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A dupla face da tragédia venezuelana sob o olhar de Washington
Enquanto Nicolás Maduro enviava, de uma cela em Nova York, uma mensagem de união nacional às vítimas dos terremotos que devastaram a Venezuela, a presidente interina Delcy Rodríguez governa sob a espada de Dâmocles de um destino igual ao de seu antecessor – ou pior
Analise
Foto: https://pbs.twimg.com/media/HLouzj6XEAAXfqy.jpg
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■   Bernardo Cahue, 25/06/2026

Na noite de 24 de junho de 2026, quando dois terremotos de magnitudes 7,2 e 7,5 sacudiram a costa norte da Venezuela, deixando ao menos 32 mortos e mais de 700 feridos, o país assistiu a um espetáculo de contrastes tão violento quanto os tremores que derrubaram edifícios em Caracas. De um lado, a comoção genuína de um povo em luto. De outro, o jogo geopolítico mais cínico já visto na história recente da América Latina.

A mensagem de Maduro – solidariedade e resistência de uma prisão

Da cela onde aguarda julgamento em Nova York, o presidente deposto Nicolás Maduro, capturado em 3 de janeiro em uma operação militar dos Estados Unidos, publicou em sua conta no Telegram um apelo à união nacional. “Hoje, a palavra é uma só: máxima união, máxima solidariedade e máxima ação. Que ninguém fique sozinho”, escreveu Maduro, que responde a acusações de narcotráfico e porte de armas ao lado da esposa, Cilia Flores. Em tom solene, o ex-presidente afirmou: “Nesta hora difícil, conclamamos à união nacional, à serenidade e ao amor concreto: ajudar, proteger, compartilhar, erguer e reconstruir”.

O paradoxo é brutal: o líder que durante anos governou a Venezuela agora só pode oferecer palavras de conforto aos seus compatriotas – e mesmo essas palavras, proferidas de uma prisão estrangeira, são um ato de resistência simbólica contra o poder que o derrubou. A ironia, no entanto, não escapa a nenhum observador: a mesma nação que prende o governante eleito pelos venezuelanos se apresenta agora como “a salvadora” do país.

Trump e o projeto do 51º estado – a colonização declarada

Enquanto Maduro clamava por união, o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, publicava em sua rede Truth Social: “Os dois grandes terremotos que acabam de atingir o maravilhoso povo da Venezuela são de magnitude enorme e deixaram um número devastador de vítimas. Os Estados Unidos estão prontos, dispostos e aptos a ajudar!”. A oferta de ajuda, no entanto, vem acompanhada de um detalhe que revela suas verdadeiras intenções: Trump se refere aos venezuelanos como “nossos novos e maravilhosos amigos” – uma expressão que, no vocabulário do imperador americano, significa “futuros súditos”.

Não se trata de retórica vazia. Desde maio de 2026, Trump vem publicando imagens que retratam a Venezuela como o “51º Estado” dos Estados Unidos. O presidente já havia declarado publicamente que estava “considerando seriamente” anexar o país sul-americano, argumentando que os venezuelanos “o adoram”. Mais do que isso: seu plano é usar as reservas de petróleo venezuelanas para forçar a queda dos preços mundiais do barril para US$ 50, transformando a riqueza natural da Venezuela em instrumento de dominação econômica global.

O projeto é explícito: “Vamos administrar o país até que possamos fazer uma transição segura, adequada e criteriosa”, declarou Trump em janeiro. E, quando questionado sobre quem está no comando, respondeu sem rodeios: “Não me pergunte quem está no comando, porque vou lhe dar uma resposta muito controversa. Nós estamos no comando”.

Delcy Rodríguez – a presidente acuada sob o escrutínio de Washington

No centro desse tabuleiro geopolítico está Delcy Rodríguez, que assumiu a presidência interina da Venezuela após a captura de Maduro. Em seus primeiros cem dias de governo, Rodríguez tem caminhado sobre uma corda-bamba: ao mesmo tempo em que critica a “captura” de Maduro, abre as portas do país a investimentos americanos e flexibiliza o setor petrolífero. “Devemos proceder com paciência e prudência”, disse ela a aliados em uma reunião logo após a queda de Maduro, estabelecendo três objetivos claros: “preservar a paz da República, resgatar nossos reféns e preservar o poder político”.

Mas a margem de manobra de Rodríguez é mínima. Trump já deixou claro que sua permanência no poder depende da obediência a Washington. Em entrevista à revista The Atlantic, o presidente americano foi direto: “Se ela não fizer o que é certo, vai pagar um preço muito alto, provavelmente maior do que Maduro”. A ameaça não é vazia – Maduro e Cilia Flores estão presos em Nova York, aguardando julgamento por acusações que seus aliados consideram politicamente motivadas. Rodríguez sabe que o mesmo destino – ou pior – a aguarda caso desafie as exigências de Washington.

Mesmo assim, a presidente interina tem se esforçado para manter uma aparência de normalidade. Após os terremotos, ela declarou estado de emergência em todo o país e agradeceu publicamente a Trump pelo apoio oferecido. Em um ato oficial em Caracas, Rodríguez afirmou que o 3 de janeiro de 2026 – dia da captura de Maduro – “marcou uma inflexão na política nacional e em nossa visão das relações internacionais”, defendendo a retomada do “caminho diplomático” com os Estados Unidos.

O silêncio cúmplice da comunidade internacional

Enquanto a tragédia humanitária se desenrola, a comunidade internacional assiste em silêncio. A ajuda humanitária oferecida por Trump – que incluiu Panamá, Qatar, Cuba, Nicarágua, Turquia, Jordânia, Barbados, Colômbia, Reino Unido, Brasil e México entre os países que se solidarizaram – é uma cortina de fumaça para o projeto maior de dominação. A mesma nação que asfixiou a Venezuela com sanções econômicas por anos agora se apresenta como salvadora, enquanto negocia abertamente a anexação do país e o controle de suas reservas de petróleo.

A presidente interina, por sua vez, tenta equilibrar a necessidade de reconstruir o país devastado com a pressão de Washington para que aceite a perda da soberania. “Isso nunca seria encarado porque, se há uma coisa que nós, venezuelanos, temos, é que amamos o nosso processo de independência”, disse Rodríguez em Haia, rejeitando abertamente a ideia de integração como estado americano. Mas suas palavras soam fracas diante da realidade: o país que deveria liderar está, na prática, sob tutela estrangeira.

O preço da soberania

A tragédia dos terremotos expôs, em sua crueza, o destino de uma nação rica em recursos naturais, mas empobrecida pela espoliação imperial. A Venezuela, que possui as maiores reservas de petróleo do mundo, vê sua infraestrutura de contenção de desastres deteriorada por anos de bloqueio financeiro – um bloqueio que, ironicamente, só foi parcialmente flexibilizado após a captura de Maduro e a ascensão de um governo alinhado com Washington.

Enquanto os corpos são retirados dos escombros e as famílias venezuelanas choram suas perdas, Donald Trump planeja a próxima fase de seu projeto colonial. E Delcy Rodríguez, a presidente interina que jurou trabalhar “incansavelmente para garantir a paz e a tranquilidade espiritual, econômica e social do nosso povo”, governa sob o olhar atento de Washington, sabendo que o destino de Maduro – o cárcere em território estrangeiro – pode ser o seu, caso ouse desviar-se do roteiro imposto pelo império.

A solidariedade de Maduro, vinda de uma prisão, é um lembrete sombrio do que aguarda aqueles que resistem. E a oferta de ajuda de Trump, acompanhada do projeto do 51º estado, é a prova definitiva de que, para Washington, a tragédia venezuelana não é uma catástrofe humanitária – é uma oportunidade de negócios.

Com informações de Agência Brasil, BBC News Brasil, CNN Brasil, Al Jazeera, The New York Times, Euronews, Estadão, Diário do Centro do Mundo ■

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