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Em meio à escalada das tensões comerciais entre Brasil e Estados Unidos, o ex-deputado federal Eduardo Bolsonaro (PL-SP) provocou forte reação ao sugerir, em entrevista ao canal TMC News na última quarta-feira (3), que o Brasil deveria considerar a substituição do Pix pelo sistema norte-americano de pagamentos instantâneos Zelle. A declaração foi interpretada por setores da política e da economia como um gesto de alinhamento automático aos interesses dos EUA e uma potencial ameaça à soberania financeira do país. A rápida repercussão negativa forçou o ex-parlamentar a recuar publicamente, afirmando que jamais defendeu a extinção do sistema brasileiro.
O que Eduardo Bolsonaro disse e o que está em jogo
Ao ser questionado sobre as críticas do governo Trump ao Pix, Eduardo Bolsonaro afirmou que os Estados Unidos contam com mecanismos semelhantes, citando o Zelle como "o Pix dos Estados Unidos". Ele sugeriu que a existência desse sistema poderia servir como argumento em negociações com os americanos para aliviar as pressões tarifárias. A fala foi registrada em vídeo e rapidamente disseminada nas redes sociais. A declaração provocou reações imediatas de líderes do governo Lula. O deputado Lindbergh Farias (PT-RJ) classificou a proposta como "entreguista", enquanto a ex-ministra Gleisi Hoffmann (PT-PR) afirmou que o Brasil não irá "ceder o Pix para empresas americanas". Diante da enxurrada de críticas, Eduardo Bolsonaro publicou nas redes sociais que "Jamais substituiria o Pix" e afirmou que o sistema foi criado pelo seu pai, o ex-presidente Jair Bolsonaro, "sem taxas, e assim deve permanecer".
Pix vs. Zelle: diferenças que importam
Embora ambos permitam transferências digitais rápidas, as diferenças estruturais entre os dois sistemas são profundas. O Pix é uma infraestrutura pública, criada e regulada pelo Banco Central do Brasil em 2020. É gratuito para pessoas físicas, funciona 24 horas por dia, tem liquidação em segundos e é acessível a praticamente toda a população brasileira. Já o Zelle, criado em 2017, é uma rede privada administrada pela Early Warning Services, empresa controlada por um consórcio dos maiores bancos dos EUA, como JPMorgan Chase, Bank of America e Wells Fargo. Seu alcance é restrito a essas instituições e não cobre todo o território americano; além disso, a compensação financeira pode levar horas ou até dias para ser concluída. O Zelle também não foi concebido para o mesmo volume de transações comerciais que o Pix suporta no Brasil.
Riscos à soberania e dependência externa
Especialistas ouvidos pela imprensa apontam que a proposta vai além de uma simples troca tecnológica. A cientista política Isabela Rocha, presidente do Fórum para Tecnologia Estratégica dos Brics+, alertou que substituir o Pix por uma solução privada e estrangeira significa abrir mão da soberania nacional. "Negociar para que deixe de existir um Pix significa colocar informações estratégicas sobre toda a nossa população na mão de infraestruturas estrangeiras e, pior, na mão de bancos estrangeiros", analisou a pesquisadora. A declaração de Eduardo Bolsonaro ocorre em um contexto sensível: o governo Trump ameaça impor tarifas de 25% sobre produtos brasileiros, e o documento oficial do USTR (Escritório do Representante de Comércio dos EUA) critica o Pix por supostamente criar uma "concorrência desleal" ao favorecer o sistema público brasileiro em detrimento de empresas americanas de pagamento eletrônico.
Implicações políticas e o futuro do Pix
O episódio acirrou o debate político em pleno período pré-eleitoral. O presidente Lula tem usado o argumento de que os EUA e a família Bolsonaro seriam contra o Pix, enquanto o senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ) tenta associar a criação do sistema ao governo do seu pai, o ex-presidente Jair Bolsonaro, embora o projeto tenha sido iniciado ainda no governo Michel Temer (MDB), em 2018. Enquanto isso, o governo brasileiro busca ampliar o diálogo diplomático para esclarecer pontos relacionados ao sistema de pagamentos e evitar a imposição de tarifas. A fala de Eduardo Bolsonaro, mesmo após seu recuo, serve como um alerta sobre os riscos de se colocar em xeque uma das mais bem-sucedidas políticas de inclusão financeira e soberania tecnológica já implementadas no Brasil.
Com informações de O Estado de S.Paulo, BBC News Brasil, UOL Economia, Agência Brasil, Estado de Minas, O TEMPO, A TARDE, Brasil 247, Brasil de Fato, CBN, Rádio Itatiaia, BNews, Bahia Notícias, Gazeta do Povo e Poder360 ■