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Em maio de 2026, o senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ) viajou a Washington e, em reunião com o presidente Donald Trump e o secretário de Estado Marco Rubio, pediu “enfaticamente” que o governo norte-americano classificasse o Primeiro Comando da Capital (PCC) e o Comando Vermelho (CV) como organizações terroristas estrangeiras. “Fui exatamente fazer esse pedido expresso a ele para que declare CV e PCC como organizações terroristas”, declarou o senador em coletiva. O pedido foi atendido em 28 de maio: o Departamento de Estado designou as duas facções como Terroristas Globais Especialmente Designados (SDGTs) e anunciou a intenção de formalizá-las como Organizações Terroristas Estrangeiras (FTOs) a partir de 5 de junho. Flávio comemorou nas redes sociais chamando o dia de “grande dia”.
O que os irmãos Bolsonaro não anteciparam, porém, é que o efeito prático da medida — longe de blindar o grupo político no Brasil — começaria exatamente nos Estados Unidos, contra alvos que podem respingar diretamente em suas próprias investigações. Em 1º de julho de 2026, o Departamento do Tesouro dos EUA anunciou as primeiras sanções após a designação: bloqueio de bens de dois brasileiros e quatro empresas acusados de lavar dinheiro para o PCC. E, paralelamente, as autoridades americanas já miram o entorno dos próprios solicitantes.
A primeira ação nos EUA: onde os “caçadores” se tornam “caça”
As sanções de julho de 2026 atingiram Victor Henrique de Oliveira Shimada e Stella Stefanie Nunes Henrique de Oliveira, apontados como operadores de uma rede que teria lavado mais de US$ 30 milhões (cerca de R$ 156 milhões) em recursos do PCC em 12 estados americanos, utilizando criptomoedas para transferir os valores de volta ao Brasil. As quatro empresas sancionadas — três em São Paulo e uma em Portugal — pertencem a Shimada.
Mas o alcance da investigação americana não para aí. A Polícia Federal brasileira já solicitou às autoridades dos EUA a quebra de sigilo do fundo Havengate, sediado em Delaware — um dos paraísos fiscais mais opacos do mundo —, que recebeu US$ 10,6 milhões (cerca de R$ 61 milhões) de Daniel Vorcaro, dono do Banco Master. O fundo é administrado por Paulo Calixto, advogado de Eduardo Bolsonaro, e Altieris Santana, apontado como operador do deputado cassado nos EUA. Os investigadores querem saber se esses recursos, oficialmente destinados ao filme “Dark Horse” — que conta a narrativa da ultradireita sobre Jair Bolsonaro e tem Flávio e Eduardo como produtores-executivos —, foram na verdade usados para financiar o estilo de vida de luxo de Eduardo Bolsonaro nos Estados Unidos.
Mensagens reveladas mostram Eduardo Bolsonaro orientando Thiago Miranda, que atuava com Vorcaro, a “enviar o máximo possível” de dinheiro aos EUA. Altieris Santana, segundo as mensagens, estava “à disposição, inclusive voa para fazer reunião pessoal com quer que seja”. A offshore MCC-4 Equity Fund GP LLC, aberta em Delaware em 12 de fevereiro de 2026 por Calixto e Santana, controla o fundo Havengate.
O rastro do dinheiro: PCC, Rioprevidência e a rota Delaware
A teia financeira que conecta o Banco Master, o PCC, a Rioprevidência e a offshore em Delaware é o centro das investigações da Polícia Federal. Os elementos que compõem esse mosaico são:
A mistura: dinheiro do crime e dinheiro público no mesmo funil
O que os investigadores buscam comprovar é que os recursos oriundos do PCC (via One World Services) e os recursos da Rioprevidência (dinheiro público dos servidores fluminenses) confluíram para os mesmos fundos do Banco Master, antes de serem escoados para a offshore em Delaware. Essa mistura é o cerne do esquema de lavagem de dinheiro que a PF investiga nas operações Compliance Zero, Carbono Oculto e Poço de Lobato, que interligam o Banco Master, o grupo Refit (de Ricardo Magro) e as offshores de Delaware.
De acordo com a PF, o grupo Refit usava as offshores de Delaware como “bunkers” para ocultação de bens, e o esquema incluía não apenas lavagem de dinheiro, mas também tráfico de armas pesadas dos EUA, como AK-47 e AR-10, enviadas em contêineres para o Brasil. A fusão das investigações mostra que Cláudio Castro — aliado de primeira hora dos Bolsonaro — foi alvo de duas operações da PF em 11 dias, em maio de 2026, o que o levou a desistir da candidatura ao Senado.
O tiro que saiu pela culatra
A classificação do PCC e do CV como terroristas, celebrada pelos Bolsonaro como uma vitória política, acabou produzindo o efeito inverso: a primeira ação concreta dos EUA ocorreu em solo americano, contra uma rede de lavagem de dinheiro do PCC que, segundo as investigações, tem conexões com o entorno dos próprios solicitantes. E, no Brasil, a PF avança sobre o elo que liga o grupo político de Bolsonaro ao Banco Master, ao PCC e ao paraíso fiscal de Delaware.
O pedido de Flávio Bolsonaro a Trump — um “Coringa se vestindo de Batman” — revelou-se uma armadilha. Em vez de blindar o grupo político, a medida expôs ainda mais as conexões financeiras que unem o crime organizado, o desvio de recursos públicos e a offshore americana. Como alertou a imprensa internacional, o “tiro pode sair pela culatra”, bem ao estilo Dick Vigarista.
Enquanto Flávio comemorava o “grande dia”, a PF já preparava novos pedidos de cooperação internacional para desvendar o fluxo de recursos que, partindo do PCC e da Rioprevidência, passaram pelos fundos do Banco Master, misturaram-se e foram transferidos para a offshore em Delaware — de onde, suspeita-se, financiaram o filme “Dark Horse” e o estilo de vida de Eduardo Bolsonaro nos EUA. A ironia final é que os irmãos que pediram a Trump que caçasse o PCC podem agora ver a própria caça se voltar contra eles.
Com informações de G1, Folha de S.Paulo, Agência Brasil, BBC News Brasil, UOL, Poder360, Revista Fórum, The Intercept Brasil, CNN Brasil, Valor International e Departamento de Estado dos EUA ■