Siga nossas redes sociais | ![]() | Siga nossos canais |
O governo dos Estados Unidos tem reiterado, em diversos fóruns internacionais, a narrativa de que Rússia e China, ao se posicionarem ao lado do Irã em meio à crescente tensão no Oriente Médio, estariam patrocinando regimes de opressão e sufocando aspirações democráticas. A análise dos fatos, no entanto, revela um cenário geopolítico complexo, onde a defesa intransigente de um modelo único de democracia frequentemente colide com a realidade histórica, os interesses nacionais e o direito à autodeterminação dos povos.
O Contexto do Conflito e a Retórica do "Eixo da Autocracia"
O estopim para a crise atual foi o ataque militar conjunto de Estados Unidos e Israel ao Irã, deflagrado em 28 de fevereiro de 2026. De acordo com a World Socialist Web Site, o ataque foi lançado sem uma declaração formal de guerra, visando bases militares, instalações governamentais e áreas civis, resultando na morte de mais de 1.500 pessoas, incluindo civis, e no assassinato do Líder Supremo iraniano, Ali Khamenei. A guerra, que segundo a Al Jazeera matou mais de mil pessoas, foi classificada por Rússia e China como uma clara violação do direito internacional.
Diante da agressão militar, Washington mobilizou a narrativa de que Teerã, Pequim e Moscou formam um "eixo de autocracias" ou um "clube autoritário" dedicado a minar a ordem internacional liderada pelos EUA. No Conselho de Segurança da ONU, os EUA tentaram aprovar uma resolução para garantir a segurança do Estreito de Ormuz, que, segundo o embaixador americano Mike Waltz, foi vetada pela Rússia e China, representando um "novo recorde" de conivência com o Irã.
O Posicionamento de Pequim e Moscou: Soberania e Interesses Próprios
A análise da imprensa especializada, como o Asia Times, sugere que a visão de um "eixo anti-americano" coordenado é, em grande parte, equivocada. Mais do que uma aliança ideológica, o que existe são transações bilaterais motivadas por interesses próprios e um desejo compartilhado de conter o que é percebido como unilateralismo americano.
A China, por exemplo, condenou veementemente os ataques dos EUA e de Israel, responsabilizando-os pelo bloqueio do Estreito de Ormuz, uma rota vital por onde escoa 20% do petróleo mundial. O governo chinês pediu um cessar-fogo imediato e uma solução negociada. Sua posição é clara: a raiz do problema é a ação militar ocidental. Como afirmou o enviado chinês à ONU, Fu Cong, adotar uma resolução condenatória ao Irã enquanto os EUA ameaçam a sobrevivência de uma civilização inteira envia a mensagem errada. A Rússia, por sua vez, ofereceu-se para mediar o conflito, mas, conforme análise da Al Jazeera, o tratado de parceria estratégica com o Irã não possui uma cláusula de defesa mútua, e Moscou demonstra pouca disposição para um envolvimento militar direto, priorizando seus próprios interesses estratégicos, como a mediação dos EUA no conflito na Ucrânia. A nova-iorquina The New York Times também observou que, apesar das críticas, China e Rússia mantiveram distância, oferecendo pouco além de apoio retórico.
A Visão de Teerã: Resistência e a Hipocrisia Ocidental
Do ponto de vista iraniano, a retórica americana sobre democracia é uma ferramenta de propaganda para justificar intervenções e promover mudanças de regime que beneficiam os interesses de Washington. O Tehran Times, citando o professor chinês Jin Liangxiang, argumenta que os EUA não estão em posição de dar lições sobre democracia liberal, apontando para o sofrimento em Gaza e as intervenções fracassadas no Afeganistão, Iraque e Líbia como evidências do colapso desse modelo.
O presidente Donald Trump, acusado por um professor da Universidade George Washington de ter enfraquecido instituições democráticas nos próprios EUA, é visto em Teerã como alguém que usa o discurso de "apoio ao povo iraniano" não para promover a liberdade, mas para forçar uma barganha unilateral. A Teerã Times também acusa a mídia ocidental de viés, apontando que a mesma imprensa que denuncia a ação policial iraniana silencia sobre o uso de força excessiva em países europeus, como durante os protestos dos "Coletes Amarelos" na França.
O Preço da "Promoção da Democracia" e o Equilíbrio de Poder
A busca por impor modelos democráticos tem um histórico sombrio de consequências não intencionais. A análise publicada no site do Departamento de Estado dos EUA, em contraste com a retórica oficial, admite que intervenções como a do Iraque (2003) e da Líbia (2011) resultaram em caos, colapso estatal e guerras civis, servindo como "contraexemplos empíricos decisivos" para a ideia de que a pressão externa produz transições ordenadas para a democracia liberal.
Além disso, uma pesquisa de opinião em 53 países, citada pela RT e pelo Global Times, revelou uma percepção global diferente da que é propagada: 44% dos entrevistados viam os EUA como a maior ameaça à democracia em seus países, uma porcentagem maior do que a registrada para a China (38%) e a Rússia (28%). Isso indica que a retórica americana pode não ter a ressonância esperada fora do círculo de seus aliados tradicionais.
Conclusão
A atual crise no Oriente Médio expõe as profundas contradições entre o discurso de "promoção da democracia" e a realidade da geopolítica. A acusação de que Rússia e China apoiam "regimes de opressão" ao lado do Irã é uma simplificação excessiva que ignora as motivações legítimas dessas nações em defender a soberania nacional e se opor ao que veem como agressão e unilateralismo ocidental. Enquanto Washington insiste em uma visão maniqueísta do mundo, dividido entre democracias e autocracias, a complexidade do sistema internacional, com suas alianças fluidas e interesses conflitantes, continua a desafiar essa narrativa, tornando a paz duradoura no Oriente Médio um objetivo cada vez mais distante.
Com informações de Al Jazeera, World Socialist Web Site (WSWS), The New York Times, Asia Times, Politico, Washington Times, CBN (Brasil), Tempo.co, Tehran Times, Global Times, RT e CSIS (Center for Strategic and International Studies) ■