Siga nossas redes sociais
Logo     
Siga nossos canais
   
O Globo ataca novamente a PEC dos Agentes de Saúde
Enquanto o veículo foca em um impacto previdenciário de R$ 11 bilhões, ignora a economia de quase R$ 1 trilhão que a proposta pode gerar ao desvincular agentes de Organizações Sociais — e o timing eleitoral levanta suspeitas sobre a defesa de um modelo que já foi alvo de investigações por caixa dois
Analise
Foto: https://blogger.googleusercontent.com/img/b/R29vZ2xl/AVvXsEjUN9UZJL36cN4u16-a15EtSrxxvEXjjdb9-UR3xgTCrB7y2Mb29nLvnN3wWF1y0RbOopR8WUczCLBoDE5MuG43ycbC8ItOeMXSw-Zh2xy2uvENC0Z5j1SqmjLhfXyszojUCbjFts5tgjDmQTpIjzKIE0k8e7Qxk1eJ_CQKOnotVB0Xki1xGo5raUt2Ir_i/s1600/M-NOVO11114ARTTAA125RA226665555555DD231A.jpg
Compartilhar:
■   Bernardo Cahue, 18/06/2026

Mais uma vez, O Globo ataca a Proposta de Emenda à Constituição (PEC) que institui a aposentadoria especial para agentes comunitários de saúde e agentes de combate às endemias, classificando-a como mais uma "pauta-bomba". A investida do veículo, no entanto, peca por omissão e por uma narrativa seletiva que desconsidera aspectos centrais do debate, especialmente em um ano eleitoral.

A peça editorial do jornal, publicada em abril, é taxativa: a PEC é "descabida" e cria um "precedente descabido". O argumento central é o impacto fiscal. De acordo com estudos do Ministério da Previdência citados pela publicação, a medida geraria um rombo de R$ 29,5 bilhões em dez anos — número que varia em outras reportagens, que falam em R$ 30 bilhões ou até R$ 11 bilhões em três anos. A ênfase, sempre, recai sobre o suposto ônus para os cofres públicos e o risco de abrir precedentes para outras categorias.

O que O Globo omite, contudo, é a outra face da moeda. A PEC não trata apenas de aposentadoria; ela disciplina a forma de contratação desses agentes e proíbe contratações temporárias ou terceirizadas, determinando que o ingresso na carreira se dê exclusivamente por concurso público. É exatamente aí que reside a economia monumental que o jornal insiste em ignorar.

Ao desvincular os agentes comunitários e de endemias das Organizações Sociais (OSs), a PEC elimina uma camada de intermediação que, na prática, triplica o custo mensal por agente. Esses custos adicionais são frequentemente justificados como "despesas de administração", mas escondem uma realidade mais sombria. Organizações Sociais já foram alvo de investigações por serem apontadas como principais fontes de "caixa-dois" de campanha e cabides para cabos eleitorais. A manutenção desse modelo, portanto, não é apenas um problema de eficiência gerencial, mas uma questão de probidade administrativa e transparência.

Os números são eloqüentes e contrastam com a narrativa do jornal:

  • Impacto Previdenciário (segundo O Globo): R$ 11 bilhões a R$ 30 bilhões em até 20 anos.
  • Economia com o fim das OSs (estimativa): Quase R$ 1 trilhão no mesmo período para os cofres do Ministério da Saúde, decorrente da contratação direta e do fim da terceirização onerosa.

Ou seja, a economia gerada pela medida é até 90 vezes maior do que o custo previdenciário apontado. Ao focalizar apenas no impacto para a Previdência, O Globo constrói uma narrativa distorcida que serve a interesses que vão além da responsabilidade fiscal.

É impossível dissociar essa ofensiva do contexto eleitoral. Estamos em véspera de eleição, e o modelo de terceirização por OSs, além de ineficiente, tem se mostrado um terreno fértil para práticas condenáveis. A defesa intransigente desse modelo por um grande veículo de imprensa, em um momento tão sensível, levanta suspeitas sobre quais interesses estão realmente sendo protegidos.

Ao rotular a PEC como "pauta-bomba" e insistir na falsa retórica do impacto financeiro descomunal, O Globo não apenas desinforma o público, mas também tenta proteger um sistema que onera os cofres públicos e fere a moralidade administrativa. A análise crítica que o jornal se propõe a fazer revela-se, na verdade, uma cortina de fumaça para ocultar o verdadeiro custo da terceirização e o benefício de uma gestão pública mais eficiente e transparente.

A distorção é ainda mais grave quando se considera o histórico das Organizações Sociais no Brasil. Diversas OS já foram alvo de investigações por suposto uso como fontes de "caixa-dois" de campanha e cabides de emprego para cabos eleitorais. Ao defender a manutenção desse modelo oneroso e opaco, O Globo alinha-se a interesses que pouco têm a ver com a eficiência do gasto público ou com a valorização dos profissionais que atuam na ponta do Sistema Único de Saúde (SUS).

Não é coincidência que o ataque do jornal à PEC ocorra em véspera de eleição. O episódio evidencia o uso estratégico do debate fiscal para desmobilizar pautas que beneficiam categorias profissionais historicamente desassistidas, ao mesmo tempo em que se protege um modelo de gestão que favorece a captura do Estado por interesses privados. Ao rotular a PEC como "pauta-bomba" sem apresentar o contraponto da economia bilionária ao Ministério da Saúde, O Globo não faz jornalismo — faz propaganda a serviço de uma agenda que não é a do interesse público.

A PEC que cria aposentadoria especial para agentes de saúde não é uma ameaça às contas públicas; é uma oportunidade de corrigir distorções históricas na gestão da atenção básica, reduzir custos e garantir dignidade a quem cuida da saúde dos brasileiros. Cabe ao Congresso — e à imprensa — olhar para o quadro completo, e não para a fatia que interessa aos donos do poder.

Com informações de O Globo, Extra, CBN, Valor Econômico, Agência Brasil, G1, Congresso em Foco, Jota, CNN Brasil, Brasil 247 ■

Mais Notícias