Siga nossas redes sociais
Logo     
Siga nossos canais
   
De Geisel a Trump, o esporte como refém do poder
Enquanto Lula manteve distância da convocação de Neymar e preservou a autonomia da CBF, o governo Geisel interveio na demissão de João Saldanha em 1970, e Trump agora repete o padrão ao pressionar a FIFA para liberar Balogun — num movimento que remete à tentativa americana de colocar a Itália no lugar do Irã às vésperas da Copa
Analise
Foto: https://encrypted-tbn0.gstatic.com/images?q=tbn:ANd9GcQ5Jx06hXSiRSMFuurpL4SFovw7szycYriagHlaib_RGMgU3CKkMKStU-4J&s=10
Compartilhar:
■   Bernardo Cahue, 06/07/2026

O episódio da ligação de Donald Trump a Gianni Infantino para reverter a suspensão do atacante Folarin Balogun não é um fato isolado na história do futebol. Ele escancara, mais uma vez, a fragilidade das instituições esportivas diante do poder político — e revela um padrão que atravessa décadas e continentes. Para entender a gravidade do que acontece agora na Copa do Mundo de 2026, é preciso olhar para o passado: para o Brasil de 1970, quando o general Emílio Garrastazu Médici interveio na seleção; para o Brasil de 2023, quando Lula optou por não interferir; e para a tentativa dos EUA, ainda em 2026, de substituir o Irã pela Itália no torneio.

1970: Médici, Saldanha e a demissão às vésperas da Copa

João Saldanha assumiu a seleção brasileira em fevereiro de 1969, dois meses após a decretação do Ato Institucional número 5 (AI-5), quando a repressão e a violência de Estado aumentavam no país. Sob seu comando, o Brasil foi vitorioso nas eliminatórias sul-americanas, com 14 vitórias em 17 jogos. As "feras do Saldanha" encantavam o país. Mas o técnico — jornalista, militante do Partido Comunista Brasileiro e apelidado por Nelson Rodrigues de "João Sem Medo" — tinha um defeito imperdoável aos olhos do regime militar: defendia a democracia e lutava por autonomia em seu trabalho.

O conflito explodiu quando o ditador Emílio Garrastazu Médici opinou pela convocação de Dario, o "Dadá Maravilha". Saldanha respondeu, em uma frase que entraria para a história: "O Médici escala o ministério, eu escalo a seleção". O desfecho foi implacável. Em 17 de março de 1970, 78 dias antes da estreia do Brasil na Copa do Mundo, o presidente da CBD, João Havelange, demitiu Saldanha. Em seu lugar, foi contratado Mário Zagallo. A demissão ocorreu por ordem do governo militar — ainda que não haja um documento comprovando a ordem direta de Médici, o contexto de censura e repressão torna inequívoca a interferência. A série da Netflix "Brasil 70: A Saga do Tri", com Rodrigo Santoro no papel de Saldanha, resgata exatamente esse episódio.

A seleção que Saldanha montou, com Pelé, Tostão, Gérson e Jairzinho, acabaria campeã no México. Mas o técnico que a construiu não esteve no banco de reservas. A política o removeu.

2023: Lula, Neymar e a autonomia da CBF

Meio século depois, outro presidente brasileiro enfrentou uma situação que poderia ter se convertido em intervenção. Em junho de 2026, já durante a Copa, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva ironizou a convocação de Neymar para a seleção, dizendo que o atacante era "o primeiro convocado home office do mundo". A declaração foi uma crítica à convocação de um jogador que, à época, não estava em plenas condições físicas.

Lula, porém, não usou seu poder para exigir a exclusão de Neymar ou para pressionar a CBF a mudar a lista de convocados. Ao contrário de Médici — e ao contrário de Trump —, o presidente brasileiro manteve-se no papel de espectador, ainda que crítico. Sua ironia foi pública, mas sua ação foi nula. A CBF, sob a presidência de Samir Xaud, preservou sua autonomia na convocação. Não houve telefonema para o presidente da FIFA, nem advogados da Casa Civil acionados para reverter uma decisão técnica. O contraste com o que ocorreu em 1970 — e com o que ocorre agora nos Estados Unidos — não poderia ser mais evidente.

2026: Trump, Balogun e a FIFA submissa

No centro da polêmica atual está a ligação de Donald Trump para Gianni Infantino, presidente da FIFA, pedindo a revisão do cartão vermelho aplicado ao atacante americano Folarin Balogun. O jogador havia sido expulso pelo árbitro brasileiro Raphael Claus após pisar no tornozelo do bósnio Tarik Muharemovic, lance confirmado pelo VAR. A expulsão gerava suspensão automática de uma partida, o que tiraria Balogun do confronto das oitavas de final contra a Bélgica.

Trump ligou para Infantino ainda na quarta-feira do jogo. No domingo seguinte, a FIFA anunciou a suspensão da punição, com base no Artigo 27 do Código Disciplinar da entidade, que permite "suspender total ou parcialmente a aplicação de uma medida disciplinar". Na prática, a suspensão automática foi convertida em um período probatório de um ano. Trump comemorou na rede Truth: "Obrigado à FIFA por fazer o que era certo e reverter uma grande injustiça!"

A reação da Bélgica foi de indignação. A Federação Belga de Futebol afirmou estar "surpresa" e ameaçou processar a FIFA. O técnico belga, Rudi Garcia, ironizou: "Eu não sabia que, na Copa do Mundo, o dia 5 de julho é agora o 1º de abril". A Uefa, por sua vez, afirmou que a FIFA "cruzou uma linha vermelha". A decisão é inédita: é a primeira vez desde 1962 que a FIFA permite que um jogador expulso atue na partida seguinte.

O episódio revela a relação promíscua entre Trump e Infantino. A FIFA inaugurou um escritório na Trump Tower, em Nova York, e entregou ao presidente americano seu recém-criado Prêmio da Paz. A troca de afagos entre os dois vinha sendo construída há anos. Agora, ela se materializa em uma decisão que fere o regulamento e a isonomia da competição.

O paralelo com a tentativa de substituir o Irã pela Itália

O caso Trump-Balogun não é a única interferência americana na Copa de 2026. Em abril, o enviado especial dos EUA para Negócios Globais, Paolo Zampolli, propôs à FIFA que a seleção do Irã fosse substituída pela Itália no torneio. A justificativa: as tensões entre Estados Unidos e Irã, agravadas pela guerra no Oriente Médio, colocariam em dúvida a participação iraniana. Zampolli, italiano de nascimento, disse que seria "um sonho ver a Squadra Azzurra em um torneio organizado nos Estados Unidos".

A proposta foi recebida com repúdio. O ministro da Economia da Itália, Giancarlo Giorgetti, classificou-a como "vergonhosa". O ministro do Esporte italiano, Andrea Abodi, afirmou: "Você se classifica em campo". O presidente do Comitê Olímpico Italiano, Luciano Buonfiglio, disse que "é preciso merecer ir à Copa do Mundo". A FIFA, pressionada, negou qualquer plano de substituição. O Irã, por sua vez, afirmou estar pronto para disputar o torneio.

O que une os dois episódios — a tentativa de substituir o Irã e a intervenção para liberar Balogun — é a mesma lógica: a de que o poder político americano pode e deve se sobrepor às regras do futebol. Em ambos os casos, Trump e seu governo trataram a FIFA como um órgão subordinado, não como uma entidade autônoma. E, em ambos, a FIFA cedeu — ainda que no caso do Irã a pressão não tenha surtido efeito.

O contraste com Lula e a tradição brasileira

O contraste entre a postura de Lula e a de Trump é gritante. Lula ironizou Neymar, mas não ligou para Infantino. Trump ligou para Infantino e conseguiu o que queria. Lula preservou a autonomia da CBF; Trump atropelou a autonomia da FIFA. Lula tratou o futebol como esporte; Trump tratou o futebol como extensão de sua política externa.

O Brasil, porém, não tem uma tradição imaculada. O episódio de 1970, com a demissão de Saldanha por pressão do regime militar, é a prova de que o país também já submeteu o futebol aos interesses do poder. A diferença é que, naquele momento, a intervenção veio de uma ditadura que usava a seleção como instrumento de propaganda. Hoje, no Brasil democrático, o presidente se limita a uma piada. Nos Estados Unidos, o presidente usa o telefone.

O que está em jogo

A decisão da FIFA de liberar Balogun estabelece um precedente perigoso: a partir de agora, qualquer nação com poder político e econômico pode questionar decisões de arbitragem e pressionar a entidade por meio de seus líderes. O regulamento da FIFA já não prevê recurso para cartões vermelhos. Ao criar uma exceção para os Estados Unidos, a entidade não apenas violou seu próprio código, mas também abriu espaço para que outros países exijam tratamento semelhante.

A pergunta que fica é: se a ligação de Trump foi suficiente para reverter uma suspensão, o que impedirá outros chefes de Estado de fazerem o mesmo? E, mais grave: o que impede que, no futuro, uma seleção inteira seja trocada por outra por razões políticas, como tentaram fazer com o Irã?

Conclusão

Os três episódios — a demissão de Saldanha em 1970, a ironia de Lula em 2026 e a intervenção de Trump em 2026 — formam um triângulo que expõe a tensão permanente entre futebol e política. No Brasil da ditadura, a intervenção foi brutal e explícita. No Brasil democrático, foi contida e simbólica. Nos Estados Unidos de Trump, foi direta, eficaz e escancaradamente ilegítima.

A FIFA, ao ceder a Trump, mostrou que sua independência é uma ficção. A entidade que deveria zelar pela igualdade em campo curvou-se ao poder de um chefe de Estado — e, ao fazê-lo, manchou não apenas a Copa de 2026, mas a credibilidade de todo o futebol mundial. O que Saldanha enfrentou com coragem em 1970 — a tentativa de subordinar o esporte à política — agora retorna sob nova roupagem, com novos atores, mas com o mesmo vício de origem.

Com informações de O Globo, Portal Gov.br, Wikipédia, G1, CNN Brasil, Folha de S.Paulo, UOL, Extra, The New York Times, The Athletic, Financial Times, BBC, Reuters, Associated Press, Swissinfo, Emirates 247, NHK, RTBF, The Mirror, Yahoo Sports, Brasil de Fato, e ge.globo ■

Mais Notícias