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A engenharia de bastidores que transforma jornais em porta-vozes das Organizações Sociais
A anti-campanha orquestrada por OS contra a aposentadoria especial dos agentes de saúde encontrou nos grandes veículos seus principais aliados — não por acaso, os mesmos que vivem da verba publicitária de campanhas eleitorais
Analise
Foto: https://sindsaude.org.br/noticias/wp-content/uploads/2016/06/900_14.06_pg1.jpg
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■   Bernardo Cahue, 18/06/2026

O ataque de O Globo à PEC que institui a aposentadoria especial para agentes comunitários de saúde e de combate a endemias não é um episódio isolado. Trata-se, na verdade, do capítulo mais recente de uma campanha sistemática e coordenada que se arrasta desde que a proposta — originalmente numerada como PEC 14/2021 na Câmara dos Deputados — começou a ganhar tração no legislativo. O que o leitor desavisado vê como uma simples reportagem com viés fiscalista é, na realidade, a ponta de um iceberg que envolve interesses bilionários, disputas eleitorais e uma simbiose perversa entre Organizações Sociais, grandes grupos de mídia e o financiamento de campanhas.

Desde os primeiros debates na Comissão de Seguridade Social e Família da Câmara, as Organizações Sociais que hoje gerenciam a contratação de centenas de milhares de agentes em todo o país mobilizaram seus departamentos de relações institucionais e comunicação para barrar a proposta. A estratégia foi clara: direcionar o bombardeio de informações aos três principais diários do eixo Rio-São Paulo — O Globo, O Estado de S. Paulo e a Folha de S. Paulo. Não por acaso, esses veículos passaram a publicar, em sucessivas edições, as mesmas manchetes alarmistas sobre o "rombo previdenciário", sempre citando as mesmas fontes anônimas do mercado financeiro e técnicos do Ministério da Economia alinhados à cartilha do ajuste fiscal, enquanto ignoravam sistematicamente os estudos técnicos do próprio Ministério da Saúde que apontavam a economia de quase R$ 1 trilhão com a eliminação da intermediação das OS.

A orquestração ficou ainda mais evidente quando se comparam as edições dos três jornais no mesmo período: todas trouxeram, em menos de 48 horas, reportagens com o mesmo tom, os mesmos números inflados e a mesma omissão em relação ao desvínculo com as OS. Não há coincidência em jornalismo — há pauta fornecida, há release reproduzido e, acima de tudo, há um alinhamento de interesses que transcende a cobertura factual.

Para entender esse alinhamento, é preciso ir além da redação e mirar o balcão de negócios que conecta o caixa das campanhas eleitorais aos cofres das empresas de comunicação. Vejamos os elos dessa corrente:

  • As Organizações Sociais, conforme amplamente documentado em investigações do TCU, da CPI das OS e de reportagens da própria imprensa (à exceção destes três veículos), são historicamente utilizadas como verdadeiros cabides para cabos eleitorais e como canais privilegiados para a prática de "caixa-dois" em campanhas — recursos não declarados que abastecem comitês e financiam estruturas de candidatos de diferentes legendas;
  • Esse caixa paralelo, quando precisa ser "lavado" ou convertido em apoio público, encontra nos grandes jornais um destino natural: a compra maciça de espaços publicitários durante o período eleitoral. Anúncios institucionais, inserções de candidatos, patrocínios de debates e impulsionamentos digitais — tudo isso gera receitas milionárias para as redações que, curiosamente, passam a adotar um editorial cada vez mais hostil a qualquer PEC que ameace o modelo de gestão das OS;
  • Não por obra do acaso, a escalada da anti-campanha contra a PEC 14 coincidiu com o calendário de fechamento dos contratos publicitários para o segundo semestre de 2026 — exatamente o período que antecede as eleições de outubro. Quanto mais agressivo o tom contra a proposta, mais as OS veem nesses jornais seus principais escudos protetores;
  • O Globo, o Estadão e a Folha, que nos anos anteriores publicaram editoriais em defesa da "eficiência da gestão privada" na saúde, agora silenciam sobre as denúncias de superfaturamento e sobre o fato de que, em muitos municípios, o custo por agente contratado via OS chega a ser 300% maior do que a contratação direta — justamente os "custos de administração" que eles tratam como justificáveis.

É essa interdependência financeira que transforma a cobertura jornalística em arma de lobby. Quando um jornal como O Globo insiste na narrativa do "impacto previdenciário" sem jamais mencionar a economia no orçamento da saúde, ele não está cometendo um erro técnico — está prestando um serviço àqueles que financiam seus anúncios. E quando Estadão e Folha replicam a mesma tese, com a mesma superficialidade, eles completam um coro que visa enterrar a PEC antes mesmo de sua votação no plenário do Senado.

A cronologia dos fatos é reveladora: a PEC 14 foi apensada e pautada na Câmara em meio a forte pressão das OS, que chegaram a enviar ofícios a lideranças partidárias com planilhas "alternativas" — todas refutadas pela Consultoria de Orçamento da Câmara. Diante do insucesso no legislativo, o plano B foi acionar a mídia. E os três veículos atenderam prontamente, publicando matérias com títulos que repetiam o jargão "pauta-bomba" — exatamente a expressão usada em reuniões privadas entre executivos das OS e operadores do mercado financeiro.

O que está em jogo, portanto, vai muito além dos agentes de saúde. A PEC expõe um modelo de captura do Estado por organizações privadas com fins lucrativos, disfarçadas de entidades sem fins lucrativos, e revela o papel da grande imprensa como catalisadora dessa captura. Ao repetir acriticamente os números da Previdência e omitir os da Saúde, esses jornais colocam sua credibilidade a serviço de uma pauta que não é do leitor, nem do cidadão — é dos anunciantes.

Em ano eleitoral, essa aliança tácita entre OS e veículos de comunicação ganha contornos ainda mais delicados. O "caixa-dois" que abastece campanhas e o dinheiro da publicidade que abastece as redações formam um ciclo vicioso que precisa ser escancarado. Cada reportagem que ataca a PEC sem contextualizar o custo-benefício da desvinculação das OS é uma contribuição indireta para a manutenção de um esquema que onera o SUS, precariza o trabalho dos agentes e beneficia intermediários — enquanto os jornais lucram, de um lado, com a venda de espaço e, de outro, com a audiência gerada pelo alarmismo fiscal.

Cabe ao Congresso, agora, resistir a essa pressão espúria e aprovar a PEC com base nos números reais — não nos números fabricados pelas OS e reproduzidos acriticamente pela imprensa. E cabe ao leitor, mais do que nunca, desconfiar de manchetes que tratam a valorização do trabalhador da saúde como um "gasto" e o lucro das intermediárias como "eficiência". O jornalismo que omite o interesse por trás da notícia deixa de ser jornalismo para se tornar marketing de influência com selo editorial.

Com informações de O Globo, O Estado de S. Paulo, Folha de S. Paulo, Extra, CBN, Valor Econômico, Agência Brasil, G1, Congresso em Foco, Jota, CNN Brasil, Brasil 247, TCU, CPI das Organizações Sociais (relatório 2024), Consultoria de Orçamento da Câmara dos Deputados ■

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