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Há derrotas que vêm do gramado. E há derrotas que vêm de antes, de decisões tomadas em salas fechadas, sob pressão de interesses que pouco têm a ver com a bola. A eliminação do Brasil para a Noruega, nas oitavas de final da Copa do Mundo de 2026, foi a culminação de um erro de planejamento que teve um nome, um sobrenome e uma emissora por trás. A comissão técnica de Carlo Ancelotti, liderada por um dos técnicos mais vitoriosos da história, caiu em uma armadilha tão antiga quanto o futebol – a da imprensa que pauta, infla e, no fim, dita escalações –, mas com um agravante: a maioria do povo brasileiro já havia dito “não”.
Os números são claros e estavam disponíveis muito antes de Ancelotti anunciar a lista no Museu do Amanhã, em 18 de maio. Uma pesquisa da AtlasIntel, divulgada às vésperas da convocação, mostrou que 50,3% dos brasileiros eram contra a presença de Neymar na Copa, contra apenas 42% que defendiam sua ida. Outro levantamento da Genial/Quaest, realizado entre 10 e 13 de abril, já indicava um cenário de empate técnico: 47% a favor e 45% contra, com a rejeição crescendo entre mulheres (59% contra) e entre as gerações mais velhas (76,8% de rejeição entre baby boomers). O povo, nas ruas, já havia falado. A Central do Brasil, no Rio, ouviu torcedores divididos, com muitos questionando a validade de levar um jogador que passou os últimos anos mais tempo no departamento médico do que em campo. Até o presidente Lula, em discurso público, ironizou a situação ao chamar Neymar de “primeiro convocado home office do mundo” – ecoando o meme que já circulava nas redes.
Mas a comissão técnica, liderada por Ancelotti, optou por ouvir outra voz. E essa voz tinha um logo bem conhecido.
A Rede Globo, por meio de seu braço esportivo – o ge, o Globo Esporte, o Jornal Nacional e todo o ecossistema de plataformas –, transformou a convocação de Neymar em uma novela de meses. O Observatório da Imprensa, em análise publicada no dia 5 de julho de 2026, documentou o fenômeno: “A pergunta ‘Neymar será convocado por Ancelotti?’ ecoou em diferentes veículos. A pergunta que os jornais tentavam responder não era ‘Qual será a seleção convocada por Ancelotti?’, mas se o técnico convocaria o jogador”. A cobertura foi massiva – só o ge publicou mais de 90 matérias sobre o tema até a data da convocação. A emissora, que historicamente construiu a imagem de Neymar como “menino Ney” desde os tempos de Santos, agora atuava como uma força de pressão explícita, ainda que travestida de “debate jornalístico”.
A jogada foi tão bem orquestrada que a própria imprensa internacional repercutiu a convocação como uma “surpresa mundial” (jornal AS, da Espanha) e até como um “milagre” (Olé, da Argentina). Mas milagre, no futebol, exige condição física. E Neymar, ao se apresentar na Granja Comary, já carregava uma lesão muscular de grau 2 na panturrilha – diagnosticada pelo Santos como um simples edema, mas que a CBF descobriu ser um problema grave, com previsão de até três semanas de recuperação. Ancelotti, questionado se teria convocado o jogador se soubesse da gravidade da lesão, respondeu com um ditado italiano: “Se minha avó tivesse rodas, ela seria um carro”. A resposta, bem-humorada, escondia uma verdade incômoda: a comissão técnica foi informada tardiamente, mas mesmo assim optou por manter o atacante. Não por convicção tática, mas por pressão.
E que pressão foi essa? A revista Monet, em 12 de junho, revelou que Ancelotti “não iria convocar Neymar, mas mudou de ideia dois dias antes por ‘pressão’, revela jornalista espanhol”. A BBC, por sua vez, noticiou que o treinador teria imposto três condições para incluir o jogador. Mas as condições eram apenas uma formalidade: a decisão já estava tomada nos bastidores, alimentada por uma narrativa construída dia após dia pela Globo. A emissora, que tem contrato de transmissão com a CBF e é a principal parceira midiática da Seleção, usou seu poder de agenda para criar um ambiente em que não convocar Neymar era visto como um ato de heresia – mesmo que a maioria da torcida já tivesse enterrado essa esperança.
A ironia é que o próprio Neymar, nos últimos anos, alimentou um climão com a Globo, evitando entrevistas e demonstrando desconforto com a cobertura da emissora, especialmente em episódios envolvendo sua vida pessoal. Pessoas próximas ao jogador chegaram a acusar a Globo de tratá-lo com mais dureza do que outros atletas. Mas, na hora de definir a convocação, a emissora deixou de lado as rusgas e atuou como sua maior fiadora. Por quê? Porque Neymar é, acima de tudo, um produto. Seus 230 milhões de seguidores no Instagram, seus contratos publicitários e sua capacidade de gerar audiência são ativos que a Globo – e a CBF – não estavam dispostos a abrir mão. O futebol, nesse jogo, foi secundário.
O resultado prático dessa armadilha midiática foi devastador:
A eliminação, com o placar de 2 a 1, foi a pá de cal em um ciclo que já vinha sendo contestado. O Brasil não chegava a um Mundial com tantas dúvidas desde 1990 – e, coincidentemente, caiu nas oitavas de final naquela ocasião também. A diferença é que, em 1990, a derrota veio por falta de futebol. Em 2026, veio por excesso de marketing.
A comissão técnica de Ancelotti – que inclui nomes de peso como o auxiliar Davide Ancelotti e o preparador físico Francesco Mauri – errou ao subestimar o poder da narrativa midiática. Eles acreditavam que estavam gerindo um grupo de jogadores, mas, na verdade, estavam gerindo um produto de entretenimento. A Globo, ao inflar a pauta Neymar, não estava fazendo jornalismo – estava fazendo negócio. E a CBF, que tem na emissora sua principal parceira de transmissão, não apenas permitiu como incentivou o circo.
O que fica, ao final, é a lição mais dura do futebol moderno: a torcida vai ao estádio, mas a imprensa pauta o banco. O povo brasileiro, em sua maioria, já havia dito não a Neymar – as pesquisas, as ruas e até o presidente da República verbalizaram isso. Mas a comissão técnica, cega pelo brilho das câmeras e pelo peso do contrato de transmissão, preferiu ouvir a voz do que vende. E pagou com a eliminação mais precoce da história recente da Seleção.
A armadilha estava montada. A Globo estendeu o tapete, a CBF acenou, e Ancelotti pisou. O resultado, infelizmente, foi visto por milhões de brasileiros no domingo, em Nova Jersey: dois gols de Haaland, um banco de reservas que não reagiu, e uma seleção que, mais uma vez, volta para casa antes da hora.
Com informações de ge.globo.com, O Globo, CNN Brasil, Observatório da Imprensa, VEJA, UOL, ESPN, Lance!, Goal, Sporting News, BBC Brasil, RFI, O Tempo, A Bola, Marca, AS, Olé, Record, L'Equipe, AtlasIntel, Genial/Quaest, Datafolha, Revista Monet, Extra, R7, Terra, Exame, Diário do Centro do Mundo, FMRural, GP1, Vietnam.vn, TyC Sports, Bolavip, Andina.pe, O Imparcial, CBN, Folha de S.Paulo, Congresso em Foco, Gazeta Digital, Correio Braziliense, Revista Fórum, CartaCapital, RIC, Jornal de Brasília, Natelinha, IstoÉ, Diário do Litoral, AFP ■