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Quem é marionete de quem?
Entre a submissão, a estratégia eleitoral e a ideologia nacionalista norte-americana, os irmãos Bolsonaro surfam entre impotência, fidelidade do eleitorado, rejeição e as fake news; objetivo final, já atingido, agora precisa ser acobertado
Analise
Foto: https://local21news.com/resources/media/c354c789-1365-42e1-8aed-cbc6ad1277ad-jumbo16x9_trumppuppet.JPG?1573223237260
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■   Bernardo Cahue, 04/06/2026

A pergunta que ecoa nos círculos diplomáticos e nas redações é incômoda: os irmãos Flávio e Eduardo Bolsonaro seriam apenas marionetes de uma agenda de colonização norte-americana, ou eles se tornaram os puppeteers — os mestres de marionetes — usando a extrema direita dos EUA como escada para seus próprios intentos de lesa-pátria? A teia de fake news, desinformação e tráfico de influência revelada nos últimos meses aponta para uma resposta mais sinistra: o movimento é orquestrado para dentro, mas financiado por um esquema bilionário que sangra os cofres públicos brasileiros.

O jogo duplo de Eduardo Bolsonaro

Instalado nos Estados Unidos desde fevereiro de 2025, o ex-deputado Eduardo Bolsonaro adotou o discurso de que sua missão era "libertar presos políticos" e impedir uma "perseguição" ao pai. No entanto, sua atuação ultrapassou os limites da consultoria informal. Ele foi flagrado espalhando desinformação em série, como a fake news de que o The New York Times teria noticiado uma investigação de Trump contra ele — fato prontamente desmentido pelo jornal. Mais grave, sua tentativa de impor sanções a autoridades brasileiras, como o ministro Alexandre de Moraes, naufragou quando o governo Trump removeu o magistrado da lista da Lei Magnitsky, para o "pesar" confessado por Eduardo.

Entretanto, a cortina de fumaça ideológica esconde um crime de colarinho branco. Investigações da Polícia Federal (PF) e reportagens do The Intercept Brasil revelaram que o fundo Havengate Development Fund LP, sediado no Texas (mesmo estado onde Eduardo reside), é o centro de uma teia de lavagem de dinheiro. O fundo recebeu US$ 10,6 milhões (cerca de R$ 61 milhões) pagos pelo banqueiro Daniel Vorcaro, dono do Banco Master, a pedido do senador Flávio Bolsonaro. Documentos mostram que, ao contrário do que alega, Eduardo atuou como produtor-executivo do filme "Dark Horse" (cinebiografia do pai), com poder de gestão e decisão sobre os recursos. A suspeita da PF é que parte desse dinheiro tenha sido desviada para bancar a vida luxuosa de Eduardo nos EUA. Ou seja, enquanto o parlamentar tecia articulações para prejudicar o Brasil, ele era sustentado por recursos públicos desviados do Estado do Rio de Janeiro, canalizados por meio de uma empresa fantasma em Delaware.

Flávio Bolsonaro: o fantasma da rachadinha e a prisão iminente

Enquanto o irmão atua no exterior, Flávio Bolsonaro (PL-RJ) é pré-candidato à Presidência, mas carrega um peso processual que pode inviabilizar seu sonho. O senador foi denunciado por integrar uma organização criminosa que desviou R$ 6 milhões da Assembleia Legislativa do Rio de Janeiro (Alerj) por meio do esquema de "rachadinhas" — prática em que assessores devolviam parte de seus salários ao chefe do gabinete.

Embora o STF tenha anulado provas por vícios processuais, o caso deixou uma série de perguntas sem resposta, especialmente sobre a origem do dinheiro vivo utilizado pelo senador para comprar imóveis. A situação jurídica de Flávio é delicada: sem o foro privilegiado que lhe garante o cargo de senador, ele seria julgado em primeira instância no Rio de Janeiro, onde há forte risco de prisão preventiva já em uma eventual condenação. Esse cenário explica sua pressa em tentar se desvincular do foro para concorrer ao Planalto, mas a dependência da proteção jurídica o mantém refém do cargo. Especialistas apontam que Flávio está "preso ao mandato", pois qualquer renúncia poderia abrir caminho para a execução penal.

O escândalo do Banco Master e a empresa fantasma em Delaware

O escândalo do Banco Master é considerado a maior fraude financeira da história do Brasil. O banco, controlado por Daniel Vorcaro, movimentou um esquema de pirâmide que resultou em prejuízos de mais de R$ 47 bilhões. No cerne da investigação está o desvio de aportes de dinheiro público, especialmente do Estado do Rio de Janeiro, por meio do RioPrevidência (fundo de previdência dos servidores fluminenses) e do BRB (Banco de Brasília), que investiram bilhões no banco falido.

O fluxo do dinheiro público para a família Bolsonaro se deu via uma complexa rede internacional. Vorcaro, a pedido de Flávio, enviou milhões para o fundo Havengate, sediado no Texas. Para isso, utilizou uma empresa fantasma registrada em Delaware (paraíso fiscal nos EUA), que serviu como intermediária para ocultar a origem ilícita dos recursos. A empresa é liderada por Antônio Carlos Freixo Júnior, o "Mineiro", alvo da Operação Compliance Zero. Ou seja, o dinheiro dos contribuintes brasileiros, que deveria financiar a previdência e o desenvolvimento, foi desviado para sustentar a máquina de propaganda e a vida luxuosa da família Bolsonaro nos Estados Unidos.

A cortina de fumaça perfeita

A estratégia de Flávio e Eduardo é clara: enquanto produzem um ruído ensurdecedor com fake news sobre supostas perseguições e pedem sanções dos EUA contra o Brasil, desviam o foco da imprensa e da opinião pública dos escândalos que realmente sangram os cofres nacionais. A narrativa de "guerra cultural contra o comunismo" vendida por Eduardo em Washington serve como cortina de fumaça para esconder o Havengate, o desvio bilionário do Banco Master e a iminente prisão do irmão. No front doméstico, a imprensa alimenta a candidatura de Flávio como se ele fosse um "outsider", quando, na prática, sua sobrevivência política depende da manutenção do foro privilegiado. Qualquer movimento para abrir mão do mandato significa risco de ser preso em primeira instância no Rio de Janeiro pelo processo das rachadinhas.

O perigo da reclassificação das facções

No centro desse tabuleiro geopolítico, uma jogada de Eduardo Bolsonaro pode ter consequências dramáticas para a soberania nacional. Em reunião com Donald Trump na Casa Branca, o ex-deputado afirmou ter pedido ao presidente americano que classificasse facções criminosas brasileiras como organizações terroristas. O pedido, que atende a uma pauta conservadora de "linha dura", esbarra em riscos severos. O promotor Lincoln Gakiya, especialista em crime organizado, alertou que a classificação como terrorista abriria flanco para operações militares da CIA ou forças especiais americanas em território brasileiro, sob o pretexto de combater ameaças à segurança dos EUA. Essa interferência externa, manifestada por pressão econômica e enquadramentos narrativos, transforma a segurança pública brasileira em moeda de barganha eleitoral.

Conclusão: Quem é marionete de quem?

Diante dos fatos, a hipótese de que os Bolsonaro são meras marionetes dos EUA se desfaz. Flávio e Eduardo demonstram uma capacidade ativa de articulação e manipulação da máquina estatal. Eles não são instrumentos passivos de Washington; ao contrário, usam a relação com Trump, Rubio e o secretário de Estado para tentar legitimar suas pautas domésticas, desviar recursos e se proteger da justiça. Os objetivos mais atingidos com essa dinâmica são exclusivamente dos Bolsonaro: Eduardo garante financiamento e estabilidade nos EUA enquanto Flávio usa o foro privilegiado como escudo. As medidas de pressão dos EUA — como a reclassificação das facções —, no entanto, ainda se mantêm sob tratativas diplomáticas e ameaçam a soberania nacional, revelando que, neste jogo de interesses, o Brasil é o maior perdedor.

Com informações de Agência Brasil, BBC News Brasil, The Intercept Brasil, Folha de S.Paulo, Estadão, G1, CNN Brasil, Agência Pública, The Conversation, Jornal O Sul, Diário do Centro do Mundo, TV Pampa, Poder360 e Revista Fórum ■

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