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O episódio ocorrido na cúpula do G7 em Évian-les-Bains, na França, expõe, em poucos minutos, o método de comunicação do presidente Donald Trump e o nível de desinformação com que a política externa dos Estados Unidos trata o Brasil. Em resposta a uma pergunta da repórter Bianca Rothier, da TV Globo, Trump afirmou ter conversado com o presidente Lula, classificou o Brasil como um “país politicamente difícil” e, na sequência, protagonizou uma confusão que já pode ser descrita como uma das mais emblemáticas fake news da atual gestão republicana.
A declaração do presidente americano foi repleta de imprecisões, equívocos e informações simplesmente falsas. Trump disse ter ouvido que “prenderam o Bolsonaro Jr.”, mencionou que esse “alguém” estava concorrendo a um cargo político e que a prisão teria ocorrido por causa de “uma declaração no Texas”. A fala, reproduzida integralmente pela imprensa, soa como mais um capítulo da estratégia trumpista de usar o peso dos EUA para constranger governos e influenciar processos eleitorais de nações soberanas.
A confusão, porém, não é um mero lapso. Como observou a jornalista Daniela Lima, do UOL, Trump não se confundiu — ele mentiu. “Não é que ele confunde Flávio com Eduardo, ele cria um Bolsonaro novo”, afirmou a colunista. De fato, a fala do republicano cria uma figura inexistente — “Bolsonaro Jr.” — e atribui a ela uma narrativa inteiramente falsa: a de que teria sido preso por um discurso no Texas, quando o que ocorreu, na realidade, foi a condenação de Eduardo Bolsonaro pelo Supremo Tribunal Federal (STF) a 4 anos e 2 meses de prisão por coagir magistrados e articular sanções contra o Judiciário brasileiro.
Os erros de Trump se acumulam em camadas:
Trump ainda afirmou que o Brasil “tem sido um pouco perigoso politicamente” e que “ninguém joga com mais garra do que os Estados Unidos”. A declaração, que ecoa o discurso de intervenção velada, foi rebatida por Lula em entrevista à imprensa ainda no G7. O presidente brasileiro afirmou que espera que Trump “não se meta nas eleições” brasileiras e defendeu que o republicano tenha suas preferências, mas sem interferir no processo democrático do país.
Enquanto Trump espalhava desinformação, Lula adotava uma postura diametralmente oposta no discurso oficial da cúpula. Sem mencionar o nome do presidente americano ou dos Estados Unidos, o petista fez uma crítica contundente ao que chamou de “políticas pró-bilionários” e ao avanço do protecionismo e do unilateralismo. “Enquanto se reduzem recursos para combater a fome, a pobreza e a mudança do clima, multiplicam-se políticas pró-bilionários. O resultado é um mundo cada vez mais desigual, mais instável e menos capaz de responder aos desafios coletivos”, declarou Lula.
O discurso de Lula no G7 foi uma resposta indireta, mas precisa, ao modelo de governança que Trump representa:
Ao contrapor as falas de Trump e Lula no G7, fica evidente o contraste entre dois projetos políticos opostos. De um lado, a desinformação como instrumento de pressão e interferência; de outro, a crítica estrutural ao neoliberalismo e a defesa de um mundo menos desigual. Trump tratou o Brasil como um tabuleiro de interesses, inventou fatos e confundiu nomes — mas, como bem observou Daniela Lima, “o presidente dos Estados Unidos não se confunde, ele mente”.
O episódio não é apenas um deslize verbal. É a expressão de um método: o uso da palavra oficial para semear dúvidas, desqualificar instituições e pavimentar o caminho para ingerências externas. E, enquanto isso, Lula optou por não entrar no jogo da provocação, preferindo atacar as bases do sistema que Trump representa — o neoliberalismo, o protecionismo e a concentração de riqueza.
A fake news de Trump no G7, portanto, não é um fato isolado. É um sintoma de como a política internacional pode ser reduzida a um espetáculo de desinformação, e de como o Brasil, mesmo diante de ataques, ainda encontra espaço para afirmar sua soberania e sua agenda de desenvolvimento.
Com informações de UOL, G1, Folha de Pernambuco, Brasil de Fato, Rádio Itatiaia, Diário do Centro do Mundo, Revista Fórum, Poder360, Veja, O Globo, R7 e Valor Internacional ■