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Há ironias que dizem mais do que qualquer análise tática. E a mais contundente de todas, na eliminação precoce do Brasil na Copa do Mundo de 2026, veio não de um comentarista esportivo, mas do próprio presidente da República. Em 19 de junho, durante um evento em Belo Horizonte, Luiz Inácio Lula da Silva fez uma brincadeira que, num primeiro momento, parecia apenas um improviso descontraído — mas que, à luz do vexame diante da Noruega, revelou-se um diagnóstico cruel e preciso sobre o estado da Seleção Brasileira.
O episódio aconteceu quando Lula, após elogiar a trajetória de Marta, perguntou a uma criança na plateia quem era o melhor jogador do Brasil hoje. A resposta foi... Neymar. Foi então que o presidente, aos risos, disparou: “O Neymar não está nem jogando, cara. Eu vi uma coisa ontem que o Neymar é o primeiro convocado home office do mundo. Jogador home office”.
Não se tratava de uma elaboração própria de Lula. Ele mesmo fez questão de frisar: “Isso eu vi na internet ontem”. O presidente transpôs para o discurso oficial o meme que já circulava nas redes sociais, dando a ele a legitimidade de quem, de fora do universo da bola, conseguia enxergar o óbvio que os técnicos teimavam em ignorar. E a piada continuou: “Qualquer dia a gente vai ter que fazer uma seleção na inteligência artificial — 11 Pelés”.
O que Lula verbalizou com humor era, na verdade, a constatação de uma vergonha tática que Ancelotti e sua comissão técnica insistiram em mascarar até o último apito. Neymar, convocado para a Copa mesmo sem condições físicas plenas, passou os jogos da primeira fase no banco de reservas ou no hotel em Nova Jersey, enquanto o Brasil empatava com Marrocos e dependia de combinações para se classificar. A lesão na panturrilha direita, que o afastou dos gramados por semanas, tornou-se a desculpa oficial para uma ausência que, na prática, já era esperada.
Mas a ironia presidencial foi além da constatação óbvia. Ela expôs a contradição central do planejamento de Ancelotti: insistir em Neymar como peça-chave mesmo sem ele jogar. O técnico italiano manteve o camisa 10 no banco nas cinco partidas da campanha, alegando que o poupava para momentos decisivos. O problema é que, quando o momento decisivo chegou — as oitavas de final contra a Noruega —, Neymar entrou em campo sem ritmo, sem tempo e sem efetividade. A aposta na “preservação” transformou-se em desperdício. E Lula, ao chamá-lo de “jogador home office”, escancarou o que todos viam: Neymar estava na Copa mais como símbolo do que como atleta.
A crítica não se dirige apenas ao jogador, mas ao modelo que o cerca. Neymar foi convocado, viajou com a delegação, participou de treinos limitados e ocupou uma vaga que poderia ter sido de um atleta em plenas condições. A insistência em um plano que não funcionava, somada à falta de um plano B, transformou a Seleção em uma equipe sem identidade, sem reação e, como disse o presidente, quase virtual.
Há ainda um simbolismo político que não pode ser ignorado. Lula, que já havia brincado dias antes sobre “contratar” Messi para jogar pelo Brasil, usou o humor para criticar não apenas Neymar, mas a própria gestão do futebol brasileiro. Ao repetir um meme da internet em um discurso oficial, ele sinalizou que a paciência com a “era Neymar” se esgotou — não apenas na torcida, mas no mais alto escalão do poder. E, ao sugerir uma “seleção de inteligência artificial”, entregou, com ironia, o diagnóstico mais duro: o Brasil de 2026 parecia mais uma simulação de futebol do que uma equipe real.
A eliminação para a Noruega, com dois gols de Haaland em transições rápidas, foi apenas a confirmação no campo do que já estava escrito nas entrelinhas. Enquanto o mundo do futebol evolui com centroavantes letais e sistemas táticos modernos, o Brasil insistiu em um jogador que não jogava, em um técnico que não ajustava e em uma comissão que parecia esperar por um milagre que nunca veio. Lula, com sua piada de cinco segundos, disse mais sobre o fracasso da Seleção do que todas as entrevistas coletivas de Ancelotti juntas.
Ao final, resta a pergunta que o presidente fez com humor, mas que ecoa como uma sentença: se Neymar é o “primeiro convocado home office do mundo”, o que isso diz sobre o critério de convocação? E se a solução é uma seleção de IA com “11 Pelés”, o que resta do futebol brasileiro de carne e osso? A resposta, infelizmente, veio com o apito final em Nova Jersey: resta muito pouco.
Com informações de ge.globo.com, ESPN.com.br, UOL.com.br, Extra.globo.com, Lance.com.br, Alô Alô Bahia, Goal.com, Sporting News, CNN Brasil, O Globo, R7.com, Terra.com.br, Exame.com, Diário do Centro do Mundo, FMRural.com.br, A Bola, GP1.com.br, O Tempo, Vietnam.vn, TyC Sports, Bolavip, Andina.pe, O Imparcial, CBN.globo.com, Folha de S.Paulo, Congresso em Foco, Gazeta Digital, Correio Braziliense, Revista Fórum, CartaCapital, RIC.com.br, Jornal de Brasília, Natelinha, IstoÉ, Diário do Litoral, AFP ■