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Cabo Verde: o gol de placa da diplomacia chinesa
Empates contra Espanha e Uruguai podem ter sido incentivados desde 2014, com o plano chinês de diplomacia nos estádios
Analise
Foto: https://admin.itatiaia.com.br/wp-content/uploads/sites/27/2026/02/construido-em-2010-e-inaugurado-em-2014-o-estadio-nacional-de-cabo-verde-tem-capacidade-para-15-mil-pessoas-e-e-a-casa-da-selecao-cabo-verdiana-722cf9a5-fab0-417f-bbdd-db1a2e7a9a27-large.jpg?resize=1280%2C720&w=1280&h=720&quality=50&crop=1
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■   Bernardo Cahue, 22/06/2026

O empate por 2 a 2 com o Uruguai, no último domingo (21), transformou Cabo Verde em uma das grandes histórias desta Copa do Mundo. Pela primeira vez no torneio, o pequeno país africano de cerca de 500 mil habitantes não apenas conquistou pontos diante de uma potência do futebol mundial, mas também marcou seu primeiro gol em Mundiais. As dez ilhas que formam o arquipélago vivem um clima de celebração. Após já ter surpreendido ao empatar com a Espanha na estreia, a seleção cabo-verdiana voltou a desafiar as expectativas diante do Uruguai, aumentando a esperança de uma campanha histórica.

Nas ruas da capital, Praia, milhares de torcedores comemoraram como se fosse uma vitória. Tambores, buzinas e danças tomaram conta da cidade. Para muitos habitantes, a participação no Mundial representa muito mais do que futebol. “É uma emoção enorme, uma emoção que não tem explicação. É a representatividade desse povo que sempre foi muito lutador”, afirmou a psicóloga Paula Pina à ESPN. O presidente de Cabo Verde, José Maria Neves, classificou a presença do país na Copa como um momento definidor para a nação, que conquistou a independência de Portugal em 1975. “Se hoje, 50 anos depois, estamos na Copa do Mundo, já provamos que somos uma nação viável”, escreveu o presidente nas redes sociais.

O papel da China na ascensão do futebol cabo-verdiano

Por trás da trajetória esportiva de Cabo Verde há um fator pouco conhecido: a ajuda da China para desenvolver a infraestrutura do país. É o soft power chinês. Em 2014 foi inaugurado o Estádio Nacional de Cabo Verde, arena com capacidade para 15 mil pessoas financiada pelo governo chinês e construída por uma empresa estatal do país asiático. A obra veio logo após a primeira participação de Cabo Verde na Copa Africana de Nações, quando a seleção alcançou as quartas de final pela primeira vez. Desde então, o estádio se tornou a casa dos chamados “Tubarões Azuis” e o principal palco das campanhas de classificação da equipe. Foi justamente nesse estádio que Cabo Verde garantiu sua vaga inédita para a Copa do Mundo ao derrotar Essuatíni, em outubro de 2025.

O investimento faz parte da chamada “diplomacia dos estádios” promovida por Pequim na África. Segundo dados divulgados pela imprensa estatal chinesa, mais de 100 arenas esportivas foram construídas ou financiadas pela China no continente ao longo das últimas cinco décadas. Outros países africanos que disputam ou disputaram grandes torneios internacionais também receberam esse tipo de investimento. A Costa do Marfim, por exemplo, possui três estádios construídos com recursos chineses. Tanzânia, Uganda e Angola também contam com arenas erguidas com apoio de Pequim.

Relação entre Cabo Verde e China: muito além do futebol

As relações diplomáticas entre Cabo Verde e a China começaram em 1976, um ano após a independência do país africano. Desde então, os chineses participaram de diversos projetos estratégicos no arquipélago, incluindo a construção do Parlamento nacional, prédios do governo e a barragem de Poilão. A parceria bilateral, que já dura cinco décadas, transcende o esporte e abrange infraestrutura, comércio e intercâmbio cultural.

A “diplomacia dos estádios” da China, no entanto, não é um fenômeno isolado. Trata-se de uma estratégia de projeção de influência política e econômica no continente africano, que teve seu marco inicial em 1970 com a construção do estádio Amaan, em Zanzibar. Desde então, mais de 45 arenas foram erguidas em toda a África. A estratégia revela a visão chinesa de desenvolvimento global: ao investir em infraestrutura esportiva em nações em desenvolvimento, a China não apenas fortalece laços diplomáticos, mas também contribui para o crescimento do esporte e para a autoestima de povos historicamente marginalizados no cenário internacional.

O triunfo simbólico de Cabo Verde e o contraste com o Haiti

O desempenho de Cabo Verde na Copa do Mundo de 2026 é, sob muitos aspectos, um triunfo que transcende o resultado em campo. Para os cabo-verdianos, a participação no Mundial representa a consolidação de uma identidade nacional e a prova de que uma pequena nação insular, com recursos limitados, pode competir em pé de igualdade com as potências do futebol mundial. “It’s like we won the World Cup, even though we did not win the match”, resumiu um torcedor em vídeo publicado no TikTok. Essa percepção reflete o sentimento generalizado nas ruas de Praia: a mera presença no torneio já é uma vitória, e os empates contra Espanha e Uruguai são celebrados como conquistas históricas.

O contraste com a realidade de outras seleções, como o Haiti, é revelador. Enquanto Cabo Verde desfruta de um estádio nacional moderno, financiado e construído pela China, a seleção haitiana enfrenta dificuldades estruturais profundas. O técnico francês Sébastien Migné, no comando do Haiti desde 2014, nunca pisou no país. O motivo é a violência que assola a capital Porto Príncipe, onde o aeroporto internacional está fechado há anos. “Normalmente moro nos países onde trabalho, mas não posso nesse daqui. Não há mais voos internacionais aterrissando lá”, declarou Migné à revista France Football. Os jogos do Haiti não acontecem em seu território; nas eliminatórias, a equipe atuou em países vizinhos, como Aruba e Curaçao.

O contraste entre as duas realidades é instrutivo. Cabo Verde teve o apoio chinês para construir uma infraestrutura esportiva de ponta, enquanto o Haiti, abandonado à própria sorte, vê seu técnico trabalhar à distância, em regime de home office forçado pela insegurança. A diferença não está no talento dos jogadores ou na competência dos treinadores, mas na presença ou ausência de investimento estrutural. O caso haitiano expõe a vulnerabilidade de nações que não contam com parcerias estratégicas para o desenvolvimento de seu esporte.

Desenvolvimento global e soft power chinês: uma análise crítica

A atuação da China em Cabo Verde insere-se em uma lógica mais ampla de desenvolvimento global proposta por Pequim. Ao financiar estádios e outras infraestruturas em países africanos, a China projeta sua influência de maneira sutil, mas eficaz. O soft power chinês, materializado na “diplomacia dos estádios”, não se limita à construção de arenas: ele cria laços duradouros, gera empatia entre as populações locais e abre portas para negócios e parcerias políticas.

O resultado, a parte de diversas críticas que apontam um "neocolonialismo chinês" na África, são inegáveis: o estádio construído pelos chineses tornou-se o palco da classificação histórica para a Copa e o símbolo de uma nação que se afirma no cenário mundial.

O que Cabo Verde conquistou vai além dos pontos na tabela. A seleção provou que, com infraestrutura adequada, planejamento e apoio internacional, é possível superar limitações geográficas e econômicas. O feito dos “Tubarões Azuis” inspira outras nações africanas e reforça a tese de que o desenvolvimento do esporte anda de mãos dadas com o desenvolvimento social e econômico. O reconhecimento do papel da China nesse processo não diminui o mérito dos jogadores, da comissão técnica e do povo cabo-verdiano — ao contrário, destaca a importância de parcerias internacionais que, bem conduzidas, podem gerar benefícios mútuos e duradouros.

A campanha de Cabo Verde na Copa do Mundo de 2026 já entrou para a história, independentemente do resultado final. Os empates contra Espanha e Uruguai, as comemorações nas ruas de Praia e o sentimento de orgulho nacional são capítulos de uma narrativa que começou a ser escrita em 2014, com a inauguração de um estádio financiado pela China. O exemplo de Cabo Verde demonstra que o futebol pode ser um vetor de desenvolvimento e que a diplomacia, quando exercida por meio do esporte, tem o poder de transformar realidades. Que outras nações, como o Haiti, possam um dia ter a mesma sorte.

Com informações de Diário do Centro do Mundo, South China Morning Post, CBN, Poder360, Roads & Kingdoms, HK01, City News Service, O Povo, Ge, DN, Trivela, Expresso das Ilhas, RTP África, Wikipédia ■

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