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O governador de São Paulo, Tarcísio de Freitas (Republicanos), tornou-se o centro de um novo escândalo financeiro-político após a deflagração da Operação Miragem pela Polícia Federal, na terça-feira, 23 de junho de 2026. A operação mira o Banco Digimais, controlado pelo bispo Edir Macedo, fundador da Igreja Universal do Reino de Deus, por suspeitas de fraudes contábeis e manipulação de informações financeiras. No centro da polêmica está uma decisão do governo paulista, tomada em 2025, que credenciou o banco para operar empréstimos consignados descontados diretamente da folha de pagamento dos cerca de 80 mil policiais militares do estado.
A pergunta que ecoa nos corredores da Assembleia Legislativa e nas redes sociais é direta: por que o governo Tarcísio autorizou um banco em situação financeira crítica, acumulando prejuízos e sob desconfiança do mercado, a acessar um dos mecanismos mais sensíveis da administração pública? Até o momento, o governador não apresentou uma explicação satisfatória que dissipe as sombras sobre sua gestão.
O credenciamento do Digimais foi formalizado em julho de 2025, com o contrato definitivo firmado em agosto/setembro do mesmo ano e validade até 2030. Na época, no entanto, o banco já apresentava um quadro de deterioração financeira severa. Segundo relatos, a instituição acumulava prejuízos que saltaram de R$ 250 milhões para quase R$ 500 milhões em fevereiro de 2026. Para evitar um colapso, Edir Macedo precisou injetar R$ 250 milhões de recursos próprios no final de 2025, além de realizar uma manobra envolvendo o fundo de investimento Hermon no valor de R$ 741 milhões.
A situação do banco era tão precária que seu índice de Basileia, que mede a capacidade de uma instituição financeira de honrar seus compromissos, estava em 7,98% no quarto trimestre de 2025, bem abaixo do mínimo regulatório de 11% exigido pelo Banco Central. Paralelamente, o Digimais enfrentava uma disputa judicial milionária de cerca de R$ 500 milhões e intensificava a captação de recursos oferecendo Certificados de Depósito Bancário (CDBs) com rentabilidade entre 135% e 140% do CDI, uma estratégia comum em instituições desesperadas por liquidez.
A suspeita que agora move a Polícia Federal é de que o Digimais tenha replicado o modus operandi do Banco Master, liquidado pelo Banco Central em 2025. Enquanto o Master fabricava carteiras de crédito consignado falsas para inflar seus ativos, o Digimais recorreu ao "milagre da reciclagem": pegava carteiras de crédito podres, como financiamentos de veículos com alta inadimplência, e as colocava em fundos de investimento dos quais o próprio banco era dono. Trata-se do velho golpe do "Zé com Zé", uma maquiagem contábil para fingir saúde financeira e captar dinheiro de verdade. A Justiça já bloqueou R$ 670 milhões em bens e valores do banco.
A decisão do governo Tarcísio, no entanto, não pode ser analisada fora do contexto político. Tarcísio de Freitas é filiado ao Republicanos, partido que nasceu como braço político da Igreja Universal e é presidido pelo bispo licenciado Marcos Pereira. Sob sua gestão, a presença da denominação no aparato estatal paulista expandiu-se de forma significativa:
Essa simbiose entre o poder público e a igreja transforma a autorização do consignado em muito mais do que um ato administrativo. Como observou o colunista Leonardo Sakamoto, do UOL, a justificativa de que "todo banco que cumpre requisitos pode ser credenciado, independentemente do risco que represente ao público, é algo que estava na origem dos problemas de outro banco, o Master". A pergunta que se fazia sobre os governadores Cláudio Castro (RJ) e Ibaneis Rocha (DF) ao fecharem negócios bilionários com o Banco Master agora deve ser transferida a Tarcísio: o que motivou a abertura das portas do erário para uma instituição zumbi?
A oposição na Assembleia Legislativa já havia acionado o Ministério Público em maio de 2026, solicitando investigação sobre os critérios adotados para o credenciamento. O deputado estadual Maurici (PT) questionou: "Eu avisei mais uma vez. O Banco Digimais já acumulava prejuízos, denúncias e sinais de alerta, mas mesmo assim o governo Tarcísio abriu espaço para ele operar consignado na folha da PM". No entanto, o promotor André Pascoal da Silva, da Promotoria do Patrimônio Público e Social, arquivou a representação em 18 de maio, afirmando que não havia indícios concretos de irregularidades ou prejuízo ao erário.
O arquivamento, porém, não encerra a questão. A Operação Miragem da Polícia Federal, deflagrada pouco mais de um mês depois, joga nova luz sobre o caso e expõe a fragilidade da argumentação que prevaleceu no Ministério Público. A investigação federal agora precisa avançar não apenas sobre as fraudes contábeis do banco, mas também sobre todas as conexões políticas e administrativas que permitiram que essa história chegasse até aqui.
O governo Tarcísio, por meio de sua assessoria, afirmou que a atuação do banco foi autorizada por um credenciamento público e regulamentado, e que não houve assinatura de contrato direto entre o estado e a instituição. A alegação, no entanto, soa como um sofisma jurídico que não responde às questões substantivas: quem decidiu esse credenciamento? Quais critérios foram adotados? Quais alertas já existiam na época? Houve análise dos riscos para os servidores e para o Estado?
O que a operação da Polícia Federal evidencia, portanto, vai muito além de uma simples manobra contábil: joga luz sobre o custo das conveniências políticas. Ao escancarar as portas do sistema financeiro público para um banco em agonia, controlado por um aliado político de primeira hora, o governo Tarcísio de Freitas não apenas colocou em risco o contracheque de dezenas de milhares de policiais militares, como também ergueu um muro de silêncio que apenas aprofunda a desconfiança da população paulista. Enquanto o governador não explicar, de forma clara e transparente, os motivos que o levaram a socorrer o banco de Edir Macedo, a mancha do escândalo continuará a se espalhar sobre o Palácio dos Bandeirantes.
Com informações de UOL Notícias, ICL Notícias, O Globo, Radar Democrático, Brasil 247, CNN Brasil, Veja, Vermelho.org.br, Brasil de Fato, e Metrópoles ■