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O que o Brasil estragou, a Colômbia tenta salvar
Em meio à campanha presidencial na Colômbia, uma decisão judicial inédita expõe a ferida brasileira: a apropriação política da amarelinha, que começou nos protestos pelo impeachment de Dilma Rousseff e nunca foi devidamente enfrentada pelo sistema jurídico e político do país
Analise
Foto: https://ogimg.infoglobo.com.br/in/18866713-d88-69d/FT1086A/201603131512060927.jpg
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■   Bernardo Cahue, 05/06/2026

Há exatos dez anos, um símbolo nacional começava a ser ferido de morte por dentro. O que nasceu como vestimenta de arquibancada, emoção compartilhada e vitórias históricas nos gramados foi sendo transformado, aos poucos, em um divisor de águas ideológico — uma espécie de farda não oficial da direita radical brasileira. O cenário era o processo de impeachment contra a então presidenta Dilma Rousseff, em 2016. A tática: vestir o verde e amarelo da seleção canarinho para reivindicar a saída de um governo democraticamente eleito. Agora, dez anos depois, a Justiça da Colômbia faz o que o Brasil jamais teve coragem ou estrutura para realizar: proíbe um candidato de extrema-direita de usar o uniforme da seleção nacional como instrumento de campanha eleitoral. A decisão é um libelo contra a manipulação dos símbolos e um eco sombrio do estrago que ficou pelo caminho.

O embrião do desastre: 2015-2016, a 'amarelinha' vai às ruas pelo impeachment

Entre o final de 2015 e meados de 2016, as principais capitais do país foram tomadas por uma enxurrada de verde e amarelo. Manifestantes vestiam a camisa da seleção brasileira, empunhavam bandeiras do Brasil e entoavam palavras de ordem pelo impeachment da presidenta. A cena se repetiu em Copacabana, na Esplanada dos Ministérios e em praças de todo o território nacional. O comércio de rua rapidamente percebeu o filão: as chamadas "butiques do impeachment" vendiam camisas da seleção por até R$ 30 ao lado de bonecos infláveis chamados "Pixuleco" e "Bandilma", este último com a presidente trajando uniforme listrado de presidiária. Em abril de 2016, na sessão histórica da Câmara que abriu o processo de impedimento, deputadas da oposição vestiram deliberadamente camisas amarelas e verdes, importando para o parlamento as cores das ruas. O dress code era inequívoco: o amarelo tornara-se a cor da oposição ao PT.

A estratégia Bolsonaro: do deputado coadjuvante ao líder do movimento

Na esteira dos protestos, um deputado federal até então pouco conhecido nacionalmente — Jair Bolsonaro (PP-RJ) — foi moldando sua futura campanha presidencial. Embora não tenha vestido a camisa amarela da seleção em todas as aparições, Bolsonaro adotou as cores da bandeira (verde, amarelo, azul e branco) como vestimenta padrão em seus atos. Nas manifestações de 2016, ele circulava entre os apoiadores sendo chamado de "futuro presidente", aproveitando o descontentamento popular para pavimentar sua chegada ao Planalto dois anos mais tarde. A partir de 2018, a camisa da seleção já era item obrigatório em seus comícios e nas manifestações de seus seguidores. O verde e amarelo, antes símbolo de união nacional, converteram-se em cartão de visitas de uma ultradireita emergente.

As consequências no Brasil: uma ferida aberta e não cicatrizada

O custo da manipulação foi alto. Na Copa do Mundo de 2018, na Rússia, a tradicional amarelinha sofreu uma queda histórica nas vendas. Lojistas e ambulantes relataram que a camisa azul, segundo uniforme, tornou-se a preferência dos torcedores — algo inédito na história do consumo de artigos esportivos no país. A resposta era direta: associada ao "golpe" contra Dilma e ao bolsonarismo, a camisa amarela passou a ser evitada por milhões de brasileiros. "Não dá para vestir a camisa da Seleção, que virou símbolo de uma massa de manobra comandada por golpistas", afirmou à época o escritor Marcelo Rubens Paiva. O sociólogo do futebol e professor da UERJ, Ronaldo Helal, resumiu a tragédia simbólica: "O uniforme da seleção ficou muito atrelado às manifestações de 2015 e 2016. Ele passou a significar uma adesão aos movimentos de quem se opunha aos governos do PT".

A tentativa frustrada de "dessequestro" e a omissão do TSE

Com a derrota de Bolsonaro nas eleições de 2022, setores da esquerda e da centro-esquerda passaram a articular uma reconquista simbólica da amarelinha. Surgiram camisas com o número 13 — em alusão ao Partido dos Trabalhadores — e iniciativas de usar o uniforme da seleção como símbolo de união nacional apartidária. No entanto, não houve qualquer resposta contundente das instituições. Em 2022, o Observatório de Transparência da Eleição chegou a solicitar ao Tribunal Superior Eleitoral (TSE) que proibisse mesários de usarem a camisa da seleção, sob o argumento de que o item havia se transformado em símbolo partidário. O pedido foi rejeitado. Diferentemente do que ocorreu na Colômbia, o Judiciário brasileiro jamais enfrentou abertamente a apropriação política de um dos maiores ícones da identidade nacional. A consequência foi um país dividido até mesmo na hora de vestir a própria seleção.

O precedente colombiano: uma decisão que expõe a falha brasileira

Na última quinta-feira (4), a juíza Aura Luz Forero, do 120º Tribunal Penal Municipal de Bogotá, deu uma resposta que o Brasil não soube dar. Determinou a "cessação imediata e definitiva" do uso da camisa da seleção colombiana como símbolo identificador da campanha do candidato ultradireitista Abelardo de la Espriella, em redes sociais, comícios e entrevistas. A magistrada afirmou que o uso político da vestimenta "compromete a neutralidade dos símbolos nacionais" e confere ao item "um símbolo diferente daquele para o qual foi criado e desenhado". O candidato colombiano, conhecido como "El Tigre", havia vencido o primeiro turno das eleições presidenciais com 43,7% dos votos justamente ao imitar a cartilha bolsonarista: vestir a camisa, pedir o voto dos apoiadores trajando o uniforme e cooptar o patriotismo como plataforma.

As diferenças gritantes entre os dois países

O contraste não poderia ser mais revelador:

  • No Brasil: o uso político da camisa da seleção — consolidado em 2016, repetido em 2018, 2020 e 2022 — nunca foi alvo de uma decisão judicial ou administrativa proibitiva. O TSE, o Ministério Público e a própria CBF mantiveram-se em silêncio ou agiram de maneira tímida. O resultado foi o sequestro definitivo de um símbolo nacional por um campo político específico.
  • Na Colômbia: poucos dias após a estratégia ser posta em prática pela direita, um cidadão comum, Wilman Ramiro Bocanegra Calderón, recorreu à Justiça alegando sentir-se discriminado. A juíza Forero não hesitou: determinou a proibição imediata sob o fundamento de que "a neutralidade das campanhas políticas deve ser resguardada em relação ao uso de qualquer símbolo nacional".

Em outras palavras, a Colômbia conseguiu em menos de uma semana o que o Brasil não conseguiu em uma década: isolar a manipulação política de um símbolo que pertence a todos os cidadãos, independentemente de sua cor ideológica.

Por que a Colômbia agiu e o Brasil se omitiu?

A explicação tem múltiplas camadas:

  • Judicialização da política no Brasil: desde a Operação Lava Jato, o Supremo Tribunal Federal e demais tribunais superiores estiveram frequentemente envolvidos em questões penalistas e de direito administrativo, mas raramente atuaram para disciplinar o uso dos símbolos nacionais no processo eleitoral. A exceção foram disputas pontuais sobre o uso da bandeira e do hino, mas a camisa da seleção — por sua natureza híbrida (esportiva e simbólica) — sempre escapou à regulação..
  • Força do vínculo futebolístico no Brasil: a amarelinha é, para milhões de brasileiros, um objeto quase sagrado, ligado a conquistas esportivas e à autoestima nacional. Qualquer tentativa de restrição poderia ser interpretada como censura e geraria reações adversas entre torcedores. Já na Colômbia, a relação com o futebol — embora intensa — não atingiu o mesmo grau de capilaridade afetiva, o que facilitou o enfrentamento direto do Judiciário.
  • Momento da adoção da estratégia: enquanto Bolsonaro começou a utilizar a camisa gradualmente a partir de 2016, consolidando-a ao longo de quatro anos, Espriella — um político novato — adotou a camisa como principal símbolo de campanha de maneira abrupta e maciça às vésperas da Copa do Mundo, concentrando o ato de apropriação em poucos dias. Essa "concentração da agressão simbólica" tornou mais fácil para a Justiça colombiana identificar e coibir a prática..

A lição não aprendida

O que a Colômbia ensina ao Brasil é doloroso: a omissão tem preço. Ao não reagir institucionalmente em 2016, o país permitiu que um símbolo de união nacional se transformasse em fator de cisão. Hoje, a amarelinha é usada por eleitores de Lula com o número 13 estampado nas costas ou com patches de movimentos sociais justamente para não serem confundidos com o bolsonarismo. A polarização adentrou os estádios, as arquibancadas e até mesmo o vestuário básico dos torcedores. E enquanto isso, a Colômbia — com uma decisão corajosa e célere — mostra que é possível, sim, colocar limites na apropriação partidária dos símbolos nacionais. O Brasil, porém, parece condenado a conviver com a ferida que abriu sozinho.

Com informações de G1, Poder360, Folha de S.Paulo, O Globo, Veja, El País, CartaCapital, Gazeta do Povo, Instituto Lula, Metrópoles, A Tarde, UOL, Bloomberg Línea, Band, RBA, AFP ■

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