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Entre o insulto e a corte: a dupla estratégia de Lula diante do novo tarifaço de Trump
Ao atacar Marco Rubio e preservar Donald Trump, o presidente brasileiro tenta reduzir desgastes — mas expõe fragilidades e contradições da política externa
Analise
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■   Bernardo Cahue, 05/06/2026

A conclusão da investigação da Seção 301 pelo Escritório do Representante Comercial dos Estados Unidos (USTR), que propõe tarifas adicionais de 25% sobre produtos brasileiros, mergulhou o Palácio do Planalto em um dilema típico da arte da sobrevivência política: como enfrentar a maior economia do mundo sem queimar a ponte com seu principal líder?A resposta, evidenciada nas falas do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) em reunião ministerial nesta quarta-feira (3), é uma estratégia de dois pratos: criticar com dureza o secretário de Estado norte-americano, Marco Rubio, a quem chamou de “latino-americano frustrado” e “anti-América Latina”, enquanto poupa o presidente Donald Trump de qualquer ataque direto, mantendo canais abertos para negociação. A manobra, à primeira vista, costura um discurso de afirmação nacionalista para as bases petistas e, ao mesmo tempo, preserva o relacionamento institucional com a Casa Branca — mas analistas apontam riscos e contradições que tornam a aposta arriscada.

A resposta de Lula ao novo tarifaço é um reflexo de seu estilo de negociação internacional: enfrentamento retórico sem ruptura comercial. Em seus discursos, o petista foi enfático ao dizer que o Brasil “não pode aceitar o tratamento que os Estados Unidos deram ao Brasil nesta semana” e que o país “não será tratado como uma ‘republiqueta insignificante’”. Contudo, ao mesmo tempo, declarou que enviará uma nova carta a Trump e que buscará a reaproximação no G7, onde os dois presidentes devem se encontrar. “Vou mandar outra carta para o Trump para mostrar que eles estão errados, equivocados, estão induzindo o mundo a uma violência desnecessária”, afirmou Lula. O discurso revela um duplo movimento: esfriar a relação com o secretário de Estado e tentar um resgate direto com o chefe da Casa Branca.

  • Alvo preferencial: Marco Rubio — Em pelo menos três aparições públicas, Lula rotulou Rubio de “anti-América Latina”, “inimigo mortal de Cuba” e “latino-americano frustrado”. A estratégia explicita a tentativa de isolar o secretário como responsável pelas tarifas, enquanto Trump seria apenas um receptor de informações equivocadas.
  • Preservação de Trump — Lula evitou qualquer crítica direta ao presidente norte-americano, a quem chamou de forma respeitosa e com quem disse ter construído uma “nova lógica de relacionamento democrático”. O governo aposta que Trump pode reverter ou moderar as tarifas se convencido de que o Brasil não é o adversário.
  • Uso político das tarifas — O presidente também associou o tarifaço a supostas articulações do senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ) nos EUA, acusando a oposição de “trair a pátria” e de vender interesses nacionais. Ao transformar a disputa comercial em arma eleitoral, Lula tenta desviar o debate das fragilidades internas das negociações.

A cronologia do agravamento da crise ajuda a entender o tamanho do desafio. No início de maio, Lula reuniu-se com Trump na Casa Branca, e ambos concordaram em criar um grupo de trabalho bilateral para resolver os entraves comerciais em até 30 dias. Lula saiu do encontro “convencido” de que uma nova era de entendimento se iniciava. Menos de um mês depois, o governo norte-americano concluiu a investigação da Seção 301 e propôs uma tarifa de 25% sobre bens do país, além de uma sobretaxa adicional de 12,5% relacionada a supostas falhas no combate ao trabalho forçado. “Confesso a vocês que fui pego de surpresa”, admitiu Lula. A reviravolta expôs a fragilidade da aposta brasileira na boa vontade unilateral de Trump, que historicamente reconfigura políticas comerciais com base em critérios próprios e pouco previsíveis.

A proposta norte-americana não é simbólica. O USTR recomenda tarifas que podem atingir até US$ 8,4 bilhões em exportações brasileiras, o equivalente a cerca de 21% das vendas do Brasil para os EUA. As justificativas oficiais incluem críticas ao sistema de pagamentos instantâneos Pix — mencionado mais de 20 vezes no documento do USTR —, ao desmatamento ilegal, à pirataria, a decisões do STF que afetam empresas de tecnologia e à regulação de redes sociais. Além disso, o governo americano incluiu o Brasil na lista de países “não amigáveis”, ao lado de Cuba e Venezuela. O diagnóstico é claro: a insatisfação de Washington não é episódica, mas estrutural, e atinge desde políticas econômicas até decisões judiciais brasileiras.

A avaliação de analistas e economistas ouvidos pela imprensa é que a estratégia de Lula, embora politicamente inteligente no curto prazo, contém riscos significativos. Ao focar as críticas em Rubio e atribuir as tarifas a Flávio Bolsonaro, o governo cria uma narrativa interna de que o problema é “político-partidário” e não comercial. “Trata-se de uma narrativa que desloca o foco das críticas feitas pelos norte-americanos para a identidade de quem teria contribuído para levá-las ao conhecimento das autoridades dos EUA”, avaliou o analista André Marsiglia, em artigo no Poder360. “Governos estrangeiros não impõem medidas comerciais relevantes apenas porque um grupo político lhes pede. Medidas dessa natureza decorrem de interesses estratégicos, econômicos e institucionais próprios”. O risco, portanto, é que o diagnóstico equivocado leve a passos em falso nas negociações e impeça o Brasil de tratar das reais razões das tarifas: a insatisfação norte-americana com políticas brasileiras independentemente de quem esteja no poder.

O empresariado brasileiro também demonstra preocupação. Embora setores como agronegócio e indústria tenham sido inicialmente poupados — as exceções incluem carne, café, aeronaves e terras raras —, a incerteza sobre a extensão das tarifas e o endurecimento do tom criaram um ambiente de cautela. Executivos temem que a escalada retórica complique negociações que vinham sendo conduzidas pelo MDIC e pelo Itamaraty. “O otimismo havia aumentado após o encontro entre Lula e Trump, em maio. A reação do Palácio do Planalto à nova investida americana acendeu um sinal de alerta entre empresários”, reportou a Gazeta do Povo. Em outras palavras, a estratégia de Lula pode até agradar às bases do petismo, mas afasta o pragmatismo necessário para salvar bilhões em exportações.

  1. Falta de coordenação interministerial — Lula, na mesma reunião ministerial, reclamou da falta de comunicação entre ministérios e o Planalto e determinou que todos os anúncios e inaugurações passem pela Casa Civil. A queixa interna indica que o governo ainda não construiu um fluxo eficiente de resposta à ofensiva americana, o que compromete a agilidade das contra-medidas diplomáticas.
  2. Fragilidade do prazo de 30 dias — O acordo firmado com Trump em maio tinha prazo de 30 dias para resolver os entraves. No entanto, em vez de descompressão, Washington avançou com novas tarifas. Isso revela que o compromisso bilateral não foi honrado ou foi reinterpretado pela Casa Branca, deixando o Brasil em posição reativa e não proativa.
  3. Dependência da imagem de Trump — Ao concentrar expectativas na figura de Trump, Lula aposta em um líder conhecido por decisões unilaterais e voláteis. A história recente mostra que concessões de Trump dependem mais de percepções de reciprocidade imediata do que de acordos formais. Isso coloca o Brasil em situação de vulnerabilidade.

A resposta mais contundente de Lula — a promessa de que o Brasil não ficará “reclamando” e buscará “vender para quem quiser comprar” — ecoa como um discurso de independência econômica que, porém, enfrenta limites concretos. Os Estados Unidos são o segundo maior parceiro comercial do Brasil, e a China, embora tenha crescido como destino das exportações, não absorve toda a produção que seria afetada pelas tarifas. Em 2025, com o tarifaço anterior, as exportações brasileiras para os EUA caíram 6,6%, e o Brasil fechou o ano com um déficit de US$ 7,5 bilhões na balança comercial com os americanos. A reorientação de fluxos comerciais exige tempo, investimento e acordos que não se constroem da noite para o dia.

Além do aspecto econômico, há um fator subjacente que raramente é mencionado: o timing eleitoral. Tanto Lula quanto Trump estão em ciclos decisivos — o Brasil se aproxima das eleições presidenciais de outubro, e os EUA vivem uma pré-campanha intensa. Ao classificar o tarifaço como “interesses eleitorais” de adversários internos, Lula transforma uma questão comercial em combustível de campanha, arriscando endurecer ainda mais a retórica e tornar qualquer concessão futura uma derrota política. O próprio Rubio, ao afirmar que o Brasil “está no meio de um ciclo eleitoral” e por isso não pode ser tratado como aliado pleno, acenou para essa percepção.

Diante desse quadro, a estratégia de Lula — atacar Rubio, cortejar Trump e culpar a direita brasileira — é, ao mesmo tempo, engenhosa e frágil. Engenhosa porque consegue, por ora, preservar dois canais de comunicação: um de confronto com o secretário de Estado, outro de diálogo com o presidente dos EUA. Frágil porque a complexidade das razões invocadas por Washington — que vão do Pix à regulamentação de redes sociais, passando por decisões do Supremo — exige respostas substantivas, não apenas distribuição de culpas. Enquanto o governo brasileiro não apresentar uma contraproposta consistente sobre os temas de fundo, as tarifas avançarão independentemente de quem Lula escolher como vilão.

O prazo final para a definição das tarifas é 15 de julho de 2026, quando o USTR publicará o relatório definitivo. Até lá, o Brasil terá que decidir se mantém a aposta no discurso dual ou se reconhece que o xadrez diplomático exige mais do que palavras inflamadas e cartas protocolares. Como afirmou o próprio presidente: “Se eles não querem comprar, vamos vender para quem quiser comprar”. A frase, embora eloquente, carrega a dúvida sobre quantos compradores estarão dispostos a pagar o preço de um isolamento comercial voluntário.

Com informações de G1, UOL, Folha de S.Paulo, Agência Brasil, Valor Econômico, O Globo, Gazeta do Povo, Poder360, Veja, BBC Brasil, Brasil de Fato, O Poder ■

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