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O ex-deputado federal Eduardo Bolsonaro (PL-SP) publicou na última quinta-feira (3) um vídeo em tom exaltado contra o jornal O Globo, acusando o veículo de atribuir-lhe uma defesa que, segundo diz, jamais fez: a sugestão de substituir o sistema de pagamentos instantâneos brasileiro Pix pelo Zelle, ferramenta privada utilizada nos Estados Unidos. Na gravação, Eduardo exige retratação e desafia o jornal a apresentar um vídeo em que ele tenha dito algo nesse sentido.
“Eu exijo uma retratação. Saiu no Globo e foi replicado por vários outros veículos de comunicação. Eu absolutamente jamais disse isso. Eu desafio o Globo a calar minha boca e mostrar um vídeo onde eu tenha dito, porventura, algo nesse sentido”, afirmou o deputado, em trecho reproduzido pela Gazeta do Povo[reference:0]. A publicação, que rapidamente viralizou, trouxe à tona um novo episódio da já tensa relação entre a família Bolsonaro e a imprensa.
Contexto da polêmica
A controvérsia teve início após declarações de Eduardo Bolsonaro ao canal TCM News, também na última quarta-feira (2). Questionado sobre as negociações para evitar um novo tarifaço de 25% sobre produtos brasileiros anunciado pelos Estados Unidos — e que citava o Pix como um dos pontos questionados pelo governo americano —, o ex-deputado afirmou que os EUA possuem mecanismos “muito semelhantes” ao sistema brasileiro, citando o Zelle como exemplo, e que esse ponto poderia ser levado à mesa de negociação[reference:1]:
A declaração foi amplamente repercutida. O perfil Sonar – A Escuta das Redes, do jornal O Globo, publicou matéria com o título “Eduardo Bolsonaro sugere troca do Pix por sistema americano Zelle, e vira alvo de críticas nas redes: 'Vassalagem'”, destacando que o nome do deputado chegou aos assuntos mais comentados na rede X na manhã daquela quinta-feira[reference:2]. A publicação gerou forte reação negativa nas redes sociais, com termos como “vassalagem” e “traição nacional” sendo associados à fala do ex-deputado[reference:3].
O vídeo furioso e as contradições
Em seu vídeo de resposta, gravado horas depois, Eduardo Bolsonaro adotou uma postura agressiva, misturando ataques à imprensa, críticas ao presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) e uma tentativa de atribuir ao pai, Jair Bolsonaro, a criação do Pix — alegação já desmentida por veículos de checagem e autoridades[reference:4]. “O Pix é criado por Jair Messias Bolsonaro, sem taxa, e assim continuará sendo”, afirma o deputado na gravação, conforme apurou a Revista Fórum[reference:5]. No entanto, o sistema de pagamento instantâneo foi desenvolvido pela área técnica do Banco Central, com lançamento da marca em fevereiro de 2020, durante o governo Bolsonaro, mas sua gestação técnica ocorreu ainda em 2018, no governo do ex-presidente Michel Temer (MDB)[reference:6].
A análise da Revista Fórum aponta que a tentativa de controle de danos não esconde a contradição central do discurso. O deputado nega ter sugerido a substituição do Pix, mas sua declaração original ao TCM News coloca o Zelle como equivalente ao sistema brasileiro e sugere que esse ponto pode ser usado como moeda de troca em negociações com os EUA — justamente em um momento em que Washington pressiona o Brasil por causa da força do pagamento instantâneo brasileiro, considerado um entrave para empresas americanas no setor de pagamentos digitais[reference:7].
Repercussão política e desdobramentos
O episódio rapidamente se tornou combustível para críticas de oposição e de aliados do governo Lula. Parlamentares governistas passaram a associar a fala de Eduardo Bolsonaro e o encontro recente de Flávio Bolsonaro com o presidente Donald Trump à ofensiva comercial contra o Brasil, cunhando termos como “Tariflávio” e “o Pix é nosso”[reference:8]. Internamente, setores bolsonaristas também demonstraram desconforto, uma vez que a declaração reforçava a percepção pública de alinhamento da família com interesses externos em detrimento de uma política pública nacional de sucesso.
Na tentativa de estancar o desgaste, Eduardo Bolsonaro passou a se declarar “pró-Pix” e a exigir retratação dos veículos que noticiaram sua fala original. No entanto, como observa a Revista Fórum, o vídeo de reação não apaga a contradição do próprio discurso:
Análise crítica
O episódio ilustra um padrão recorrente no discurso político brasileiro: o uso de alegações de “fake news” e “perseguição da imprensa” como estratégia para desviar o debate público do mérito das questões. No caso em questão, a controvérsia não reside apenas na literalidade da palavra “troca”, mas no contexto e na implicação política da fala original. Ao apresentar o Zelle como equivalente ao Pix e tratar o tema como argumento de negociação com os EUA, Eduardo Bolsonaro colocou um sistema público brasileiro no mesmo tabuleiro da ofensiva comercial de Donald Trump — uma postura que, para muitos analistas, representa um alinhamento com interesses estrangeiros em detrimento da autonomia nacional.
Além disso, a tentativa de atribuir a paternidade do Pix a Jair Bolsonaro ignora a trajetória técnica e institucional do sistema, construído ao longo de anos por servidores do Banco Central, e revela uma instrumentalização da verdade para fins políticos imediatos. Ao final, o vídeo que deveria encerrar a crise acabou reforçando o problema, deixando em evidência não apenas as contradições do deputado, mas também a fragilidade argumentativa de sua defesa.
Com informações de: Revista Fórum, O Globo, Gazeta do Povo ■