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O Globo e a fake news sobre a oposição do governo à PEC 14
Enquanto o jornal estampa manchete sobre suposta resistência do Planalto, a realidade dos votos e das falas de ministros e da bancada do PT mostra exatamente o oposto
Analise
Foto: https://blogger.googleusercontent.com/img/b/R29vZ2xl/AVvXsEjet8DHM_F9Bobys5V9K4UxRgAsR9pLjAujSz9xz1vaAMkECbCcH10J3yd46BxcIcHdi3Q0xP73-UdnAVVgrc4QMx7AmOLXSu0S4o0413Tm-C9Ve-WvhAKHzhD94FckETSyzXZINk-yM4oMuYeGh5VR4YeJUyDnQDLmZAn3BK9YSz7W8CR3PfFDUI0V4a8t/s1600/M-NOVO11114S6665555555DD231A.jpg
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■   Bernardo Cahue, 18/06/2026

Há quem diga que o jornalismo é o primeiro rascunho da história. No caso de O Globo e da PEC 14, o rascunho tem sido generosamente reescrito — com rasuras convenientes. Em 7 de abril de 2026, o veículo estampou a manchete: "Governo Lula e prefeitos tentam barrar PEC da aposentadoria especial de agentes de saúde". A reportagem afirmava que o governo federal se mobilizava "no Congresso Nacional contra a Proposta de Emenda à Constituição que cria aposentadoria especial", citando estudos do Ministério da Previdência sobre impacto fiscal e a resistência de parlamentares "que receiam perder o voto da categoria".

O problema é que essa narrativa colide frontalmente com os fatos — e com a própria cobertura anterior do mesmo jornal. Seis meses antes, em outubro de 2025, O Globo havia publicado outra matéria com título diametralmente oposto: "Saiba como votou cada deputado no projeto que concede aposentadoria especial aos agentes de saúde; apoio uniu governo e oposição". A reportagem registrava que a PEC 14/21 fora aprovada na Câmara por 426 votos a favor e apenas 10 contrários no segundo turno — e que a bancada do PT votou unanimemente a favor da proposta. Os únicos votos contrários vieram de deputados do Novo e de uma ala do PL.

Como conciliar, então, a manchete de abril — que pintava um governo em guerra contra a PEC — com a realidade dos votos de outubro, em que o governo, pela boca de seus deputados, aprovou a matéria com folga? A resposta é simples: não há conciliação possível. O que há é uma tentativa deliberada de O Globo de criar uma falsa oposição do governo à PEC, associando o Planalto a uma suposta "preocupação fiscal" que, na prática, nunca se traduziu em voto contrário.

O próprio jornal, em sua reportagem de outubro, reconheceu o óbvio: "O apoio uniu o governo e a oposição". A liderança do governo na Câmara orientou voto favorável. Os deputados do PT — partido do presidente Lula — votaram em bloco pela aprovação. Não há registro de qualquer ministro ou assessor palaciano tendo trabalhado contra a proposta no plenário. Pelo contrário: o que se viu foi a defesa entusiástica da PEC por senadores do PT na CCJ do Senado, em 10 de junho de 2026. O senador Fabiano Contarato (PT-ES) foi taxativo: os agentes comunitários de saúde têm expectativa de vida de apenas 60 anos, muito inferior à média brasileira de 77 anos, e "têm carga horária exaustiva, com mísero salário, sem proteção, entrando onde o Estado está ausente". Palavras de quem, segundo O Globo, estaria "tentando barrar" a proposta?

O que explica, então, a insistência do jornal em empurrar a narrativa do "governo contra a PEC"? A resposta está no uso estratégico do Ministério da Previdência como porta-voz de uma ala técnica que, de fato, manifestou preocupação com o impacto fiscal de R$ 29,31 bilhões em dez anos. O Globo tomou essa estimativa — contestada por outros estudos que apontam economia de quase R$ 1 trilhão na Saúde — e a transformou em "posição do governo", quando na verdade se tratava de um parecer técnico de uma única pasta, não de uma decisão política do Planalto. O governo Lula, como bloco político, nunca orientou voto contrário à PEC em nenhuma das votações.

Há ainda um outro elemento, mencionado pelo próprio O Globo em sua manchete de abril: o "ano eleitoral". Ao associar o governo à resistência fiscal, o jornal tenta desmobilizar a base progressista que apoiaria a PEC — afinal, se o próprio Lula é contra, por que os trabalhadores insistiriam? — ao mesmo tempo em que isenta as Organizações Sociais de sua responsabilidade na explosão de custos. É uma cortina de fumaça clássica: joga-se o governo como bode expiatório para proteger o modelo de gestão terceirizada que, como já denunciado, triplica o custo por agente e serve de cabide eleitoral.

A verdade dos fatos, no entanto, é inescapável: a PEC 14 é uma pauta progressista, de valorização do trabalho e de defesa do SUS. Foi aprovada pela Câmara com votos do PT, do PSOL, da Rede, do PDT e de partidos de centro. Foi defendida na CCJ do Senado por senadores do PT e do PSD. O governo Lula, longe de "barrá-la", não moveu uma palha para impedir sua tramitação — e, se o fizer nos bastidores, isso nunca se refletiu em voto ou em declaração pública de seus principais líderes.

O Globo, ao criar e sustentar essa fake news, comete um desserviço ao leitor e à própria credibilidade do jornalismo. Não se trata de um erro de apuração — trata-se de uma escolha editorial: a de colocar a pauta fiscal acima da pauta social, e a de proteger interesses que não são os do trabalhador nem os do contribuinte. A PEC 14 não é "pauta-bomba" — é justiça tardia para quem faz o SUS funcionar. E o governo Lula, por meio de sua bancada no Congresso, já deixou claro onde pisa: ao lado dos agentes, não contra eles.

Com informações de O Globo, Agência Senado, Câmara dos Deputados, Folha de S.Paulo, Congresso em Foco, Brasil 247 ■

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