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Ao enviar uma carta ao secretário de Estado americano, Marco Rubio, o senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ) pretendia, segundo seus aliados, demonstrar trânsito internacional e capacidade de diálogo com o governo Donald Trump. O resultado, porém, foi o oposto. A resposta de Rubio, datada de 23 de junho e divulgada no dia 26, não apenas rejeitou o pedido central do parlamentar – a suspensão das tarifas de 25% sobre produtos brasileiros – como expôs, em termos institucionais, a fragilidade de uma candidatura que se oferece a uma potência estrangeira sem obter qualquer concessão em troca.
O episódio, no entanto, não é apenas um constrangimento diplomático. Ele revela uma estratégia política calculada: a submissão a Washington tem um alvo claro – o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) e seu governo. Ao pedir que os EUA suspendessem as tarifas, Flávio tentou construir a narrativa de que seria um interlocutor mais eficaz do que Lula. Ao oferecer uma “equipe de transição” – figura que sequer existe na legislação brasileira –, o senador tentou vender a imagem de que um eventual governo seu estaria imediatamente alinhado com os interesses americanos, em contraste com a suposta hostilidade do PT.
Mas o tiro saiu pela culatra. Rubio, no lugar de acolher a oferta, registrou a “generosa oferta” de Flávio, mas dedicou a maior parte da carta a detalhar as “diferenças substanciais” entre os dois países em áreas como comércio digital, serviços de pagamento eletrônico (incluindo o Pix), tarifas preferenciais, propriedade intelectual, acesso ao mercado de etanol e desmatamento. E, como se não bastasse, sugeriu que o senador, se quisesse ser ouvido, participasse da audiência pública do Escritório do Representante de Comércio dos EUA (USTR) em 6 de julho – como qualquer cidadão ou entidade interessada.
Ou seja: Flávio ofereceu um governo em gestação; Rubio respondeu com um formulário de participação popular.
A reação no campo petista foi imediata. O deputado federal Lindbergh Farias (PT-RJ) classificou a carta como um “escancaramento da submissão a Trump”. A campanha de Lula, por sua vez, já vinha associando o senador às tarifas americanas, cunhando o termo “TariFlávio” para vincular sua imagem à medida protecionista. A revelação da carta de Rubio só aprofundou o desgaste: não basta ser associado ao tarifaço; agora Flávio é visto como alguém que se oferece para gerir o Brasil sob supervisão dos EUA.
Os elementos que tornam essa estratégia particularmente danosa para o bolsonarismo são:
Nos bastidores, a avaliação entre analistas políticos é unânime: a carta de Flávio foi um erro de cálculo monumental. O senador acreditava que sua proximidade com Trump e Rubio renderia dividendos eleitorais, mas o que se viu foi o oposto. Rubio não apenas manteve a pressão tarifária como registrou, em tom quase de deboche, a oferta da equipe de transição. O secretário de Estado, ao final da carta, afirma que os EUA trabalharão com “os líderes escolhidos pelo povo brasileiro” – uma frase que, no contexto, soa como um lembrete de que, para Washington, Flávio é apenas mais um candidato, não um parceiro privilegiado.
O episódio também escancara uma tensão estrutural no bolsonarismo: a tentativa de conciliar o discurso de soberania nacional com uma prática de alinhamento automático e subalterno aos Estados Unidos. “Não há soberania que resista a uma oferta dessas”, resumiu um diplomata de carreira, em condição de anonimato, ao Valor Econômico.
Do ponto de vista eleitoral, o efeito pode ser devastador. O presidente Lula e sua campanha já utilizam o episódio para reforçar a narrativa de que Flávio Bolsonaro não defende o Brasil, mas os interesses de Trump – e que, se eleito, o país teria sua política externa e comercial pautada por Washington. A oferta da “equipe de transição” é, nesse sentido, a prova documental de que essa acusação não é retórica, mas fato registrado em carta oficial.
O episódio, portanto, não é apenas mais um capítulo da novela bolsonarista. É um marco na relação entre política doméstica e diplomacia no Brasil – e um alerta sobre os riscos de se confundir campanha eleitoral com submissão internacional. A “equipe de transição” oferecida por Flávio pode até não existir na lei brasileira, mas seus efeitos políticos já estão em pleno vapor – e, ironicamente, o único alvo que a estratégia acertou em cheio foi o próprio bolsonarismo.
Com informações de Valor Econômico, G1, Folha de S.Paulo, O Globo, CartaCapital, Veja, ICL Notícias, CNN Brasil ■