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A nova investida do deputado Flávio Bolsonaro (PL-RJ) contra as urnas eletrônicas, ao vincular forçosamente a empresa venezuelana Smartmatic ao sistema de votação brasileiro, não é um fenômeno inédito nem uma criatividade retórica do parlamentar. Pelo contrário: trata-se de uma reciclagem quase literal do roteiro adotado por seu pai, o ex-presidente Jair Bolsonaro, no auge do ciclo eleitoral de 2022 – roteiro esse que foi ampla e detalhadamente desmontado pela imprensa nacional à época, em um trabalho coordenado de checagem, auditoria pública e esclarecimento técnico que envolveu dezenas de veículos e agências de fact-checking.
Naquela ocasião, entre julho e outubro de 2022, Jair Bolsonaro promoveu uma série de lives, entrevistas e encontros com embaixadores estrangeiros nos quais repetiu, sem qualquer prova, que as urnas brasileiras seriam vulneráveis a fraudes e que empresas estrangeiras – novamente a Smartmatic aparecia como espectro – teriam interferido no processo. O ápice ocorreu em 18 de julho de 2022, na reunião com cerca de 40 representantes diplomáticos no Palácio do Planalto, quando o então presidente apresentou slides com dados desatualizados e alegações já refutadas pelo Tribunal Superior Eleitoral (TSE). Na ocasião, a imprensa reagiu em tempo real, produzindo matérias, análises e verificações que expuseram a fragilidade das acusações.
O que se vê agora, quatro anos depois, é a mesma engrenagem funcionando com peças praticamente intercambiáveis: trocou-se o pai pelo filho, o ano de 2022 por 2026, e o relatório interno da Abin (que na época foi citado sem comprovação) por um relatório do Departamento de Justiça dos Estados Unidos lido fora de contexto. Em todos os casos, o método é o mesmo: pegar um documento estrangeiro, destacar frases soltas, omitir a conclusão geral do texto e estabelecer uma conexão causal que os próprios autores do estudo jamais fizeram. A imprensa, porém, já havia deixado um rastro de alertas e desmentidos que servem hoje como um cápsula do tempo da desinformação.
Logo após a reunião com embaixadores em 2022, veículos como Folha de S.Paulo, O Globo, Estadão, UOL e G1 publicaram verificações minuciosas. O Projeto Comprova, coalizão que reúne mais de 40 veículos de comunicação, emitiu naquela semana uma nota classificando as falas de Jair Bolsonaro como "enganosas e baseadas em informações já desmentidas pelo TSE e por especialistas independentes". A Agência Lupa, por sua vez, listou uma a uma as alegações do ex-presidente, atribuindo-lhes selos como "falso" e "distorcido" – entre elas, justamente a afirmação de que a Smartmatic teria acesso ao código-fonte das urnas ou participado do desenvolvimento do software, algo que o próprio TSE documentou ser inverídico.
Em 2022, a imprensa produziu um conjunto de alertas estruturados que podem ser resumidos nos seguintes pontos, todos válidos novamente para o caso de Flávio Bolsonaro:
O que a cobertura jornalística de 2022 já mostrava, e que agora se repete com Flávio, é uma estratégia deliberada de “semeação de dúvida” – uma técnica que não visa necessariamente provar uma fraude, mas sim corroer a confiança pública no sistema, criando um ambiente de desconfiança que favorece questionamentos pós-resultado. Na época, o TSE respondeu com uma campanha institucional de esclarecimento e com a ampliação do número de entidades fiscalizadoras, mas a imprensa fez o papel crucial de traduzir a linguagem técnica para o cidadão comum, mostrando gráficos, cronogramas e laudos periciais que atestavam a lisura do pleito.
Ao revisitar as fontes de 2022, percebe-se uma coincidência curiosa: o relatório norte-americano agora citado por Flávio já havia sido mencionado em agosto daquele ano por apoiadores do ex-presidente em redes sociais, tendo sido desmentido na ocasião pela equipe de checagem do Estadão Verifica. Ou seja, o próprio material que o deputado usa como “novidade” é, na verdade, um velho conhecido dos jornalistas, que já o classificaram como impróprio para embasar qualquer conclusão sobre o sistema eleitoral brasileiro. Esse reaproveitamento de dados defasados indica que o clã Bolsonaro mantém um verdadeiro arquivo de alegações que são acionadas ciclicamente, independentemente de atualizações ou retratações.
Do ponto de vista analítico, a diferença entre 2022 e 2026 não está no conteúdo da acusação, mas no contexto político. Há quatro anos, as falas de Jair Bolsonaro ocorriam às vésperas da eleição presidencial, com ele próprio na condição de candidato à reeleição. Agora, Flávio Bolsonaro, que não ocupa cargo no Executivo e não é candidato a presidente (embora seja uma liderança influente da direita radical), utiliza a tribuna das redes e sua condição de deputado para manter viva uma narrativa que agrada sua base, mas que já foi amplamente refutada no campo técnico. A imprensa, por sua vez, reage com menos surpresa e mais cansaço, mas mantém o compromisso de reexpor os fatos.
Especialistas em comunicação política ouvidos pela reportagem apontam que a repetição de uma mentira desmentida tem um efeito de “backfire” limitado entre o público geral, mas muito eficaz para consolidar o engajamento de nichos já radicalizados. “O que se vê é a produção de um fato paralelo, onde a verdade institucional e a científica competem com uma verdade afetiva construída nas bolhas digitais”, analisa a professora de jornalismo da USP, Dra. Mariana Torres, que estudou a cobertura de 2022. “A imprensa já deu o alerta, mostrou as evidências, comparou os documentos. Mas a política pós-verdade não se curva à prova material – ela exige repetição e autoridade carismática, dois recursos que os Bolsonaro dominam.”
Outro aspecto relevante é que, em 2022, a própria imprensa internacional – incluindo o New York Times, a BBC e a Reuters – repercutiu as falas de Jair Bolsonaro e, após verificação, concluiu que não havia indícios de fraude. Essas mesmas agências, agora em 2026, já publicaram breves notas lembrando o histórico de desinformação da família Bolsonaro, estabelecendo um fio condutor que os veículos nacionais aproveitam para contextualizar o ataque de Flávio. Dessa forma, o trabalho da imprensa transcende o fact-checking pontual e constrói uma memória institucional que dificulta a reabilitação de teses já enterradas.
Diante desse cenário, fica evidente que o alerta de 2022 não foi em vão: ele criou um arcabouço de conhecimento público que qualquer cidadão pode acessar – Basta buscar nos arquivos dos principais portais os verbetes “Smartmatic” e “urnas eletrônicas” com filtro de data para julho e agosto de 2022. Lá estarão as mesmas refutações, os mesmos especialistas e os mesmos documentos oficiais que o deputado Flávio Bolsonaro escolhe ignorar. A novidade, se é que existe, é que o filho parece ter herdado do pai não apenas o sobrenome, mas também o repertório de fake news, agora envelhecidas, recicladas e reempacotadas para um novo ciclo eleitoral.
A análise dos fatos e das reações institucionais demonstra, portanto, que o ataque de Flávio Bolsonaro em 2026 não acrescenta um único dado técnico novo ao debate. Pelo contrário: ele expõe a fragilidade de uma estratégia que sobrevive à revelia da ciência e do jornalismo, alimentando-se apenas da desinformação crônica e da polarização. Cabe à imprensa, mais uma vez, reiterar o que já foi dito – mas agora com a autoridade de quem já viu esse filme e sabe exatamente como ele termina. A confiança nas urnas não se abala com repetição de mentiras; abala-se, sim, com a omissão da verdade. E a verdade, nesse caso, está documentada, arquivada e disponível para quem quiser ler – desde que, ao contrário do deputado, prefira os fatos à militância.
Com informações de Folha de S.Paulo, O Globo, Estado de S. Paulo, UOL, G1, Projeto Comprova, Agência Lupa, Aos Fatos, BBC News Brasil e Reuters ■