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TACO – quando um trocadilho virou arma geopolítica
O que começou como uma piada interna de Wall Street sobre as oscilações tarifárias do presidente tornou-se o fenômeno cultural mais temido pela Casa Branca – e na guerra contra o Irã, o meme nunca esteve tão vivo
Analise
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■   Bernardo Cahue, 08/04/2026

Em meio a ameaças apocalípticas, prazos que se multiplicam e um vaivém diplomático que desafia a lógica, uma palavra de quatro letras tem assombrado Donald Trump mais do que qualquer míssil iraniano: TACO. A sigla que significa “Trump Always Chickens Out” (“Trump sempre amarela”) transformou-se no símbolo definitivo da crise no Golfo – e na prova de que, em 2026, uma guerra pode ser travada tanto com bombas quanto com memes.

O fenômeno, que começou como uma brincadeira entre investidores de Wall Street, evoluiu para um arsenal de guerra psicológica usado por adversários, aliados céticos e uma população mundial cansada da imprevisibilidade trumpista. E, neste momento, o TACO está mais vivo do que nunca.

Origens de um meme: quando o Financial Times inventou um acrônimo que fez história

O “TACO” nasceu em maio de 2025, nas páginas do jornal britânico Financial Times. O colunista Robert Armstrong procurava uma maneira rápida de descrever o que via como um padrão recorrente na gestão Trump: ameaças grandiosas seguidas de recuos igualmente grandiosos, especialmente quando os mercados financeiros reagiam mal. A receita era simples: Trump Always Chickens Out – TACO.

“A administração americana não tem uma tolerância muito alta para pressões econômicas e de mercado, e recua rapidamente quando as tarifas causam dor”, escreveu Armstrong, definindo o que chamou de “Teoria TACO”. A expressão rapidamente se espalhou por Wall Street, onde investidores passaram a falar em “TACO trade” – uma estratégia de comprar ativos após anúncios agressivos de Trump, apostando que a reversão viria em poucos dias.

Quando Trump descobriu o apelido, em maio de 2025, sua reação foi tão previsível quanto explosiva. “Eu amarelo? Eu nunca ouvi isso... nunca diga o que você disse, essa é uma pergunta nojenta”, esbravejou contra um jornalista que ousou mencionar o acrônimo. Nos bastidores, Trump teria repreendido sua equipe por não o ter alertado sobre o novo termo.

A migração do meme: das tarifas ao campo de batalha iraniano

Se o TACO era originalmente uma piada sobre guerras comerciais, a invasão ao Irã em fevereiro de 2026 deu ao meme um novo fôlego – e um palco global. A partir de 28 de fevereiro, com o fechamento do Estreito de Ormuz por Teerã e a subsequente escalada militar americana, o padrão TACO começou a se repetir com uma frequência quase coreografada.

A cronologia é implacável:

  • 21 de março: Trump dá 48 horas para o Irã reabrir o Estreito de Ormuz, ameaçando “obliterar” as usinas de energia iranianas.
  • 23 de março: Ele próprio estende o prazo para cinco dias, alegando conversas “produtivas” – que Teerã nega categoricamente. No mesmo dia, o termo TACO explode nas redes sociais, com hashtags e memes ironizando o recuo.
  • 26 de março: Nova prorrogação de dez dias, até 6 de abril, após ameaças de “apagar uma civilização inteira”.
  • 4 a 6 de abril: Uma sucessão de pequenos adiamentos, com Trump primeiro fixando um novo prazo de 48 horas e depois empurrando a data para 7 de abril.
  • 7 de abril: No último momento, após ameaçar que “uma civilização inteira morrerá esta noite”, Trump anuncia um cessar-fogo condicionado de duas semanas.

A reação online foi imediata e avassaladora. “Trump preserva sua reputação de TACO Tuesday. Por que alguém leva esse cara a sério? Bem, não estou convencido de que o Irã leve”, escreveu um usuário no X. Outro brincou: “Ainda bem que é terça-feira do TACO!”. E o editor-gerente do site de vigilância russa Meduza.io, Kevin Rothrock, resumiu o sentimento geral: “O melhor TACO Tuesday até agora”.

A guerra dos memes: como o Irã transformou o TACO em arma de propaganda

Mas o fenômeno TACO não se limitou ao público americano. Em uma das ironias mais pungentes da crise, o próprio Irã abraçou o meme e o transformou em instrumento de guerra psicológica contra Washington.

Em 23 de março, quando Trump anunciou a primeira pausa de cinco dias nos ataques, Teerã reagiu com uma enxurrada de memes. A embaixada iraniana na África do Sul postou uma imagem de um controle de videogame, ironizando a tentativa americana de controlar o estreito. Embaixadas no Tajiquistão e na Indonésia também entraram na dança, com vídeos satíricos mostrando aeronaves americanas sendo abatidas.

O porta-voz do Corpo da Guarda Revolucionária Islâmica, Ebrahim Zolfaghari, foi ainda mais longe. Em um discurso público em inglês, imitou o estilo característico de Trump: “Ei, Trump, você está demitido... Obrigado por sua atenção a este assunto” – uma referência direta à famosa frase do reality show “The Apprentice”, que Trump apresentou por anos.

Para analistas, a adoção do TACO pelo Irã representou um momento raro em que a guerra informacional se inverteu completamente. “A TACO (Trump Always Chickens Out) se espalha independentemente da orientação política. As pessoas compartilham porque é divertido primeiro, político depois”, observou a KMJournal.

O efeito desmoralizador: quando o próprio presidente se torna um personagem cômico

O que torna o TACO particularmente devastador para Trump é a forma como ele desmonta a persona pública que o presidente cultivou por décadas – a do negociador durão, implacável e imprevisível. Como observou o Christian Science Monitor, “com tarifas, ele ganhou a reputação de recuar em suas ameaças mais severas, gerando o meme TACO: ‘Trump Always Chickens Out’”.

A ironia é que Trump sempre se orgulhou de sua capacidade de manter os adversários desequilibrados. Em maio de 2025, quando confrontado sobre o TACO, ele insistiu que não estava recuando, mas sim “negociando”. Mas para investidores e analistas, o padrão era claro: Trump não tolera dor econômica por muito tempo.

No campo de batalha iraniano, essa reputação provou ser um passivo. A cada novo adiamento, a credibilidade de suas ameaças diminuía. A cada prazo não cumprido, o TACO ganhava mais força. A análise do HK01 foi direta: “Este é o motivo pelo qual Trump, mesmo depois de emitir um ultimato, acaba tendo que TACO, porque a repetida perda de controle e a escalada contínua podem resultar em caos que os Estados Unidos não podem suportar”.

Os sintomas físicos do TACO: erros de digitação e declarações confusas

Em um desenvolvimento quase cômico – se não fosse pelo contexto de uma guerra real –, a pressão do TACO começou a se manifestar em erros constrangedores nas comunicações oficiais da Casa Branca. Em 23 de março, Trump postou e rapidamente deletou uma mensagem na Truth Social contendo dois erros de digitação: “PLEASED” foi escrito como “PLEASE”, e “WHICH” tornou-se “WITCH” (bruxa).

A mídia chinesa, em uma análise intitulada “Novamente TACO? Mídia americana descobre: homem de 79 anos em pânico, declaração de concessão cheia de erros”, destacou o episódio como evidência do desgaste psicológico do presidente.

O TACO como fenômeno global: da China à Rússia, um meme sem fronteiras

Uma das características mais notáveis do fenômeno TACO é sua capacidade de transcender fronteiras geopolíticas. Na China, o termo tornou-se parte do vocabulário político informal. O site Guancha.cn publicou uma análise intitulada “Chen Feng: A Guerra do Irã chegou ao momento TACO, mas Trump quer fugir e não consegue”. A mídia estatal chinesa tem usado o meme para ilustrar o que considera uma inconsistência fundamental na política externa americana.

Na Rússia, a cobertura do TACO tem sido igualmente entusiástica. O Meduza.io, um dos principais sites de notícias independentes do país, não apenas cobriu o fenômeno, mas participou ativamente da zombaria.

Até mesmo no Brasil, o TACO ganhou força. A BBC News Brasil documentou como o termo se tornou um dos mais usados por brasileiros nas redes sociais, adaptado para ironizar a postura agressiva do ex-presidente.

Análise crítica: o TACO como sintoma de uma estratégia falida

Para além do humor, o fenômeno TACO revela algo profundo sobre os limites do poder americano no século XXI. A estratégia de Trump sempre foi construída sobre a ideia de que a imprevisibilidade é uma vantagem – que adversários recuariam diante de um líder que parece disposto a tudo. Mas o TACO demonstra o oposto: quando a imprevisibilidade se torna previsível, quando o blefe é repetido à exaustão, a vantagem se inverte.

Como observou o HK01: “Depois que o ultimato é emitido, o que se obtém não são aplausos unânimes ou celebração, mas sim pânico global generalizado, preços de petróleo estimulados e mercados de ações apreensivos”. Cada novo prazo é menos crível que o anterior, e cada adiamento alimenta o meme que Trump tanto detesta.

Mais preocupante para a Casa Branca é a forma como o TACO mina a capacidade de dissuasão americana. “A TACO (Trump Always Chickens Out) trade era uma estratégia de compra em quedas, onde investidores compravam ativos após anúncios de políticas da administração Trump, esperando uma reversão em dias”. Se os investidores aprenderam a apostar contra as ameaças de Trump, por que os adversários geopolíticos não fariam o mesmo?

O Conselho Supremo de Segurança Nacional do Irã já demonstrou que aprendeu a lição. Em cada recuo de Trump, Teerã se mostrou mais confiante, mais disposto a resistir. E a cada nova rodada de negociações mediadas pelo Paquistão, o regime iraniano parece ter entendido que o tempo joga a seu favor.

Conclusão: o meme que virou estratégia – e o pesadelo de Trump

O TACO começou como uma piada, evoluiu para uma estratégia de investimento e tornou-se, na guerra contra o Irã, um fenômeno geopolítico com consequências reais. Ele expõe a contradição central da presidência Trump: um líder que construiu sua imagem na força, mas cujo registro mostra um padrão consistente de recuo diante da adversidade.

Enquanto os prazos continuarem sendo adiados, enquanto as ameaças apocalípticas forem seguidas por anúncios de “progresso diplomático”, o TACO continuará a assombrar a Casa Branca. E em um mundo onde a guerra é travada tanto no campo de batalha quanto nas timelines das redes sociais, não há blindagem contra um bom meme – especialmente quando ele é verdadeiro.

A pergunta que fica não é se Trump conseguirá escapar do TACO, mas se algum dia conseguirá governar sem ele. Enquanto o padrão se mantiver, a resposta parece cada vez mais clara: o TACO veio para ficar. E nesta crise, ele está mais vivo do que nunca.

Com informações de NYMag, RTÉ, USA Today, BBC News Brasil, Hindustan Times, The Christian Science Monitor, India Today, Stnn.cc, Times Now News, HK01, The Jerusalem Post, The Daily Beast, The Tehran Times, Tasnim News Agency, Meduza.io, Guancha.cn, Phoenix TV (Ifeng), Newsweek, Pictet Asset Management, KMJournal, News18, Gate News, Indy100, Daily Times, Sohu, HKEJ, ETvBharat, CBS News, The Guardian, Reuters, Associated Press, Fox News, CNN, Al Jazeera, The Washington Post, The Wall Street Journal, Bloomberg ■

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