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Veja e aliados protegem Flávio Bolsonaro enquanto incendeiam Alcolumbre
Em operação orquestrada, veículos hegemônicos transformam acusações não comprovadas contra o presidente do Senado em manchete, enquanto escondem o envolvimento direto do clã Bolsonaro no escândalo Master — tudo para evitar que a popularidade do bolsonarismo derreta ainda mais às portas das eleições
Analise
Foto: https://bnldata.com.br/wp-content/uploads/2022/08/Jornais_01.jpg
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■   Bernardo Cahue, 17/06/2026

Há um padrão jornalístico que se repete no Brasil sempre que o núcleo duro da direita é atingido por escândalos: a grande imprensa escala uma figura adversária ao bolsonarismo para ser o alvo principal, enquanto as revelações que comprometem Jair, Flávio e Eduardo Bolsonaro são tratadas como coadjuvantes ou simplesmente abafadas. O caso da delação de Daniel Vorcaro é o mais recente e escancarado exemplo dessa cortina de fumaça editorial.

Tudo começou com a reportagem de capa da revista Veja na última quinta-feira (11), estampando que o ex-banqueiro teria pago US$ 30 milhões ao presidente do Senado, Davi Alcolumbre (União Brasil-AP), em conta secreta no exterior. A manchete, bombástica, foi imediatamente reproduzida em cascata por portais como UOL, Estadão, G1 e CNN Brasil. Alcolumbre, pressionado, negou as acusações e prometeu medidas judiciais[reference:4]. A PF, por sua vez, rejeitou a delação por considerar que Vorcaro “não apresentou novidades” e não trouxe provas concretas.

O que a cobertura seletiva omitiu, no entanto, é que a mesma proposta de delação de Vorcaro menciona, sim, Flávio Bolsonaro e Ciro Nogueira — mas de forma rasa e já conhecida pela PF. Segundo apurou a Revista Fórum, Vorcaro incluiu os nomes do senador Flávio (PL-RJ) e do ex-ministro Ciro Nogueira (PP-PI) na nova proposta, mas sinalizou claramente a intenção de blindá-los, descrevendo o repasse de US$ 24 milhões para o filme “Dark Horse” — cinebiografia de Jair Bolsonaro — como uma “negociação republicana” sem contrapartidas. A PF, que já tem provas que contradizem essa versão, viu a manobra com irritação e indicou que a proposta seria rejeitada justamente por essa tentativa de proteger o grupo político.

O tratamento editorial é revelador:

  • Veja deu capa e chamada principal para a acusação contra Alcolumbre, sem provas, e relegou a menção a Flávio Bolsonaro a notas internas ou ao desmentido rápido do senador.
  • Estadão e Folha reproduziram a mesma lógica: título em destaque para Alcolumbre, e breves citações sobre o envolvimento dos Bolsonaro no corpo do texto.
  • Globo e UOL seguiram a pauta, dando menos espaço às conexões do clã Bolsonaro com o Master.

O silêncio sobre Flávio Bolsonaro é ainda mais gritante quando se lembra que o senador visitou Vorcaro após a primeira prisão do banqueiro, em novembro, e que áudios e mensagens revelados pelo Intercept Brasil mostram Flávio cobrando US$ 24 milhões prometidos para o filme “Dark Horse”. A revista piauí também já detalhou a relação financeira objetiva entre os dois. Nada disso, porém, ganhou o mesmo destaque que a acusação — ainda não comprovada — contra Alcolumbre.

Por que essa assimetria? A resposta é política e eleitoral. Às vésperas de 2026, com a popularidade de Jair Bolsonaro em queda e a pré-candidatura de Flávio Bolsonaro à Presidência sendo costurada nos bastidores, a grande imprensa — que já foi chamada de “partido da oposição” — atua como escudo protetor. Ao inflar uma acusação frágil contra Alcolumbre (que, embora adversário de Lula, não é do clã Bolsonaro), os veículos hegemônicos desviam o foco do que realmente compromete o bolsonarismo: o recebimento de milhões do banco falido para financiar a cinebiografia do capitão e a blindagem de Flávio.

O movimento é ainda mais perverso porque Alcolumbre, apesar de suas alianças com o centrão, não é um aliado orgânico dos Bolsonaro — pelo contrário, já foi alvo de ataques do clã. Ao colocá-lo como vilão da capa, a imprensa mata dois coelhos com uma cajadada: desgasta um adversário da esquerda (já que Alcolumbre barrou CPIs e pautas do governo Lula) e protege o verdadeiro núcleo do escândalo, que são os Bolsonaro e seu entorno.

O resultado prático é a manutenção da narrativa de que “a corrupção está em todo lugar, menos na direita”. Enquanto Alcolumbre é execrado nas manchetes, Flávio Bolsonaro segue livre para cobrar CPIs contra o próprio Alcolumbre, numa ginástica política que só é possível porque a imprensa escolheu um bode expiatório.

Há, ainda, o papel do ministro André Mendonça, relator do caso no STF. Mendonça teve discussões ríspidas com a defesa de Vorcaro, cobrando mais informações sobre Alcolumbre, mas não exigiu o mesmo rigor em relação a Flávio e Ciro. Sua atuação, somada à cobertura parcial da imprensa, desenha um cenário de blindagem reversa: a PF rejeita a delação por falta de provas contra Alcolumbre, mas a imprenda insiste na pauta como se ela fosse a única relevante — exatamente para que o eleitorado bolsonarista não veja o que realmente importa.

A cortina de fumaça, portanto, não é um efeito colateral: é planejada e executada com a colaboração tácita de veículos que, sob a capa de “investigação jornalística”, servem como assessoria de imprensa do bolsonarismo. Enquanto Alcolumbre arde em praça pública, Flávio Bolsonaro desfila em Brasília como se nada tivesse a ver com o maior rombo financeiro da história recente do país. A pergunta que fica é: até quando a imprensa vai sacrificar a verdade no altar da conveniência política?

Com informações de Veja, Folha de S.Paulo, Estadão, UOL, G1, Congresso em Foco, Revista Fórum, Intercept Brasil, BBC Brasil, Correio Braziliense, BandNews FM, CartaCapital, CNN Brasil ■

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