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Michelle expõe misoginia e preconceito de Flávio e escancara guerra familiar pelo espólio eleitoral
Ex-primeira-dama relata humilhação em telefonema, revela articulação dos enteados contra si e denuncia tratamento ríspido que escancara o machismo estrutural no núcleo duro do bolsonarismo
Politica
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■   Bernardo Cahue, 25/06/2026

O que antes era tratado como ruído nos bastidores da família Bolsonaro transformou-se, nesta quarta-feira (24), em um terremoto político de proporções incontroláveis. Em um vídeo de tom arrasador publicado em suas redes sociais, a ex-primeira-dama Michelle Bolsonaro não apenas expôs o racha interno que dilacera o clã, mas denunciou em detalhes o tratamento misógino, desrespeitoso e preconceituoso que teria sofrido por parte do senador e pré-candidato à Presidência Flávio Bolsonaro – revelando que o machismo, tão criticado na política brasileira, opera com força bruta também dentro do núcleo mais íntimo da direita radical.

O estopim da crise, segundo o relato de Michelle, foi uma conversa telefônica sobre a estratégia do PL no Ceará. A ex-primeira-dama, que preside o PL Mulher e construiu uma trajetória de articulação nacional, ousou criticar a aproximação de dirigentes cearenses com o pedetista Ciro Gomes já no primeiro turno das eleições estaduais. Em contrapartida, ela defende o apoio ao senador Eduardo Girão como nome da direita para o governo cearense. Foi essa divergência política – legítima e institucional – que teria desencadeado a reação truculenta de Flávio.

Michelle narrou que tentou contato com o senador diversas vezes, sem sucesso. Quando ele finalmente retornou a ligação, o que poderia ser um diálogo entre aliados transformou-se em um monólogo de hostilidades. “Ele retornou a ligação. Mas, sinceramente, para dizer o que me disse, teria sido melhor que não tivesse ligado. Foi muito ríspido, me desrespeitou e me tratou mal ao telefone. E eu não tinha feito nada contra ele”, desabafou a ex-primeira-dama, acrescentando que ouviu do enteado frases que ecoam o mais puro preconceito contra sua trajetória: “Disse que seria melhor eu ficar fora das decisões do partido. Disse que eu havia chegado ontem e não entendia nada de política”.

A fala de Flávio não é apenas um ataque pessoal – ela carrega um viés misógino e elitista que reduz a atuação de Michelle a um mero adorno, desprezando sua jornada à frente de uma das maiores bancadas femininas do país. Ao dizer que ela “chegou ontem”, o senador ignora deliberadamente o trabalho concreto da ex-primeira-dama, que percorreu o Brasil inteiro, estruturou diretorias do PL Mulher nos 27 estados e no Distrito Federal e contribuiu diretamente para a eleição de 1.005 mulheres nas eleições municipais de 2024. Não se trata, portanto, de inexperiência – trata-se de um esforço calculado para desqualificar uma mulher que ousa ter voz e protagonismo em um universo majoritariamente masculino.

Mas a humilhação não parou no telefonema. Michelle afirmou ter se sentido “apunhalada” ao ver as postagens públicas de Flávio nas redes sociais, nas quais ele adotava “palavras duras” e “tom agressivo” para defender o deputado André Fernandes – e, por tabela, acabava endossando justamente o homem que chamou a família Bolsonaro de “corruptos” e de “ovos de serpentes nazistóides”, referindo-se a Ciro Gomes. A contradição é evidente: enquanto Michelle é tratada com aspereza por discordar de uma aliança com um adversário histórico, o enteado parece disposto a engolir ofensas graves em nome de uma articulação eleitoral que beneficia seu próprio projeto de poder.

O vídeo de Michelle também expõe um padrão coordenado de reação por parte dos filhos de Jair Bolsonaro. Segundo ela, os irmãos se uniram “de forma coordenada, com textos muito parecidos entre si”, sugerindo uma articulação premeditada para cercear sua atuação. “Parecia combinado, premeditado”, disparou, revelando que o cerco não parte apenas de Flávio, mas de todo o núcleo bolsonarista que sempre viu com reservas a ascensão da ex-primeira-dama. As rusgas com Carlos Bolsonaro, inclusive, já teriam chegado “quase às vias de fato”, conforme apurado pela reportagem, demonstrando que o ambiente familiar é um campo minado de rivalidades e disputas de ego.

A ex-primeira-dama fez questão de negar que o conflito esteja relacionado a cargos ou candidaturas próprias. Para ela, a raiz do problema é muito mais profunda e visceral: trata-se de falta de consideração pessoal, de um histórico de desrespeito que antecede qualquer discussão eleitoral. “Entendi que não queria meu apoio”, resumiu, deixando claro que a rejeição de Flávio não é política – é pessoal, atravessada por preconceitos de gênero e por uma hierarquia familiar que nunca a acolheu como legítima protagonista.

O cenário ganha contornos ainda mais dramáticos quando analisado à luz da conjuntura atual. Com Jair Bolsonaro preso e vivendo o esfacelamento de seu capital político, a disputa pelo espólio eleitoral do ex-presidente se intensifica, e Michelle, que sempre foi tratada como coadjuvante, agora reivindica seu espaço com uma força que os herdeiros Bolsonaro parecem temer. A própria narrativa construída por Michelle – de que está sendo “vacinando contra um possível atentado” ao expor publicamente as agressões – sugere que ela tem plena consciência dos riscos que corre ao enfrentar um clã acostumado a métodos milicianos.

Não é exagero afirmar que o que se vê é um embate civilizatório dentro do bolsonarismo. De um lado, uma mulher que construiu capital político próprio, que mobilizou milhares de mulheres e que se recusa a ser silenciada; de outro, uma dinastia política que sempre enxergou as mulheres como subalternas e que vê na liderança feminina uma ameaça à sua hegemonia. O tratamento dispensado a Michelle por Flávio – com rispidez, desdém e a acusação de que ela “não entende nada” – é o mesmo que milhares de mulheres brasileiras sofrem diariamente em seus ambientes de trabalho, em suas famílias e na política.

Ao trazer a público esse episódio, Michelle Bolsonaro não apenas expõe o racha familiar – ela coloca em evidência a misoginia estrutural que atravessa o bolsonarismo e que, por muito tempo, foi encoberta por discursos de defesa da família e dos valores cristãos. A imagem do clã unido em torno do patriarca ruiu por completo, dando lugar a um espetáculo de acusações mútuas, traições e disputas mesquinhas que revelam o verdadeiro caráter de uma família que sempre pregou a união, mas que na prática se devora por dentro.

O episódio também levanta questões incômodas sobre o futuro do bolsonarismo sem Jair Bolsonaro. Se os herdeiros já não conseguem manter a coesão nem entre si, como pretendem liderar um movimento que aglutina milhões de brasileiros? A tentativa de Flávio de marginalizar Michelle, tratando-a como uma novata inexperiente, pode ser lida como um movimento desesperado para conter sua ascensão – mas o tiro pode sair pela culatra, pois a ex-primeira-dama demonstrou ter capilaridade, discurso e, acima de tudo, coragem para romper o pacto de silêncio que sempre protegeu os abusos dentro da família.

Michelle foi além ao atacar blogueiros aliados, como Allan dos Santos, que frequentemente a xingam em lives, expondo que a rede de propagandistas do bolsonarismo também tem papel ativo na tentativa de deslegitimar sua atuação. Essa orquestração de ataques, vinda de diferentes frentes, evidencia que a ofensiva contra Michelle é sistêmica e envolve desde os enteados até os operadores digitais do movimento.

O que se desenha, portanto, é um cenário de guerra aberta no campo da direita radical, com Michelle usando sua plataforma para denunciar o que muitos já suspeitavam, mas poucos ousavam vocalizar: que o bolsonarismo, no fundo, é um movimento machista, patriarcal e disposto a canibalizar suas próprias fileiras quando o poder está em jogo. Ao gritar ao mundo que foi humilhada, a ex-primeira-dama não apenas se defende – ela desnuda a alma podre de um projeto político que sempre se escondeu atrás de bandeiras conservadoras para praticar o mais vil dos preconceitos.

Restam agora perguntas que ecoam mais alto que qualquer declaração oficial: Flávio Bolsonaro terá a grandeza de pedir desculpas publicamente pelo tratamento misógino que dispensou à madrasta? Ou continuará a tratar Michelle como uma intrusa que “chegou ontem”, ignorando o fato de que ela, hoje, é uma das vozes mais influentes do bolsonarismo? O silêncio do senador, até o momento, é mais eloquente do que qualquer palavra – e confirma que, para ele, Michelle jamais será vista como igual, mas como uma adversária a ser subjugada.

Enquanto isso, o eleitorado feminino observa atento. As 1.005 mulheres eleitas com o apoio de Michelle em 2024 são prova viva de que sua atuação transcende os muros do partido e alcança resultados concretos. Desprezar essa força é não apenas um erro político – é um atestado de cegueira diante das transformações que o próprio bolsonarismo precisa atravessar para sobreviver. Se Flávio e seus irmãos insistem em repetir o mesmo tratamento ríspido e preconceituoso, que não se surpreendam se, no futuro, forem eles os “apunhalados” pela própria história.

A crise está posta. O racha é real. E a misoginia, outrora velada, agora está exposta em alto e bom som – com a voz firme de uma mulher que se recusa a ser silenciada.

Com informações de O Globo, UOL, Folha de S.Paulo, Estadão, CNN Brasil, Metrópoles ■

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