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Lula enfrenta tarifaço dos EUA com postura enérgica e discurso de soberania
Lula adota linha de enfrentamento e afirma que o Brasil "não pode aceitar" o tratamento dos EUA, enquanto o governo articula respostas diplomáticas e econômicas para conter o avanço das barreiras americanas
Politica
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■   Bernardo Cahue, 05/06/2026

O presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) reagiu com postura enérgica e discurso de enfrentamento à nova escalada protecionista do governo dos Estados Unidos, que propôs a aplicação de tarifas adicionais de 25% sobre produtos brasileiros, com possibilidade de elevação a 37,5% quando somada a uma segunda sobretaxa de 12,5%. Em tom altivo, o mandatário brasileiro afirmou que o Brasil "não pode aceitar" o tratamento dispensado pela administração de Donald Trump e cobrou explicações do presidente americano, a quem disse estar "esperando um telefonema".

Em discurso em Catalão (GO), Lula resgatou uma de suas marcas retóricas para demonstrar altivez diante das pressões externas. "Não adianta o Trump ficar gritando de lá, porque eu aprendi a não ter medo de cara feia", declarou o presidente, ecoando a frase que já havia utilizado em março de 2025, durante as primeiras negociações tarifárias. A declaração sintetiza a disposição do Planalto em não recuar diante das ameaças unilaterais e serviu como pano de fundo para uma reação orquestrada em múltiplas frentes: diplomática, retórica e comercial.

A resposta do governo brasileiro foi imediata e contundente. Em nota oficial, o Palácio do Planalto classificou a proposta do Escritório do Representante de Comércio dos EUA (USTR) como "injustificável" e "contaminada por interesses políticos e eleitorais", fazendo clara referência à atuação da família Bolsonaro em Washington. Lula não poupou críticas aos adversários domésticos, chamando os filhos do ex-presidente Jair Bolsonaro de "vendilhões e traidores da pátria" por supostamente atuarem contra os interesses nacionais. O governo também ressaltou que a investigação comercial que deu origem às tarifas foi aberta em 2025 a partir de "provocações" de bolsonaristas e que os EUA acumularam superávit de 424,5 bilhões de dólares com o Brasil nos últimos 15 anos, o que desmontaria a tese de práticas desleais brasileiras.

Nos bastidores, a articulação segue intensa. Os principais pontos de atrito levantados pelos EUA incluem:

  • O sistema de pagamentos instantâneos Pix, acusado de privilegiar concorrentes locais;
  • Supostas falhas no combate ao desmatamento ilegal;
  • Acesso ao mercado de etanol;
  • Proteção à propriedade intelectual;
  • Acordos preferenciais do Brasil com México e Índia.

Diante do impasse, o presidente Lula já sinalizou a intenção de buscar alternativas para conter o avanço das barreiras americanas, com ênfase na diversificação de parceiros comerciais, estratégia utilizada com sucesso no tarifaço anterior. "Se você não quer comprar de mim, pode ficar com suas coisas, eu vou vender para outro", afirmou o mandatário, mencionando a recente abertura do mercado chinês para a carne bovina brasileira como prova de que é possível ampliar horizontes sem depender unilateralmente dos EUA.

O governo avalia ainda a possibilidade de utilizar a Lei de Reciprocidade, aprovada pelo Congresso Nacional, para fazer frente a medidas consideradas injustas contra o Estado brasileiro. A retaliação em áreas sensíveis para os americanos, como propriedade intelectual, está entre as opções em estudo.

A reação de Lula também repercutiu positivamente entre analistas políticos, que apontam uma possível recuperação de popularidade do presidente em meio à crise diplomática. Em artigo da BBC News Brasil, especialistas avaliam que o "tarifaço" deu fôlego político a Lula, que tem se beneficiado do discurso de defesa da soberania nacional frente à ofensiva americana.

O presidente ainda conta com o respaldo das cifras comerciais para embasar sua posição. Dados do governo brasileiro indicam que, no ano passado, 76% das importações originárias dos Estados Unidos entraram no Brasil sem pagar imposto de importação, e oito dos dez principais produtos importados dos EUA tiveram tarifa efetiva zero. Com base nesses números, Lula afirmou que, do ponto de vista do saldo comercial, "quem tinha que aumentar a taxação seríamos nós, não eles".

A expectativa agora recai sobre os próximos passos da negociação. O governo brasileiro mantém canais de diálogo abertos com Washington, mas não hesitará em adotar medidas proporcionais caso as tarifas sejam de fato implementadas. O chanceler Mauro Vieira já debateu o tema com o representante comercial americano Jamieson Greer durante reunião da OCDE na França, e as conversas devem prosseguir até o prazo final de 15 de julho, estabelecido pela legislação americana.

O episódio consolida a imagem de um presidente que, mais uma vez, elege o enfrentamento como resposta às pressões externas — e que não teme cobrar reciprocidade e respeito nas relações diplomáticas, reafirmando a autonomia do Brasil no cenário internacional.

Com informações de BBC News Brasil, G1, Folha de S.Paulo, O Globo, Estadão, UOL Economia, Brasil de Fato, Congresso em Foco, Carta Capital, InfoMoney, Poder360, Diário do Poder, Valor Econômico, Agência Brasil, Veja ■

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