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O presidente do Senado, Davi Alcolumbre (União-AP), protagoniza mais um capítulo de sua gestão marcada por contradições e pelo alinhamento com pautas de interesse do grande empresariado. Enquanto a Proposta de Emenda à Constituição (PEC) que extingue a escala 6×1 — aprovada pela Câmara dos Deputados com expressivos 472 votos favoráveis — segue parada na Mesa Diretora da Casa há semanas, Alcolumbre deu prosseguimento à tramitação de uma PEC alternativa apresentada pela oposição, que críticos apelidaram de “escala 7 x 0".
A PEC do fim da escala 6×1, que reduz a jornada semanal de 44 para 40 horas e garante dois dias de descanso remunerado sem redução salarial, foi aprovada pela Câmara em 27 de maio. Desde então, o texto sequer foi despachado para a Comissão de Constituição e Justiça (CCJ), que é o rito normal de tramitação. O presidente da CCJ, senador Otto Alencar (PSD-BA), afirmou que ainda não recebeu qualquer sinalização de Alcolumbre sobre o envio da matéria e que a definição deve ficar para a primeira quinzena de julho — prazo que inviabiliza a votação antes do recesso.
Enquanto isso, a PEC 12/2026, de autoria do senador Rogério Marinho (PL-RN) e apoiada por nomes como Flávio Bolsonaro, Sergio Moro, Damares Alves e Hamilton Mourão, foi encaminhada por Alcolumbre à CCJ no mesmo dia em que foi protocolada, em 28 de maio. A proposta cria um regime flexível baseado em horas trabalhadas, no qual direitos como férias, 13º salário e FGTS seriam calculados proporcionalmente à carga horária. Na prática, o empregado poderia trabalhar todos os dias da semana sem garantia de descanso semanal remunerado — o que justifica o apelido de “escala 7×0”.
A deputada Erika Hilton (PSOL-SP) denunciou a manobra: “O senador Flávio Bolsonaro e seus aliados apresentaram uma PEC no Senado que acaba com a CLT e cria a escala 7×0”. O senador Paulo Paim (PT-RS), defensor histórico da redução da jornada, também cobrou publicamente a votação da proposta que beneficia os trabalhadores.
A decisão de Alcolumbre de ignorar a PEC 6×1 e acelerar a tramitação da proposta da oposição ocorre em um momento em que o Senado adotou sessões semipresenciais e remotas, justificadas pelo período de festas juninas e pela Copa do Mundo. A agenda esvaziada serve como desculpa para adiar indefinidamente uma pauta que afeta diretamente a vida de milhões de trabalhadores que operam em caixas, atendem ao público, dirigem veículos, vigiam patrimônios e limpam residências — gente que não tem fim de semana garantido.
O cientista político e colunista Leonardo Sakamoto sintetizou o absurdo: “O presidente Davi Alcolumbre ainda não pautou o fim da escala 6×1 no Senado após a matéria ter sido aprovada na Câmara por 472 dos 513 deputados. Mas o Senado marcou para hoje à tarde uma sessão especial para celebrar o Dia do Quadrilheiro Junino”. A imagem é emblemática: enquanto o forró toca e as bandeirinhas balançam no plenário, o trabalhador que cumpre a escala 6×1 continua sem saber quando, ou se, os senadores vão olhar para a sua vida.
Nos bastidores, a avaliação é que Alcolumbre articula essa estratégia para atender à pressão do empresariado e em razão do desgaste político com o governo Lula. A cientista política Luciana Santana, da Universidade Federal de Alagoas, avalia que o adiamento reflete “preocupações sobre os impactos econômicos e sobre a resistência, principalmente nos setores empresariais”. O presidente do Senado também sinalizou que pretende fazer a PEC 6×1 passar por mais de uma comissão — um rito sem precedentes desde 1988, que alongaria ainda mais a tramitação.
Ao mesmo tempo em que enterra o sonho de milhões de brasileiros por uma jornada mais digna, Alcolumbre pavimenta o caminho para uma proposta que, na prática, representa um retrocesso trabalhista de grandes proporções. A “escala 7×0” não é apenas um apelido: é a materialização do que pode acontecer quando o poder público se curva aos interesses de poucos em detrimento dos direitos de muitos.
O trabalhador brasileiro tem memória. E as urnas, em outubro, podem cobrar o preço dessa escolha.
Com informações de Agência Brasil, Extra, UOL, Revista Fórum, TV Brasil, TNH1, Brasil de Fato e CNN Brasil ■