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O ex-deputado federal Eduardo Bolsonaro (PL-SP) consolidou, nos últimos meses, um padrão de atuação em território norte-americano que ultrapassa os limites do que se poderia classificar como mero ativismo político. Vivendo nos Estados Unidos desde o início de 2025, o filho do ex-presidente Jair Bolsonaro (PL) transformou-se em uma espécie de agente informal de pressão sobre o governo de Donald Trump, utilizando todos os instrumentos ao seu alcance — da diplomacia paralela à ameaça de retaliações econômicas — para tentar impor sanções contra membros do Poder Judiciário brasileiro e, ao mesmo tempo, abrir caminho para a captura de dados e da infraestrutura financeira nacional por interesses privados estrangeiros. A proposta mais recente, ventilada em 3 de junho de 2026, de substituir o Pix pelo Zelle como “moeda de negociação” com os EUA, não foi um deslize isolado. Ela integra um projeto mais amplo, articulado nos bastidores de Washington, que envolve a cessão de dados de cidadãos brasileiros a autoridades norte-americanas, a adoção de um sistema de pagamento privado notoriamente fraudulento e a aplicação da Lei Global Magnitsky para perseguir adversários políticos — tudo em nome de um alinhamento automático e acrítico aos interesses do governo Trump.
I. O Zelle: um “Pix americano” que não passa de um poço de fraudes
Ao caracterizar o Zelle como o “Pix dos EUA” e sugerir que o Brasil leve o sistema norte-americano “para a mesa de negociação” com o governo Trump, Eduardo Bolsonaro revelou, no mínimo, um profundo desconhecimento técnico sobre os dois sistemas. Diferentemente do Pix — uma infraestrutura pública, universal, gratuita e instantânea criada e operada pelo Banco Central do Brasil em 2020 —, o Zelle é um sistema privado lançado em 2017, administrado pela empresa Early Warning Services (EWS), controlada por um consórcio dos sete maiores bancos dos EUA: Bank of America, JPMorgan Chase, Capital One, Wells Fargo, PNC Bank, Truist e U.S. Bank. O serviço não é universal: apenas clientes de bancos participantes podem utilizá-lo, e os limites de transferência variam conforme a política de cada instituição. O próprio site do Bank of America admite que “em algumas situações, a instituição financeira do destinatário pode causar um atraso no processamento da transferência” via Zelle, ao passo que o Pix liquida transações em segundos, 24 horas por dia, sete dias por semana, incluindo feriados.
Mas a diferença mais preocupante entre os dois sistemas, e que Eduardo Bolsonaro convenientemente omitiu, diz respeito à segurança e à proteção ao consumidor. O Pix conta com o Mecanismo Especial de Devolução (MED), que permite a reação imediata em casos de fraude ou erro. Já o Zelle, segundo seu próprio site oficial, permite o cancelamento de uma transação apenas se o destinatário ainda não estiver cadastrado na plataforma; uma vez enviado o dinheiro para um usuário registrado, a operação é irreversível.
O resultado dessa fragilidade foi documentado de forma contundente pela Justiça norte-americana. Em agosto de 2025, a procuradora-geral do estado de Nova York, Letitia James, ingressou com uma ação judicial contra a Early Warning Services, acusando a empresa de ter projetado o Zelle “sem características de segurança críticas, permitindo que golpistas alvejassem facilmente os usuários e roubassem mais de US$ 1 bilhão entre 2017 e 2023”. A investigação do escritório da procuradora revelou que a EWS sabia desde o início que as características da rede Zelle a tornavam “unicamente suscetível a fraudes”, mas mesmo assim a empresa se recusou a adotar salvaguardas básicas. A ação judicial descreve um cenário de fraudes “desenfreadas”, nas quais estelionatários obtinham acesso não autorizado a contas ou enganavam usuários sob falsos pretextos — como no caso clássico de um golpista que se passou por funcionário da concessionária Con Edison e convenceu uma vítima a transferir US$ 1.476,89 para uma conta com o nome falso “Coned Billing”. A natureza imediata e irreversível das transferências significava que, quando os consumidores percebiam o golpe, o dinheiro já havia desaparecido.
Ou seja: ao sugerir que o Brasil adote o Zelle como contrapartida em negociações comerciais, Eduardo Bolsonaro estava, na prática, propondo substituir uma infraestrutura pública de sucesso mundial — o Pix — por um sistema privado que está sendo processado nos tribunais americanos por facilitar o roubo de mais de US$ 1 bilhão de consumidores. Não se trata de “equivalência tecnológica”. Trata-se de ignorância crassa ou, pior, de um deliberado desserviço ao interesse público brasileiro.
II. Controle de dados e espionagem: o caminho para a Lei Magnitsky
A proposta de substituir o Pix pelo Zelle não está isolada das demais articulações de Eduardo Bolsonaro nos EUA. Ela se conecta diretamente a uma estratégia mais ampla: a de fornecer às agências de inteligência e ao governo norte-americano acesso irrestrito a dados financeiros e informações sobre cidadãos brasileiros, como forma de pavimentar a aplicação da Lei Global Magnitsky contra adversários políticos internos.
A Lei Magnitsky, criada no governo Barack Obama e posteriormente ampliada pela Global Magnitsky Act de 2016, permite ao governo dos EUA impor sanções unilaterais — bloqueio de bens, congelamento de contas, exclusão do sistema financeiro internacional e cancelamento de vistos — contra estrangeiros acusados de violações graves de direitos humanos ou corrupção. O instrumento foi concebido para punir ditadores e regimes autoratórios, nunca para ser usado contra magistrados de uma democracia consolidada como o Brasil.
Mas foi exatamente isso que Eduardo Bolsonaro articulou. Em julho de 2025, após intenso lobby do ex-deputado junto a autoridades americanas, o governo Trump impôs sanções da Lei Magnitsky contra o ministro Alexandre de Moraes, do Supremo Tribunal Federal (STF), sua esposa, a advogada Viviane Barci de Moraes, e uma empresa do casal. Em entrevista ao canal TMC News, Eduardo admitiu ter pedido pessoalmente ao presidente Donald Trump a “retomada das punições”, afirmando que “punições individuais contra pessoas que estão se comportando como tiranos são válidas”. O ex-deputado classificou a sanção como um “marco histórico e um alerta: abusos de autoridade agora têm consequências globais”. Mais grave: Eduardo argumentou publicamente que “relatórios e informações produzidos por agências dos Estados Unidos permaneceriam arquivados e poderiam ser reutilizados”, deixando claro que via as bases de dados e os sistemas de inteligência americanos como instrumentos a serviço de sua agenda política pessoal.
A atuação de Eduardo não parou aí. Em vídeo divulgado em julho de 2025, ele apareceu pedindo “humildemente ao presidente Trump” que aplicasse a Lei Magnitsky não só contra Alexandre de Moraes, mas também contra outros ministros do STF e políticos brasileiros. A Primeira Turma do STF aceitou denúncia da Procuradoria-Geral da República contra Eduardo pelo crime de coação no curso do processo — ele é acusado de articular sanções ao Brasil e a ministros da Corte com o objetivo de garantir a impunidade de seu pai, o ex-presidente Jair Bolsonaro, condenado a 27 anos de prisão por tentativa de golpe de Estado. Em dezembro de 2025, após aproximação entre os presidentes Lula e Trump, as sanções contra Moraes foram retiradas. Eduardo reagiu com “pesar”, publicando nota em que lamentou a decisão.
O que está em jogo aqui é muito mais do que uma disputa política entre adversários. Ao solicitar a aplicação da Lei Magnitsky contra magistrados brasileiros, Eduardo Bolsonaro está, na prática, pedindo ao governo estrangeiro que interfira diretamente na separação dos Poderes no Brasil, que imponha sanções financeiras a agentes públicos em pleno exercício de suas funções constitucionais e que utilize como justificativa informações fiscais e bancárias de cidadãos brasileiros — dados que, em um Estado de Direito minimamente funcional, são protegidos por sigilo fiscal e bancário. A cessão desses dados a autoridades norte-americanas representa uma violação frontal da soberania nacional.
III. A equação perversa: sistema privado fraudulento + controle de dados = instrumento de coerção política
A conexão entre as duas frentes de atuação de Eduardo Bolsonaro — a defesa do Zelle em substituição ao Pix e o lobby pela aplicação da Lei Magnitsky — não é casual. Em ambos os casos, o fio condutor é o mesmo: transferir poder de decisão sobre a vida financeira e os dados de brasileiros para entes privados e governamentais estrangeiros, abrindo caminho para que interesses políticos externos possam sancionar, bloquear e punir à revelia do ordenamento jurídico brasileiro.
Se o Pix — infraestrutura pública, transparente, com supervisão do Banco Central e do Congresso Nacional — fosse substituído pelo Zelle — sistema privado controlado por um cartel de bancos americanos, sem mecanismos eficazes de proteção ao consumidor e alvo de ações judiciais por fraudes massivas —, o governo dos EUA e as instituições financeiras norte-americanas passariam a deter um controle gigantesco sobre as transações financeiras realizadas por brasileiros. Seriam capazes de monitorar, bloquear ou rastrear pagamentos, transferências e movimentações de recursos com base em critérios definidos unilateralmente. Esse controle, combinado com a disponibilidade de informações produzidas por agências americanas (como Eduardo Bolsonaro mesmo admitiu), criaria as condições ideais para que a Lei Magnitsky fosse aplicada seletivamente contra qualquer cidadão ou autoridade brasileira que desagradasse ao governo de turno nos EUA ou à ala bolsonarista.
Não por acaso, Eduardo Bolsonaro declarou em abril de 2026 que “uma mudança de cenário político poderia levar à reativação dessas medidas [da Lei Magnitsky] de forma rápida” e que “o Brasil corre o risco de não ter uma eleição reconhecida pelos Estados Unidos”. A ameaça é explícita: ou o Brasil alinha sua política comercial e digital aos interesses dos EUA — abrindo mão de sua infraestrutura pública de pagamentos e submetendo-se a uma lógica de vigilância estrangeira —, ou sofre retaliações econômicas e políticas.
IV. A reação do governo brasileiro e o custo da subserviência
As declarações de Eduardo Bolsonaro provocaram reações imediatas no arco governista. O deputado Lindbergh Farias (PT-RJ) classificou a proposta de substituir o Pix pelo Zelle como “entreguista”, afirmando que “Eduardo Bolsonaro confessa que quer entregar nosso Pix público e gratuito, operado pelo nosso Banco Central, aos americanos. Nós não vamos permitir”. A ex-ministra Gleisi Hoffmann (PT-PR), atual deputada federal, declarou ser “nojento ver a disposição dos Bolsonaros de servir os interesses americanos”, lembrando que o Pix é “uma infraestrutura pública brasileira, criada e regulamentada pelo Banco Central do Brasil”, enquanto o Zelle é “um sistema privado, operado por bancos americanos, que cobra taxas”.
Diante da repercussão negativa, Eduardo Bolsonaro recuou publicamente. Gravou um vídeo nas redes sociais em que afirmou: “Eu absolutamente jamais disse isso [que o Pix deveria ser substituído pelo Zelle]. Eu desafio o Globo a calar minha boca e mostrar um vídeo onde eu tenha dito porventura algo nesse sentido”. Na mesma publicação, declarou que o Pix “foi criado por Jair Messias Bolsonaro, sem taxas, e assim continuará sendo” — uma afirmação factualmente incorreta, pois o Pix foi concebido no governo Michel Temer, lançado em fevereiro de 2020 e entrou em operação em novembro daquele ano, durante o governo Jair Bolsonaro, sem que este tenha participado de sua formulação técnica.
V. Lições e alertas: o que o episódio revela sobre o projeto político de Eduardo Bolsonaro
O conjunto de ações e declarações de Eduardo Bolsonaro nos últimos meses revela um projeto político que pode ser sintetizado nos seguintes pontos:
O episódio não pode ser tratado como mais uma polêmica passageira de redes sociais. O que está em discussão é o modelo de soberania financeira e tecnológica que o Brasil pretende adotar nas próximas décadas. O Pix, hoje utilizado por 170 milhões de pessoas físicas, representa uma conquista concreta de inclusão financeira e redução de desigualdades. Submetê-lo a interesses privados estrangeiros, seja por substituição direta, seja por concessões regulatórias que o enfraqueçam, é um retrocesso civilizatório. Ceder dados e informações de cidadãos brasileiros a agências americanas como condição para “evitar tarifas” ou “obter sanções contra adversários” é uma violação da soberania nacional que nenhum governo democrático deveria tolerar.
Cabe à sociedade brasileira, ao Congresso Nacional e ao Poder Judiciário avaliar com a devida gravidade as articulações de Eduardo Bolsonaro em território estrangeiro e suas consequências para a integridade institucional do país. O risco de que interesses externos passem a pautar decisões internas — da política cambial à composição do Supremo Tribunal Federal — é real e exige resposta à altura.
Com informações de G1, BBC News Brasil, Gazeta do Povo, Revista Fórum, SBT News, GP1, Tribunal de Contas da União, O Estado de S.Paulo, UOL Economia, Agência Brasil, Estado de Minas, O TEMPO, A TARDE, Brasil 247, Brasil de Fato, CBN, Rádio Itatiaia, BNews, Bahia Notícias, Poder360, Diário do Centro do Mundo e The Intercept Brasil.■