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A derrota de Jorge Messias para o Supremo Tribunal Federal (STF) foi, acima de tudo, uma ironia dos trópicos. Ao longo dos cinco meses que separaram o anúncio de sua indicação, em novembro de 2025, da sabatina final, em 29 de abril de 2026, Messias encarnou uma contradição. Por um lado, apresentava-se como "servo de Deus" e "totalmente contra o aborto" para atrair votos do segmento evangélico. Por outro, como o mais alto advogado do Executivo, foi o fiador da estratégia jurídica do governo para responsabilizar os ataques de 8 de Janeiro de 2023 — uma agenda frontalmente oposta ao discurso revisionista que ecoa nas alas mais radicais da oposição.
A estratégia de aceno à bancada evangélica era clara e, a princípio, bem articulada. O Planalto calculava contar com ao menos 44 votos favoráveis, incluindo os "silenciosos", especialmente da bancada evangélica cujos integrantes evitavam declarar apoio publicamente, mas que supostamente honrariam o compromisso na cabine de votação secreta. Além disso, nomes de peso desse segmento atuaram abertamente por ele, como a senadora Eliziane Gama (PT-MA), vinculada à Assembleia de Deus. Contudo, ao defender publicamente a laicidade do Estado e se limitar a citar as hipóteses restritas de aborto já previstas na lei (estupro, risco de vida para a mãe e anencefalia), Messias irritou exatamente a ala mais conservadora, que esperava um posicionamento mais firme contra qualquer flexibilização. Sua fala de que "juiz que coloca suas convicções religiosas acima da Constituição não é juiz" foi um balde de água fria na fé de quem o via como um trunfo moral na Corte.
O paradoxo se revelou completo. Ao tentar equilibrar dois pratos – a defesa da ordem democrática pós-8 de Janeiro e a conquista do voto evangélico –, Messias ficou sem chão. Sua atuação como advogado-geral da União (AGU) no processo sobre os ataques às sedes dos Três Poderes foi, talvez, o maior entrave para a sua aprovação. Durante a sabatina, Messias classificou os episódios de 8 de Janeiro como "dos mais tristes" de sua vida e defendeu seu trabalho, afirmando que a AGU apenas cumpriu o dever legal de preservar o patrimônio público. Ele repetiu à exaustão que seu órgão "não apresentou denúncia, não pediu condenação, não julgou e não definiu pena", tentando descolar a ação da AGU da Justiça Criminal.
No entanto, para a oposição bolsonarista, que liderou o movimento de rejeição, esse discurso foi em vão. Seus pedidos de prisão e seu comprometimento com a "defesa das instituições democráticas, especialmente o STF" foram interpretados como parte de uma "perseguição política" . A estratégia de Messias de se apresentar como um "legalista" e não como um "ativista" falhou porque, na percepção crítica, sua ação na AGU foi essencialmente política, e não técnica.
Os números finais da votação em plenário selaram o destino do AGU:
A análise fria dos números mostra um desastre articulado. Além de não ter atingido a maioria, Messias sequer alcançou a votação mínima obtida por outros indicados apertados, como Flávio Dino (47 votos em 2023) ou André Mendonça (47 votos em 2021). A falta de 7 votos simples mostra que o erro de cálculo não foi apenas matemático, mas analítico. Ele contava com o voto evangélico como um pilar, mas, no momento decisivo, o rebanho não se curvou ao pastor do Planalto.
Com informações de G1, BBC News Brasil, Folha de S.Paulo, CNN Brasil, O Globo, Poder360, UOL, InfoMoney, PlatôBR ■