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Datafolha e a anti-campanha a Flávio Bolsonaro
Instituto de pesquisa é acusado de viés após divulgar números negativos para o senador em meio a escândalos financeiros; especialistas apontam método questionável e timing suspeito
Analise
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■   Bernardo Cahue, 23/05/2026

A mais nova rodada de pesquisas do Datafolha sobre a corrida ao governo de São Paulo escancara o que analistas críticos já apontavam há meses: a instituição não está apenas medindo a intenção de voto, mas ativamente construindo uma narrativa de desconstrução da candidatura de Flávio Bolsonaro (PL). Os números divulgados nos últimos dias — que mostram 48% dos entrevistados defendendo que o senador abra mão da candidatura, 46% de rejeição, além de uma derrota no segundo turno para Lula (47% a 43%) e vantagem ampliada para o petista já no primeiro turno — surgem em um momento politicamente estratégico: logo após o estouro dos escândalos envolvendo o Banco Master, a gestora Dark Horse e o rombo da Rioprevidência.

O que o Datafolha vende como “termômetro da opinião pública” carrega, na visão de críticos, todas as marcas de uma campanha orquestrada contra o bolsonarismo. Vejamos os dados crus:

  • 48% defendem que Flávio desista – um número que ecoa, com poucas variações, a mesma parcela da população que sempre rejeitou o clã Bolsonaro, mas que agora é apresentada como uma “novidade” pós-escândalo.
  • 46% de rejeição – índice que, se comparado a outros políticos com denúncias semelhantes, não apresenta salto significativo, mas foi alçado a manchete principal.
  • Lula 47% x Flávio 43% no 2º turno – margem dentro da margem de erro (geralmente 2 a 3 pontos percentuais), mas tratada pelo instituto como “vitória consolidada”.
  • Lula amplia vantagem no 1º turno – o único dado que mostraria uma tendência real, mas sem a divulgação completa das pesquisas anteriores que permitam comparar metodologia.

A primeira garra do Datafolha está no timing. As pesquisas foram a campo exatamente na semana seguinte à explosão da reportagem que ligava o Banco Master e a Dark Horse a operações suspeitas na Rioprevidência – estatal de previdência dos servidores do Rio. Não há qualquer problema técnico em fazer perguntas nesse período. O que chama a atenção é a ausência de simetria: enquanto Flávio Bolsonaro é bombardeado com questões sobre o escândalo (ainda sem condenação formal), nenhum outro potencial adversário foi submetido ao mesmo crivo sobre seus próprios escândalos ou ligações com o sistema financeiro.

A segunda garra está na construção das perguntas. O Datafolha não divulga o questionário completo em primeira mão, mas pelo histórico do instituto, sabe-se que perguntas como “Flávio Bolsonaro deveria abrir mão da candidatura?” vêm precedidas de blocos negativos sobre as denúncias. Isso induz o entrevistado a uma resposta de rejeição imediata. Pesquisas sérias de opinião pública separam os blocos de informação factual dos blocos de juízo de valor – algo que o Datafolha, muitas vezes, ignora quando o alvo é da família Bolsonaro.

Além disso, a amostragem merece lupa. O Datafolha tradicionalmente entrevista eleitores com maior acesso a veículos de imprensa tradicionais – os mesmos que, nos últimos meses, protagonizaram uma cobertura francamente negativa sobre o Banco Master. Em regiões periféricas e entre eleitores de baixa renda (onde Flávio Bolsonaro ainda tem capilaridade), a rejeição costuma ser menor. A pesquisa não detalha, de forma transparente, a ponderação por região e classe social, o que pode superdimensionar o sentimento anti-Bolsonaro.

Outro ponto cego: o Datafolha ignora deliberadamente o efeito Lula. No cenário de segundo turno, Lula aparece com 47% – um número baixo para quem deveria estar “comemorando” o escândalo do adversário. Se a rejeição a Flávio fosse tão avassaladora quanto o instituto tenta vender, Lula estaria com mais de 55%. O dado sugere que o próprio Lula sofre com desgastes, mas o Datafolha opta por soterrar essa informação em análises rasas que focam apenas nos números negativos do bolsonarista.

Historicamente, o Datafolha já foi contestado por vieses em diversas eleições. Em 2018, por exemplo, subestimou consistentemente o voto em Jair Bolsonaro até a véspera do primeiro turno. Em 2022, novamente errou por margens superiores à margem de erro em Estados-chave. A relação do instituto com a Folha de S.Paulo – empresa que o controla e que tem linha editorial declaradamente antipetista e antibolsonarista, mas de forma assimétrica – sempre levantou suspeitas. No caso Flávio, a suspeita agora é de uso eleitoral da pesquisa para justificar um eventual “não apoio” do establishment político ao senador.

Importante destacar: Flávio Bolsonaro responde a investigações sobre o caso das “rachadinhas” quando era deputado estadual no Rio, e o novo escândalo do Banco Master/Dark Horse/Rioprevidência ainda não teve ligação direta comprovada com ele. A reportagem original citou o nome do senador de forma lateral, sem provas robustas. No entanto, o Datafolha entrou em campo como se a culpabilidade já estivesse julgada – eis a terceira garra: a presunção de condenação em suas perguntas e na análise dos resultados.

Analistas de metodologia de pesquisa apontam ainda que o percentual de 48% defendendo que Flávio desista pode ser lido de outra forma: 52% não defendem isso. Ou seja, a maioria dos eleitores ou é indiferente ou quer que ele continue na disputa. Porém, o Datafolha destaca apenas o primeiro número, criando uma falsa impressão de consenso. Esse tipo de enquadramento tendencioso (framing) é uma marca registrada da comunicação do instituto quando o alvo é de direita.

Diante desse quadro, cabem perguntas que o jornalismo corporativo evita fazer:

  1. Por que o Datafolha não encomendou ao mesmo tempo uma pesquisa sobre a rejeição de Tarcísio de Freitas (aliado de Flávio) ou de outros pré-candidatos do Centrão, também envolvidos em escândalos financeiros?
  2. Qual o critério para incluir a pergunta “deveria abrir mão” apenas para Flávio Bolsonaro e não para Lula (que responde a meia dúzia de processos na Lava Jato)?
  3. Por que a metodologia completa e o questionário integral não são divulgados com a mesma antecedência e clareza dos números de voto?

No campo político, a anti-campanha do Datafolha tem efeitos práticos. Candidatos com rejeição alta tendem a perder apoio financeiro de empresários e a sofrer deserções em suas próprias bases. Ao publicar esses números em sequência – primeiro a rejeição, depois a “desistência”, depois o placar contra Lula – o instituto cria uma espiral de silêncio: eleitores que ainda apoiam Flávio sentem-se pressionados a esconder seu voto, o que pode deprimir ainda mais a intenção real nas urnas.

Não se trata aqui de defender Flávio Bolsonaro ou negar que ele tem um problema grave de imagem. Trata-se de apontar a hipocrisia metodológica de um instituto que se vende como neutro mas age como ator político. O escândalo Banco Master / Dark Horse / Rioprevidência é grave e merece investigação. Merece também que o Datafolha meça seus efeitos com honestidade – sem transformar cada entrevista em um martelo de veredito antecipado.

A atuação do Datafolha nas últimas semanas evidencia o que analistas independentes chamam de “pesquisa de guerrilha”: não mais um retrato da realidade, mas um instrumento para moldá-la. A pergunta que fica é: até quando a imprensa brasileira vai tratar números dessa casa como evidência incontestável, ignorando as garras expostas por trás de cada percentual?

Esta análise crítica não tem por objetivo negar a importância da pesquisa eleitoral bem feita, mas sim demonstrar como, no caso específico da “anti-campanha a Flávio Bolsonaro”, o Datafolha abandonou o rigor técnico e abraçou o ativismo jornalístico sob a máscara da estatística.

Com informações de Datafolha ■

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