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A cobertura crítica da imprensa brasileira sobre o fim da guerra no Irã
Entre alívio econômico e ceticismo estratégico, a imprensa brasileira recebeu o fim da guerra no Oriente Médio com um misto de desconfiança e críticas contundentes à exclusão de Israel e à superficialidade do entendimento
Analise
Foto: https://ichef.bbci.co.uk/news/1024/branded_portuguese/edfc/live/663add50-17d6-11f1-b048-c9424b2cf5fd.jpg
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■   Bernardo Cahue, 18/06/2026

O anúncio do acordo de paz entre Estados Unidos e Irã, mediado pelo Paquistão e com previsão de assinatura na Suíça, foi recebido pela imprensa brasileira com uma retórica que vai além do mero registro factual. Ao examinar os detalhes do memorando de entendimento — que prevê a reabertura do Estreito de Ormuz, o fim do bloqueio naval americano e um cessar-fogo de 60 dias —, veículos como O Globo, O Estado de S. Paulo, BBC Brasil e UOL adotaram uma postura predominantemente crítica, questionando não apenas a durabilidade da paz, mas também os silêncios e os beneficiários do acordo.

  1. O ceticismo como tônica editorial

O editorial do O Globo foi enfático ao afirmar que o acordo "deve ser encarado com ceticismo". Para o jornal, embora a interrupção das hostilidades seja bem-vinda pelos efeitos imediatos sobre as perdas humanas e materiais, o documento não é suficiente para assegurar um Oriente Médio menos sujeito a convulsões. A principal motivação da guerra — o desmantelamento do programa nuclear iraniano — foi atingida apenas parcialmente, já que o Irã ainda mantém urânio enriquecido em patamar suficiente para construir até 12 bombas atômicas em prazo curto. O compromisso formal de que o país não tem a intenção de desenvolver armas nucleares é visto como frágil, dado o retrospecto iraniano.

A BBC Brasil, em análise assinada por Jeremy Bowen, foi na mesma direção ao lembrar que não se trata de um acordo de paz propriamente dito, mas de um memorando de entendimento que deixa as questões mais delicadas — como o programa nuclear e o nível de redução das sanções — para negociações futuras. A guerra, iniciada em 28 de fevereiro por Estados Unidos e Israel, expôs os limites do domínio americano e prejudicou alianças com as monarquias árabes do Golfo.

  1. A reabertura do Estreito de Ormuz: entre a promessa e a incerteza

A reabertura do Estreito de Ormuz, rota por onde passa cerca de um quinto do petróleo consumido no mundo, foi um dos pontos mais destacados pela imprensa. O G1 noticiou que o Irã afirmou que a previsão de reabertura é de até 30 dias, enquanto Trump declarou que a via estaria "completamente aberta" já na sexta-feira. O UOL, por sua vez, apontou que o Estreito só está sendo reaberto porque foi fechado com o início da guerra, e que a promessa de normalização esbarra em obstáculos concretos, como a presença de minas e a capacidade do Irã de bloquear o tráfego novamente.

O Estadão trouxe à tona um dado adicional que alimenta a desconfiança: os EUA suspenderão, mas não eliminarão, as sanções contra o Irã, e a passagem gratuita pelo Estreito de Ormuz está garantida por apenas 60 dias, não impedindo a cobrança de taxas no futuro. Essa temporariedade dos compromissos é vista como um indicador da fragilidade do entendimento.

  1. A pressão sobre Israel e o escanteamento de Netanyahu

Um dos eixos centrais da cobertura crítica da imprensa brasileira foi o papel de Israel e a pressão exercida sobre o país. O Estadão destacou que o acordo de paz com o Irã ressalta o fracasso da aposta de Benjamin Netanyahu na guerra, escanteado por Trump e criticado internamente por não entregar os resultados esperados. Israel não participou das negociações e bombardeou o Líbano durante as conversas, numa tentativa de minar o acordo que foi recebida com ira em Washington.

O editorial de O Globo foi ainda mais incisivo: "Israel, parceira americana na guerra, foi alijada das negociações por Trump. Ele criticou duramente o primeiro-ministro Benjamin Netanyahu por tentar sabotá-las mantendo ataques ao Líbano". A imposição, pelo Irã, do fim dos ataques ao Líbano como condição para aceitar o acordo é retratada como uma humilhação estratégica para Israel, que agora vê sua influência na região diminuída. A BBC Brasil complementa essa visão ao afirmar que o acordo é um "pesadelo político" para Netanyahu, que fica preso em um novo dilema político e de segurança.

  1. As perguntas que a imprensa brasileira insiste em fazer

Mais do que relatar os fatos, a imprensa brasileira adotou uma postura de questionamento sistemático sobre o "por quê do fim da guerra". O UOL expôs que o acordo permanece sob sigilo — nem aliados republicanos no Congresso nem o governo israelense tiveram acesso ao texto completo. A Casa Branca distribuiu um documento com "pontos de vitória" que, segundo a agência AP, não resistem a confronto com os fatos. O G1 lembrou que os detalhes do acordo não foram divulgados imediatamente e que questões como o programa nuclear iraniano deverão ser abordadas posteriormente. Essa opacidade é frequentemente citada como um sinal de que o entendimento pode ser mais uma pausa tática do que uma solução definitiva.

A BBC Brasil alertou que o acordo deixa o calendário "voltado para o dia 27 de fevereiro", quando forças americanas e israelenses se preparavam para atacar, sugerindo que a paz é, na verdade, uma volta à situação anterior à guerra.

  • Uma paz frágil e uma cobertura que não se rende ao otimismo oficial

A análise da cobertura da imprensa brasileira revela um traço comum: a recusa em aceitar o discurso triunfalista de Trump e a insistência em apontar as contradições e os riscos do acordo. Para O Globo, o "saldo positivo se esgota" na boa notícia para os mercados de petróleo. Para o Estadão, o acordo é um "fracasso de aposta" que escanteia Israel e expõe a fragilidade da liderança americana. Para a BBC, a guerra revelou os limites do domínio americano. E para o UOL, o que Trump anunciou e o que os fatos dizem são coisas distintas.

Em suma, a imprensa brasileira tratou o fim da guerra com o Irã não como um desfecho, mas como um capítulo provisório de uma narrativa ainda em aberto — na qual as perguntas sobre o futuro nuclear iraniano, o papel de Israel e a estabilidade do Estreito de Ormuz permanecem muito mais numerosas do que as respostas.

Com informações de G1, O Globo, O Estado de S. Paulo, BBC Brasil, UOL■

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