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Há exatos dez anos, um símbolo nacional começava a ser ferido de morte por dentro. O que nasceu como vestimenta de arquibancada, emoção compartilhada e vitórias históricas nos gramados foi sendo transformado, aos poucos, em um divisor de águas ideológico — uma espécie de farda não oficial da direita radical brasileira. O cenário era o processo de impeachment contra a então presidenta Dilma Rousseff, em 2016. A tática: vestir o verde e amarelo da seleção canarinho para reivindicar a saída de um governo democraticamente eleito. Agora, dez anos depois, a Justiça da Colômbia faz o que o Brasil jamais teve coragem ou estrutura para realizar: proíbe um candidato de extrema-direita de usar o uniforme da seleção nacional como instrumento de campanha eleitoral. A decisão é um libelo contra a manipulação dos símbolos e um eco sombrio do estrago que ficou pelo caminho.
O embrião do desastre: 2015-2016, a 'amarelinha' vai às ruas pelo impeachment
Entre o final de 2015 e meados de 2016, as principais capitais do país foram tomadas por uma enxurrada de verde e amarelo. Manifestantes vestiam a camisa da seleção brasileira, empunhavam bandeiras do Brasil e entoavam palavras de ordem pelo impeachment da presidenta. A cena se repetiu em Copacabana, na Esplanada dos Ministérios e em praças de todo o território nacional. O comércio de rua rapidamente percebeu o filão: as chamadas "butiques do impeachment" vendiam camisas da seleção por até R$ 30 ao lado de bonecos infláveis chamados "Pixuleco" e "Bandilma", este último com a presidente trajando uniforme listrado de presidiária. Em abril de 2016, na sessão histórica da Câmara que abriu o processo de impedimento, deputadas da oposição vestiram deliberadamente camisas amarelas e verdes, importando para o parlamento as cores das ruas. O dress code era inequívoco: o amarelo tornara-se a cor da oposição ao PT.
A estratégia Bolsonaro: do deputado coadjuvante ao líder do movimento
Na esteira dos protestos, um deputado federal até então pouco conhecido nacionalmente — Jair Bolsonaro (PP-RJ) — foi moldando sua futura campanha presidencial. Embora não tenha vestido a camisa amarela da seleção em todas as aparições, Bolsonaro adotou as cores da bandeira (verde, amarelo, azul e branco) como vestimenta padrão em seus atos. Nas manifestações de 2016, ele circulava entre os apoiadores sendo chamado de "futuro presidente", aproveitando o descontentamento popular para pavimentar sua chegada ao Planalto dois anos mais tarde. A partir de 2018, a camisa da seleção já era item obrigatório em seus comícios e nas manifestações de seus seguidores. O verde e amarelo, antes símbolo de união nacional, converteram-se em cartão de visitas de uma ultradireita emergente.
As consequências no Brasil: uma ferida aberta e não cicatrizada
O custo da manipulação foi alto. Na Copa do Mundo de 2018, na Rússia, a tradicional amarelinha sofreu uma queda histórica nas vendas. Lojistas e ambulantes relataram que a camisa azul, segundo uniforme, tornou-se a preferência dos torcedores — algo inédito na história do consumo de artigos esportivos no país. A resposta era direta: associada ao "golpe" contra Dilma e ao bolsonarismo, a camisa amarela passou a ser evitada por milhões de brasileiros. "Não dá para vestir a camisa da Seleção, que virou símbolo de uma massa de manobra comandada por golpistas", afirmou à época o escritor Marcelo Rubens Paiva. O sociólogo do futebol e professor da UERJ, Ronaldo Helal, resumiu a tragédia simbólica: "O uniforme da seleção ficou muito atrelado às manifestações de 2015 e 2016. Ele passou a significar uma adesão aos movimentos de quem se opunha aos governos do PT".
A tentativa frustrada de "dessequestro" e a omissão do TSE
Com a derrota de Bolsonaro nas eleições de 2022, setores da esquerda e da centro-esquerda passaram a articular uma reconquista simbólica da amarelinha. Surgiram camisas com o número 13 — em alusão ao Partido dos Trabalhadores — e iniciativas de usar o uniforme da seleção como símbolo de união nacional apartidária. No entanto, não houve qualquer resposta contundente das instituições. Em 2022, o Observatório de Transparência da Eleição chegou a solicitar ao Tribunal Superior Eleitoral (TSE) que proibisse mesários de usarem a camisa da seleção, sob o argumento de que o item havia se transformado em símbolo partidário. O pedido foi rejeitado. Diferentemente do que ocorreu na Colômbia, o Judiciário brasileiro jamais enfrentou abertamente a apropriação política de um dos maiores ícones da identidade nacional. A consequência foi um país dividido até mesmo na hora de vestir a própria seleção.
O precedente colombiano: uma decisão que expõe a falha brasileira
Na última quinta-feira (4), a juíza Aura Luz Forero, do 120º Tribunal Penal Municipal de Bogotá, deu uma resposta que o Brasil não soube dar. Determinou a "cessação imediata e definitiva" do uso da camisa da seleção colombiana como símbolo identificador da campanha do candidato ultradireitista Abelardo de la Espriella, em redes sociais, comícios e entrevistas. A magistrada afirmou que o uso político da vestimenta "compromete a neutralidade dos símbolos nacionais" e confere ao item "um símbolo diferente daquele para o qual foi criado e desenhado". O candidato colombiano, conhecido como "El Tigre", havia vencido o primeiro turno das eleições presidenciais com 43,7% dos votos justamente ao imitar a cartilha bolsonarista: vestir a camisa, pedir o voto dos apoiadores trajando o uniforme e cooptar o patriotismo como plataforma.
As diferenças gritantes entre os dois países
O contraste não poderia ser mais revelador:
Em outras palavras, a Colômbia conseguiu em menos de uma semana o que o Brasil não conseguiu em uma década: isolar a manipulação política de um símbolo que pertence a todos os cidadãos, independentemente de sua cor ideológica.
Por que a Colômbia agiu e o Brasil se omitiu?
A explicação tem múltiplas camadas:
A lição não aprendida
O que a Colômbia ensina ao Brasil é doloroso: a omissão tem preço. Ao não reagir institucionalmente em 2016, o país permitiu que um símbolo de união nacional se transformasse em fator de cisão. Hoje, a amarelinha é usada por eleitores de Lula com o número 13 estampado nas costas ou com patches de movimentos sociais justamente para não serem confundidos com o bolsonarismo. A polarização adentrou os estádios, as arquibancadas e até mesmo o vestuário básico dos torcedores. E enquanto isso, a Colômbia — com uma decisão corajosa e célere — mostra que é possível, sim, colocar limites na apropriação partidária dos símbolos nacionais. O Brasil, porém, parece condenado a conviver com a ferida que abriu sozinho.
Com informações de G1, Poder360, Folha de S.Paulo, O Globo, Veja, El País, CartaCapital, Gazeta do Povo, Instituto Lula, Metrópoles, A Tarde, UOL, Bloomberg Línea, Band, RBA, AFP ■