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A Polícia Federal já reúne provas suficientes de que o ex-deputado Eduardo Bolsonaro (PL-SP) utilizou sua influência para indicar o deputado Filipe Barros (PL-PR) à presidência da Comissão de Relações Exteriores e de Defesa Nacional (CREDN) da Câmara com o objetivo claro de beneficiar o Banco Master e seu controlador, Daniel Vorcaro. A informação, revelada em investigação conduzida pela corporação, escancara um esquema de tráfico de influência e abuso de poder político que transformou um colegiado voltado à soberania nacional em instrumento de proteção a interesses privados.
Eduardo Bolsonaro anunciou seu "autoexílio" nos Estados Unidos em março de 2025, licenciando-se do mandato parlamentar. Na ocasião, o PL, partido com a maior bancada da Câmara, enfrentou um impasse interno para definir a presidência da CREDN, cadeira que havia sido prometida a Eduardo. Mesmo fora do país, o ex-deputado agiu nos bastidores para garantir que o comando da comissão ficasse com um aliado de sua confiança: Filipe Barros. Em live nas redes sociais, Eduardo deixou claro que não havia perdido o poder sobre a CREDN, afirmando: "Para quem acha que eu não [vou] estar sentado naquela cadeira, eu perdi o poder na CREDN, negativo, tá" — uma declaração que, agora, é tratada pela PF como evidência de que a indicação de Barros foi orquestrada para manter o controle sobre o colegiado.
Filipe Barros, que visitava Eduardo Bolsonaro pelo menos uma vez por mês no Texas, segundo apurou a investigação, assumiu a presidência da CREDN em 19 de março de 2025. Na posse, o deputado paranaense citou o "autoexílio" de Eduardo como fuga de uma "iminente perseguição" e apresentou a comissão como uma "trincheira" em defesa da soberania. Contudo, o que se viu a seguir foi exatamente o oposto: a CREDN, cuja alçada oficial é tratar de temas internacionais e de defesa nacional, passou a se meter na regulação do setor financeiro brasileiro.
Entre novembro de 2024 e setembro de 2025, Barros apresentou sete requerimentos, um projeto de lei e promoveu uma audiência pública que mirava diretamente o Banco Master, o Banco Central e a Comissão de Valores Mobiliários (CVM). A primeira e mais emblemática iniciativa foi a apresentação do PL 4395/2024, que propunha quadruplicar a cobertura do Fundo Garantidor de Crédito (FGC) de R$ 250 mil para R$ 1 milhão. O texto era idêntico à chamada "emenda Master" — uma proposta redigida por funcionários do Banco Master e entregue ao senador Ciro Nogueira (PP-PI) em um envelope, a mando de Daniel Vorcaro.
Ao ser questionado, Filipe Barros admitiu ter redigido o projeto após tomar conhecimento da proposta de Ciro Nogueira, que classificou como uma "boa ideia". Negou ter discutido o tema com o senador ou com Vorcaro. No entanto, a cronologia dos fatos e a atuação coordenada da CREDN sob seu comando apontam em direção oposta. Além do projeto do FGC, Barros convocou o presidente da CVM, João Pedro Nascimento — amigo de infância de Flávio Bolsonaro e indicado à CVM durante o governo Jair Bolsonaro — para uma audiência tensa. Também convidou o presidente do Banco Central, Gabriel Galípolo, sob o pretexto de discutir ataques hackers ao Pix, numa clara tentativa de pressionar os órgãos reguladores que, àquela altura, já investigavam o Master.
As investigações da PF apontam que Daniel Vorcaro mantinha uma "mesada" paga a Ciro Nogueira, e agora os agentes buscam comprovar se o mesmo esquema de financiamento ilícito se estendia a Eduardo Bolsonaro e seu círculo de aliados. Documentos obtidos pelo The Intercept Brasil revelaram transferências milionárias de Vorcaro para um fundo nos Estados Unidos administrado pelo advogado pessoal de Eduardo Bolsonaro. A PF também investiga se o banqueiro financiou despesas pessoais e a permanência do ex-deputado nos EUA.
O uso da CREDN como palanque para defender interesses privados de um banqueiro investigado por fraudes bilionárias representa um dos capítulos mais graves da promiscuidade entre o poder político e o capital financeiro já revelados no Brasil. Eduardo Bolsonaro, mesmo foragido, manteve-se no comando da comissão por intermédio de Filipe Barros, e a PF agora tem as provas de que essa articulação foi deliberadamente arquitetada para salvar o Banco Master — uma instituição que já provocou um rombo de R$ 57,4 bilhões no FGC e deixou milhares de investidores prejudicados.
O deputado Filipe Barros nega qualquer irregularidade e alega que as iniciativas da CREDN não foram discutidas com Eduardo ou Flávio Bolsonaro. As provas reunidas pela Polícia Federal, no entanto, sugerem o contrário. Resta agora aguardar os desdobramentos da investigação e a eventual responsabilização dos envolvidos por crimes de tráfico de influência, corrupção e atentado à ordem econômica.
Com informações de O Globo, Folha de S.Paulo, Revista Fórum, CNN Brasil, Brasil 247, Diário do Centro do Mundo, The Intercept Brasil, R7, UOL e Metrópoles ■