Siga nossas redes sociais | ![]() | Siga nossos canais |
O Brasil venceu a Escócia por 3 a 0 no Hard Rock Stadium, em Miami, garantiu a primeira colocação do Grupo C da Copa do Mundo 2026 e avançou ao mata-mata com sete pontos. O placar, no entanto, não conta toda a história. A vitória veio com atuação consistente de um time que funcionou em bloco, pressionou alto e converteu as oportunidades — mas também expôs uma velha e incômoda verdade: a entrada de Neymar no segundo tempo praticamente deixou a seleção brasileira jogando com menos um em campo contra a Escócia.
O camisa 10 entrou aos 30 minutos da etapa final no lugar de Matheus Cunha, voltando a atuar pela seleção depois de aproximadamente dois anos e sete meses. O estádio foi à loucura. A festa da torcida, porém, não encontrou correspondência em campo. Neymar, que não jogava desde 17 de maio, quando machucou a panturrilha, esteve em lances sem maiores consequências. Ele procurou participar de trocas de passe na frente, mas pouco acrescentou à dinâmica ofensiva que o Brasil já havia estabelecido. Mais do que isso: sua presença em campo reduziu a intensidade da marcação, quebrou o ritmo do time e ofereceu à Escócia uma janela de respiro que não existia antes.
O lance que talvez melhor resuma a passagem de Neymar em campo foi o "rolamento" que lhe rendeu um cartão amarelo ao escocês que o derrubou — uma cena de efeito, mas de baixíssimo impacto prático. O menino Ney deu seu primeiro rolamento da Copa, sim, mas custou um cartão ao adversário e nada mais. Não houve drible desconcertante, não houve arrancada decisiva, não houve assistência. Houve apenas o espetáculo vazio de um jogador que já foi o maior nome do Brasil e agora parece mais um peso do que uma solução.
Ancelotti já havia sinalizado que Neymar não seria titular e que o público no Hard Rock Stadium se dividiria entre os pedidos por Endrick e pelo camisa 10. O técnico italiano preferiu não dar detalhes sobre o tempo que o atleta de 34 anos seria capaz de suportar em campo após mais uma lesão. A resposta veio em campo: Neymar suportou os minutos finais, mas a seleção não suportou Neymar. O Brasil deixou de ser um time para ser, novamente, um conjunto de jogadores à espera de um lance individual que não veio.
Enquanto Neymar não mostrava a que veio, outro nome ganhava protagonismo. Rayan, criticado e preterido entre os brasileiros que preferiam Endrick, deu o passe para o gol que abriu a porteira para a seleção brasileira. Aos sete minutos do primeiro tempo, Rayan apertou McKenna, travou o passe do zagueiro escocês e virou o lance em um "presentaço" para Vini Jr., que driblou o goleiro e tocou para o gol vazio. Foi a chave que destravou o jogo — o trabalho de pressão alta desde lá da frente.
Rayan entrou bem no ataque e foi a solução para o lugar do machucado Raphinha. No desenho tático de Ancelotti, que forma um losango 4-4-2 no meio-campo, coube a Rayan marcar pelo lado direito, com Lucas Paquetá na esquerda. Ele não apenas cumpriu o papel tático como o executou com inteligência e intensidade — exatamente o oposto do que se viu com a entrada de Neymar. A ironia é que o jogador que a torcida pedia, Endrick, entrou no lugar de Rayan, mas foi o "preterido" quem deu a contribuição mais decisiva do ataque brasileiro na partida.
A vitória por 3 a 0 — com dois gols de Vini Jr. e um de Matheus Cunha — consolidou a classificação e deu ao Brasil a liderança do Grupo C. Mas a atuação deixa perguntas incômodas para o mata-mata. O que Ancelotti pretende fazer com Neymar? Ele será, como sugere a análise tática, um "espectador de luxo" em campo? Ou o técnico italiano terá coragem de manter no banco um jogador que, neste momento, mais atrapalha do que ajuda?
A resposta de Ancelotti após a partida foi diplomática. Disse que viu "muitas coisas positivas como a entrada de Neymar, que pode nos ajudar". Mas o campo falou mais alto. E o que o campo mostrou é que o Brasil de 2026 não é mais o Brasil de Neymar. É o Brasil de Vini Jr., de Rayan, de um sistema tático que funciona — e que para de funcionar quando o camisa 10 entra em campo.
O teste de Ancelotti contra a Escócia foi claro: o Brasil com 11 jogadores é candidato. O Brasil com Neymar em campo joga, literalmente, com 10. Resta saber se o técnico italiano terá a lucidez de reconhecer o que os números e o desempenho em campo já deixaram evidente.
Com informações de Folha de S.Paulo, UOL Esporte, ge.globo ■