor eu ficar fora das decisões do partido. Disse que eu havia chegado ontem e não entendia nada de política".

A briga expôs rachas profundos no clã. O ex-ministro Ricardo Salles, em entrevista à Folha, afirmou que as brigas no clã enfraquecem a direita e que o grupo político de Carlos e Eduardo Bolsonaro tem excluído quem não se dispõe a jurar "obediência absoluta". A colunista Daniela Lima, do UOL, resumiu o cenário: a direita vive "um grande 'Casos de Família'", com disputas internas que passaram a engolir o debate político.

O conflito, longe de ser apenas pessoal, tem implicações estratégicas profundas. A briga entre Michelle e Flávio envolve a definição de candidatos ao Senado e a prioridade na meta de conquistar maioria para cassar ministros do STF. Eduardo Bolsonaro já havia declarado que "o jogo mais interessante é o Senado porque ele é capaz de parar os ditadores de toga". Mas, com o clã em guerra aberta, a capacidade de articulação política do bolsonarismo fica seriamente comprometida. O presidente nacional do PL, Valdemar da Costa Neto, precisou retornar às pressas dos Estados Unidos para tentar apagar o incêndio.

Sem propostas, sem rumo e sem unidade

O quadro geral é de um movimento político que parece ter perdido o rumo. Sem propostas de governo minimamente articuladas para o país, a extrema-direita tem se dedicado a três frentes: atacar as pesquisas que apontam sua queda , repetir críticas importadas de Milei contra o STF e o governo Lula, e alimentar as colunas sociais com os bastidores de uma guerra familiar que, a cada dia, parece mais um reality show do que uma campanha presidencial.

Os números, no entanto, são implacáveis. A pesquisa Genial/Quaest de julho mostra que 65% dos eleitores dizem que a escolha de voto no primeiro turno é definitiva. Entre os eleitores de Lula, esse índice é de 77% e vem crescendo desde abril. Já entre os que declaram voto em Flávio, a disposição de mudar é maior. O cientista político Bruno Silva, em análise publicada pela Revista CBN, observou que a briga entre Flávio e Michelle marca as eleições de 2026 como um divisor de águas para a direita. O pesquisador do Instituto Democracia em Xeque, da PUC-Rio, ponderou que o campo político que levou Jair Bolsonaro ao poder em 2018 não é um grupo coeso, e as subculturas que o formam sempre estiveram em disputa — mas nunca de forma tão explícita e danosa.

O que se desenha, portanto, é o ocaso de um projeto político que, alimentado por contradições internas, escândalos sucessivos e uma agenda negacionista, parece ter encontrado na própria desintegração seu destino mais provável. Resta saber se, nas próximas semanas, a extrema-direita conseguirá encontrar algum fôlego — ou se continuará em queda livre, levando consigo as ilusões de um eleitorado que, pouco a pouco, parece despertar para a falta de propostas e de rumo de seus líderes.

Com informações de Gazeta do Povo, Folha de S.Paulo, BBC News Brasil, G1, The Intercept Brasil, UOL, Correio Braziliense, CartaCapital, Jota, Brasil de Fato, O Globo, TRBN, Poder360, Veja, BandNews FM, InfoMoney, Extra, O Dia, Agência Brasil, Valor Econômico, CEBRI, CPJ, Abraji, Repórteres Sem Fronteiras.■

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