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A grande farsa do “Big Brother Brasília”
Enquanto a mídia privada transforma a política nacional em um reality show de bastidores, a população real lida com a carestia, a falta de saneamento e a ausência de serviços básicos — e segue sem informação de qualidade sobre aquilo que realmente importa
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■   Bernardo Cahue, 11/03/2026

A televisão ligada, o jornal na mesa de centro, o portal de notícias que vibra a cada notificação no celular. O cardápio é sempre o mesmo: a última declaração inflamada de um figurão da política, o embate entre partidos rivais, a suposta crise institucional que exigirá atenção imediata de Brasília. A impressão que se tem é que o Brasil se resume a um imenso plenário, onde o destino da nação é decidido por meia dúzia de atores que se alternam entre o poleiro do poder e o banco dos réus. Enquanto isso, nas periferias das metrópoles, nos grotões do Nordeste, nos bairros afastados da região Norte e nas zonas rurais do Centro-Oeste, a vida real teima em não se encaixar nesse roteiro.

A crítica que se impõe não é contra a cobertura política — necessária e salutar em qualquer democracia —, mas contra a hegemonia de uma pauta que transforma a política numa novela de interesses pessoais, alimentando uma polarização partidária que pouco dialoga com as urgências cotidianas do cidadão comum. A imprensa brasileira, em sua maioria de origem e gestão privadas, sequestrou o conceito de "interesse público" e o substituiu pelo que é meramente "de interesse do público" — ou pior: pelo que interessa aos seus patrocinadores e aos grupos econômicos que controlam a opinião nacional.

Ao reduzir a política a um ringue de boxe entre dois ou três polos partidários, a grande mídia escamoteia o debate estruturante. A população, entregue à própria sorte, busca migalhas de informação para entender por que o preço do arroz não baixa, por que a obra da creche do bairro está paralisada há três anos ou por que o esgoto a céu aberto ainda é a realidade de milhões de lares. Esses temas, porém, raramente ganham as manchetes dos telejornais de horário nobre, a menos que possam ser explorados como munição na guerra política nacional. O resultado é uma cidadania mal informada sobre o que é de fato relevante para a melhoria das condições de vida, e hipnotizada por um show de horrores e intrigas que ocorre a milhares de quilômetros de distância.

A armadilha da pauta: quando o “interesse do público” vence o “interesse público”

Há uma diferença abissal, e propositadamente confundida pelos manuais de redação que se curvam ao mercado, entre aquilo que é de interesse público e aquilo que desperta a curiosidade mórbida do público. O interesse público diz respeito ao conjunto de informações necessárias para que o cidadão exerça plenamente sua cidadania: a qualidade da merenda escolar entregue na rede municipal, o comparativo de preços dos cartéis varejistas locais, a eficácia dos programas federais de transferência de renda na ponta, o índice de leitos disponíveis no hospital da região, o destino do dinheiro arrecadado com impostos. Já o interesse do público — esse, sim, fartamente explorado — é aquele que alimenta a fogueira das vaidades, que expõe os bastidores das delações, que escancara os romances proibidos dos parlamentares ou que detalha, em tempo real, os embates verborrágicos das comissões parlamentares de inquérito.

Ao priorizar o segundo em detrimento do primeiro, a imprensa brasileira opera uma inversão criminosa de valores. Transforma a política num produto de entretenimento, vendido como "informação quente" e "furo jornalístico", enquanto as pautas estruturais — exatamente aquelas que poderiam munir a população de ferramentas para cobrar seus representantes locais — são relegadas a cadernos especiais de fim de semana ou a breves inserções no chamado "pé de página". Essa dinâmica é particularmente perversa quando se trata da fiscalização dos programas sociais e das políticas públicas federais. Em vez de investigar se o dinheiro do Bolsa Família chega às famílias que realmente necessitam, se o Farmácia Popular está abastecido nos municípios mais remotos ou se as obras do PAC estão de fato transformando a realidade local, a grande mídia prefere alimentar a polarização maniqueísta que trata qualquer programa social como "moeda de troca eleitoral" ou "cabide de empregos". O resultado é o desmonte da credibilidade das políticas públicas e a desinformação generalizada sobre direitos adquiridos.

O DNA privado da imprensa e o conflito de interesses estrutural

Para entender esse fenômeno, é preciso retroceder à gênese da comunicação no Brasil. Diferentemente de países que construíram sistemas públicos de radiodifusão robustos e comprometidos com a pluralidade, a imprensa brasileira nasceu, cresceu e se consolidou sob o signo da iniciativa privada. Não há, aqui, nenhum juízo de valor a priori sobre a propriedade privada dos meios de comunicação, mas sim uma constatação histórica: o negócio da informação sempre esteve atrelado aos interesses de grupos econômicos que, invariavelmente, também possuem negócios em outros setores — ou que dependem diretamente da publicidade estatal e privada para sobreviver. Essa dupla ou tripla militância econômica compromete a essência do jornalismo: a defesa intransigente do interesse público.

Os grandes conglomerados de mídia não são entidades filantrópicas; são empresas que visam ao lucro. Seu produto final — a informação — é moldado para agradar a dois clientes principais: o leitor/espectador, que consome o conteúdo, e o anunciante, que paga a conta. Ocorre que, na ponta do lápis, é o anunciante quem dita as regras. E quem são os grandes anunciantes nos veículos de comunicação? Bancos, montadoras, varejistas, empreiteiras, empresas de agronegócio — muitas das quais profundamente envolvidas nos esquemas de financiamento político e nas benesses dos governos, sejam eles quais forem. Exigir que esses veículos atuem como fiscais implacáveis do poder é ignorar a teia de relações que os mantêm vivos. A manutenção do status quo é o que garante a sobrevivência do negócio. E o pior: o povo, nessa equação, não é o destinatário final do serviço, mas sim a matéria-prima — a audiência que será vendida aos anunciantes, a massa de manobra cuja atenção será trocada por cifras milionárias.

Assim, quando a imprensa superdimensiona a polarização partidária e reduz a política a uma disputa de narrativas entre Brasília e os holofotes, ela está, na verdade, exercendo seu papel mais primitivo: o de entreter para não informar. Informar de verdade daria trabalho, exigiria equipes de reportagem nas pontas dos municípios, exigiria confrontar os poderes locais — que são os mesmos que, em muitos casos, controlam as verbas publicitárias regionais —, exigiria, sobretudo, devolver ao povo a possibilidade de compreender o mundo para além da cortina de fumaça. Mais fácil, lucrativo e seguro é transformar a política nacional numa novela sem fim, com heróis e vilões pré-definidos, onde o cidadão comum é mero espectador, jamais protagonista.

O povo como massa de manobra e a perpetuação das elites

O filósofo italiano Antonio Gramsci já alertava para o papel dos intelectuais e dos meios de comunicação na construção do consenso e na manutenção da hegemonia. No Brasil contemporâneo, a grande imprensa atua como um aparelho privado de hegemonia por excelência: ela não apenas reflete os interesses das classes dominantes, como os naturaliza, transformando a defesa do "mercado", da "governabilidade" e da "estabilidade" em valores universais, acima de qualquer suspeita. A polarização partidária, nesse contexto, é funcional: ela mantém a população dividida entre dois polos que, no fim das contas, concordam nos pontos fundamentais — a manutenção do modelo econômico, a proteção dos grandes grupos empresariais, a não taxação das grandes fortunas, a precarização dos serviços públicos, a financeirização da vida.

Enquanto a esquerda e a direita se estapeiam no palco montado pela mídia, os problemas reais da população — a carestia dos alimentos, a falta de segurança nas periferias, o analfabetismo funcional, a mortalidade infantil evitável, a falta de saneamento básico — permanecem intocados. E mais: quando eventualmente a imprensa decide abordar esses temas, fá-lo sempre sob a ótica da comoção passageira ou da responsabilização exclusiva do gestor de ocasião, sem jamais questionar as estruturas que perpetuam a desigualdade. O ciclo se fecha: a população, carente de informação qualificada, absorve o discurso polarizado e volta sua fúria contra o adversário político de plantão, enquanto os verdadeiros responsáveis pela espoliação cotidiana — muitos deles sentados nos conselhos de administração dos próprios veículos de comunicação — seguem incólumes.

O resultado é uma sociedade refém de uma agenda que não é sua. Uma sociedade que desconhece os mecanismos de participação popular nos conselhos municipais de saúde e educação, que ignora como funciona o orçamento público, que não sabe exigir transparência das prefeituras e câmaras de vereadores. Uma sociedade que, desinformada sobre seus direitos e sobre o funcionamento do Estado, torna-se presa fácil do discurso messiânico e da promessa vazia de salvação nacional, seja ela vinda de qual campo político for. A imprensa, que deveria ser a ponte entre o cidadão e a coisa pública, transformou-se no muro que os separa.

O caminho da reconstrução: por um jornalismo que sirva ao povo

Diante desse quadro aparentemente desolador, é preciso apontar brechas e possibilidades. A comunicação brasileira não se resume aos grandes conglomerados. Há um ecossistema crescente de mídias independentes, comunitárias e alternativas que têm se dedicado a fazer o jornalismo que a velha imprensa abandonou. São veículos que cobrem o cotidiano das periferias, que fiscalizam os atos dos gestores locais, que comparam os preços dos cartéis varejistas, que explicam à população como acessar os programas federais, que denunciam a falta de saneamento e a precariedade da saúde nos bairros esquecidos. Esses veículos, muitas vezes sobrevivendo à base de financiamento coletivo e do trabalho voluntário, resgatam a essência do interesse público e demonstram que é possível fazer comunicação de qualidade sem se curvar aos patrocinadores.

Além disso, a própria população tem se organizado em redes e coletivos de comunicação, utilizando as ferramentas digitais para produzir e compartilhar informações relevantes para suas comunidades. O movimento é de baixo para cima, e desafia o monopólio da palavra imposto pelas elites. A luta é árdua, mas necessária: trata-se de devolver à comunicação seu caráter de direito humano, e não de mercadoria. Enquanto a grande imprensa insistir em tratar a política como um grande irmão de confinamento, cabe à sociedade organizada construir seus próprios meios de informar e se informar, cobrando dos gestores públicos — sejam eles locais, estaduais ou federais — aquilo que é de fato essencial: a garantia dos direitos básicos e a melhoria concreta das condições de vida.

O Brasil que luta por comida na mesa, por água tratada, por educação de qualidade e por segurança nos lares não cabe nos estúdios envidraçados de Brasília. Esse Brasil precisa e merece uma imprensa que desça do salto, que suje os sapatos nas ruas de terra, que ouça as vozes silenciadas e que, finalmente, coloque o interesse público acima dos negócios e das vaidades. Enquanto isso não ocorre, resta ao povo brasileiro desconfiar do que lê, vê e ouve nos meios tradicionais, e buscar, nas brechas do sistema, a informação que liberta.

Consultas: Agência Pública, Observatório da Imprensa, Intervozes – Coletivo Brasil de Comunicação Social, Repórteres Sem Fronteiras, The Intercept Brasil, Gênero e Número, Ponte Jornalismo, Agência Mural, Brasil de Fato, Revista Fórum ■

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