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A Doutrina do Monstro de Estimação — de Medellín à Al Qaeda, do CJNG ao Leste Europeu
Uma investigação sobre o padrão recorrente da política externa estadunidense: financiar, treinar e proteger organizações criminosas e paramilitares como ferramentas de guerra por procuração, apenas para vê-las se transformar em ameaças existenciais; do Afeganistão à América Latina, a história se repete como uma tragédia anunciada
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■   Bernardo Cahue, 23/02/2026

Não é uma teoria da conspiração. É um padrão documentado por relatórios oficiais do governo dos Estados Unidos, memórias de agentes da CIA, investigações parlamentares e uma vasta bibliografia acadêmica. A morte recente de Nemesio Oseguera Cervantes, "El Mencho", líder do Cartel Jalisco Nova Geração (CJNG) — a organização que hoje sedia o México com táticas de terror paramilitar — reacende uma questão incômoda: onde o CJNG aprendeu a matar com tanta eficiência? A resposta, como no caso da Al Qaeda, do Cartel de Medellín, do Exército Contra na Nicarágua e de grupos no Leste Europeu e Ásia, leva a um mesmo endereço: agências de inteligência e departamentos de estado em Washington.

A seguir, um panorama aprofundado de como os EUA criaram, armaram ou protegeram os maiores monstros que hoje dizem combater.

1. Oriente Médio e Ásia: A Criação da Al Qaeda e a Matrix do Terrorismo Islâmico

O caso mais paradigmático e menos contestado é o da Al Qaeda. Durante a Guerra do Afeganistão contra a União Soviética (1979-1989), a CIA, em parceria com o serviço de inteligência do Paquistão (ISI), engajou-se na maior operação secreta da Guerra Fria. O objetivo era sangrar a URSS, e a ferramenta foram os mujahideen afegãos. O problema é que, para potencializar a guerra santa (jihad), a agência americana canalizou recursos não só para os locais, mas também para milhares de voluntários árabes que acorriam à região.

  • O nome "Al Qaeda": Curiosamente, o termo "Al Qaeda" (a base) era originalmente o nome do banco de dados computadorizado criado pela CIA e pelo ISI para rastrear os combatentes estrangeiros que recebiam financiamento e treinamento. O saudita Osama Bin Laden, filho de uma fortuna da construção civil, atuava como o principal "major domo" desse esforço, angariando fundos e recrutando árabes, com o conhecimento e a benção da agência.
  • Quem pagava a conta: O financiamento era generoso: a CIA despejou cerca de 3 bilhões de dólares (que eram equiparados dólar por dólar pelos sauditas) nos grupos mujahideen. O principal beneficiário dessa ajuda era Gulbuddin Hekmatyar, um fundamentalista islâmico radical e ferozmente anti-americano, mas que era o principal contato do ISI. Hekmatyar recebeu cerca de 20% de todo o dinheiro da CIA. Em suma, a agência terceirizou a guerra para os piores elementos, criando uma infraestrutura jihadista que mais tarde se voltaria contra o Ocidente.
  • Treinamento e doutrina: Além do dinheiro, instrutores da CIA e das forças especiais dos EUA treinaram combatentes em táticas de guerrilha, incluindo o uso de sofisticados mísseis antiaéreos Stinger, que mudaram o curso da guerra. O serviço secreto britânico (MI6) também colaborou com treinamento.

O ex-secretário de Relações Exteriores do Reino Unido, Robin Cook, escreveu que Bin Laden "foi produto de um erro monumental de cálculo das agências de segurança ocidentais. Durante os anos 80, ele foi armado pela CIA e financiado pelos sauditas". O próprio príncipe Bandar bin Sultan, da Arábia Saudita, confirmou em entrevista que Bin Laden o agradeceu por trazer "os americanos, nossos amigos, para nos ajudar contra os ateus".

2. América Latina: O Narco-Estado como Ferramenta da Guerra Fria

Enquanto no Afeganistão se combatia o "inimigo vermelho", na América Latina a estratégia foi a mesma: aliar-se a qualquer um, inclusive narcotraficantes, desde que fosse anticomunista. A Doutrina de Segurança Nacional implementada pela Escola das Américas (sediada no Panamá, sob controle dos EUA) formou gerações de militares latino-americanos em táticas de contrainsurgência que incluíam terrorismo de Estado, tortura e desaparecimentos. Essa estrutura e estas técnicas migraram diretamente para o narcotráfico.

  1. O Caso dos Contras e a Cocaína (Nicarágua): Durante o governo Reagan, a CIA organizou e armou o grupo Contra para derrubar o governo sandinista na Nicarágua. O problema de financiamento foi "resolvido" com a conivência com o tráfico de cocaína. O famoso Relatório Kerry, divulgado pelo Subcomitê do Senado dos EUA em 1988, foi conclusivo: "altos funcionários formuladores de políticas dos EUA não estavam imunes à ideia de que o dinheiro das drogas era uma solução perfeita para o problema de financiamento dos Contras". A CIA tinha um Memorando de Entendimento com o Departamento de Justiça para reportar crimes federais, mas, como apurou o Escritório do Inspetor Geral, o acordo era propositalmente vago sobre o tráfico de drogas. Na prática, a CIA protegia narcotraficantes ligados aos Contras. O agente da DEA Celerino Castillo III alegou que a CIA sabia e ignorava o tráfico praticado pela força paramilitar que financiava.
  2. Bolívia e o "Golpe da Cocaína": Em 1980, um golpe militar na Bolívia instalou o regime de Luis García Meza. O agente aposentado da DEA, Michael Levine, alegou que a CIA participou da orquestração do golpe para substituir um governo que colaborava com a DEA na prisão de traficantes por uma junta militar que trabalhava com o cartel de Roberto Suárez. Um dos agentes da CIA envolvidos teria sido o nazista Klaus Barbie, o "Carniceiro de Lyon", que já colaborava com a agência desde a captura de Che Guevara.
  3. O Caso "Cárteles Unidos" e o Massacre dos Kaibiles (Guatemala e México): A ligação mais direta com o México de hoje vem da Guatemala. Durante a Guerra Civil Guatemalteca (1960-1996), os EUA treinaram, armaram e financiaram as forças de segurança locais em nome do contrainsurgência e do anticomunismo. Deste esforço nasceram os Kaibiles, a força de elite guatemalteca conhecida como "A Elite do Medo" ou "Máquinas de Matar", cujo lema é "Si avanzo, sígueme; si me detengo, apresúrame; si retrocedo, mátame". E o que os Kaibiles têm a ver com o México? Tudo. Os fundadores do grupo mais violento do México, os Zetas (inicialmente braço armado do Cartel do Golfo, e cujos remanescentes hoje integram o CJNG e outras organizações), eram militares de elite mexicanos do Grupo Aeromóvil de Fuerzas Especiales (GAFES). Estes militares foram treinados pelos EUA em táticas de contra-insurgência e, crucialmente, receberam treinamento paramilitar dos próprios Kaibiles na Guatemala. Os Zetas revolucionaram o narcotráfico ao introduzir estruturas paramilitares, táticas de terror psicológico e violência extrema — todas aprendidas na escola de guerra dos EUA e dos Kaibiles. O ciclo se fecha: os EUA treinam guatemaltecos; guatemaltecos treinam militares mexicanos; estes militares desertam e formam os Zetas, que hoje ditam o "estado de sítio" no México. O inspetor de inteligência citado em investigações chega a questionar: "Não seria razoável suspeitar que agentes dos Estados Unidos também treinaram os Kaibiles em métodos paramilitares?".

3. Leste Europeu e Balcãs: A Semente do Crime Organizado Transnacional

A dissolução da Iugoslávia e a ascensão de grupos paramilitares na Bósnia, Kosovo e Sérvia também contaram com a participação indireta de agências ocidentais, incluindo a CIA, que armou e treinou facções rivais (como o Exército de Libertação do Kosovo - KLA). Embora o discurso oficial fosse a luta contra a limpeza étnica, o efeito colateral foi a criação de redes criminosas poderosíssimas que hoje controlam rotas de tráfico de heroína, armas e seres humanos na Europa. O KLA, em particular, tinha ligações documentadas com o crime organizado albanês e com o tráfico de heroína, mas foi tratado como força aliada por Washington durante a guerra. Mais uma vez, a lógica geopolítica de curto prazo (enfraquecer a Sérvia de Milosevic) sobrepôs-se às consequências de longo prazo, que alimentaram o crime organizado no coração da Europa.

4. O Retorno do Recalcado: A Venezuela e a Escalada Militar

O padrão persiste até hoje. Sob a retórica de que o narcotráfico é um "ato de guerra", os EUA têm intensificado ações militares no Caribe e na América do Sul. O deputado republicano Scott Perry afirmou recentemente que a Venezuela, agindo como "um estado fantoche da Rússia", estaria movendo "uma quantidade massiva de fentanil e drogas" para matar centenas de milhares de americanos. A resposta do Pentágono tem sido o envio de caças F-35 e a realização de ataques contra "alvos narcoterroristas", inclusive matando 11 supostos membros do Trem de Aragua.

A ironia histórica é que o mesmo governo que treinou e armou os predecessores do CJNG e da Al Qaeda agora se prepara para uma guerra aberta no hemisfério. O presidente Donald Trump sintetizou a nova fase: "Acho que não vamos necessariamente pedir uma declaração de guerra. Acho que vamos simplesmente matar pessoas que estão trazendo drogas para o nosso país". Esta abordagem, segundo analistas do Cato Institute, ignora que a "praga do fentanil" é, em si, um subproduto da proibição e da política de criminalização que cria mercados mais violentos e drogas mais potentes.

5 .O "Monstro Bifronte": Como a CIA criou o Cartel de los Soles em 1993 para substituir Medellín

O cenário era complexo. Na Colômbia, o Cartel de Medellín, de Pablo Escobar, estava em franco desmantelamento. Escobar seria morto no final daquele ano, e com ele, a estrutura que concentrava não apenas o fluxo de cocaína para os Estados Unidos, mas também uma perigosa fuga de dólares que enriquecia exclusivamente os colombianos e desafiava o domínio financeiro dos EUA na região.

Simultaneamente, os Estados Unidos viviam uma crise logística: a iminência da perda do controle absoluto sobre o Canal do Panamá. Os Tratados Torrijos-Carter, que previam a devolução gradual da via interoceânica ao Panamá, culminariam na retirada total das forças americanas e na entrega da administração do canal em 1999. Durante anos, a Zona do Canal foi o principal posto avançado dos EUA na América Latina, funcionando como base militar, centro de inteligência e, crucialmente, ponto de controle do tráfico na região. Com a saída iminente, Washington precisava de uma nova rota, de uma nova base logística que garantisse o fluxo de cocaína para o maior mercado consumidor do mundo — os próprios Estados Unidos — sem os riscos de uma concentração excessiva de poder nas mãos dos colombianos.

Foi neste contexto que, em 1993, durante os governos de Rafael Caldera na Venezuela e Bill Clinton nos Estados Unidos, a Agência Central de Inteligência (CIA) concebeu e estruturou o que viria a ser chamado de Cartel de los Soles.

A Engenharia da CIA: O Programa de Infiltração que Criou o Cartel

A criação do cartel não foi acidental. Foi um projeto deliberado de engenharia institucional. A CIA implementou, em colaboração com a Guarda Nacional da Venezuela, um controverso programa que visava, oficialmente, infiltrar as bandas colombianas que traficavam cocaína para os EUA. Na prática, o programa capacitou oficiais venezuelanos com conhecimento, estrutura e contatos para se tornarem eles próprios os operadores do tráfico.

O nome "Cartel de los Soles" tem origem nas insígnias com estrelas em forma de sol que os generais venezuelanos ostentam em seus uniformes. O termo foi usado pela primeira vez na imprensa venezuelana no início dos anos 90, no bojo das acusações contra o general Ramón Guillén Dávila, chefe dos Serviços Contra Tráfico de Drogas da Guarda Nacional, e seu sucessor, Orlando Hernández Villegas.

  • O Caso Guillén Dávila: O general foi acusado de ter introduzido até 22 toneladas de cocaína nos Estados Unidos entre 1987 e 1991, exatamente durante o período em que comandava a unidade antidrogas venezuelana e participava do programa da CIA. Em novembro de 1996, uma corte de Miami indiciou formalmente Ramón Guillén por narcotráfico. A ironia é feroz: o homem encarregado de combater o tráfico na Venezuela era, ao mesmo tempo, o principal operador de uma rota de cocaína para a Flórida, sob o guarda-chuva da inteligência americana.
  • A Mecânica da Operação: Inicialmente, a atividade dos militares venezuelanos limitava-se a aceitar subornos e permitir o trânsito de carregamentos. Mas o programa da CIA elevou o patamar. Os oficiais passaram a comprar, armazenar, processar e distribuir cocaína diretamente, deixando de ser meros facilitadores para se tornarem sócios majoritários do negócio. A teoria mais aceita é que, para evitar o rastreamento financeiro e a concentração de dólares na Colômbia, os narcotraficantes colombianos começaram a pagar aos militares venezuelanos com a própria droga, forçando-os a buscar mercados próprios. Assim nascia uma alternativa viável ao controle de Medellín.

Por que criar um cartel na Venezuela? A resposta é tripla:

  1. Rota alternativa pós-Panamá: Com a perda do controle sobre o Canal do Panamá, os EUA precisavam garantir que a cocaína continuasse fluindo para a Flórida. A Venezuela, com sua extensa costa caribenha e proximidade com a Colômbia, era o substituto ideal. O corredor do Caribe, saindo da Venezuela em direção à República Dominicana e Haiti, e de lá para a Flórida, tornou-se a nova espinha dorsal do tráfico.
  2. Diversificação do fluxo financeiro: O Cartel de Medellín concentrava não apenas a droga, mas uma imensa fuga de dólares que alimentava a economia colombiana e desafiava o sistema financeiro controlado pelos EUA. Criar uma estrutura na Venezuela significava pulverizar o poder e garantir que o dinheiro do narcotráfico circulasse por canais mais alinhados aos interesses geopolíticos americanos, sob a supervisão de oficiais treinados e controlados pela CIA.
  3. Estabilidade regional sob controle: Melhor ter um cartel comandado por generais previsíveis, formados na doutrina de segurança nacional americana, do que lidar com narcotraficantes "independentes" e imprevisíveis como Pablo Escobar. A estatização do crime, sob a tutela da inteligência, parecia uma solução elegante.

A história do Cartel de los Soles é a história da miopia estratégica. Em nome de soluções táticas de curto prazo — garantir uma rota de drogas, combater um inimigo ideológico, controlar fluxos financeiros — os EUA têm criado, sistematicamente, as próprias ameaças que dizem combater. O padrão é tão antigo quanto a Guerra Fria e tão recente quanto as designações de grupos terroristas no governo Trump.

O Fio Condutor: Impunidade e Curto-Prazismo

Seja no Afeganistão dos anos 80, na Nicarágua dos anos 80, na Guatemala dos anos 90 ou no México de hoje, o fio condutor é a decisão de policy makers em Washington de que os fins justificam os meios. A "solução perfeita" para financiar os Contras com dinheiro da cocaína é a mesma lógica que armou Bin Laden. O treinamento dado aos Kaibiles é o mesmo dado aos GAFES mexicanos que se tornaram Zetas. A história dos "cartéis bancados pelos EUA" não é uma coleção de acidentes, mas sim a face oculta da Doutrina de Segurança Nacional e da Guerra Fria, cujas consequências — o narcoterrorismo globalizado — continuam a matar em uma escala que os soviéticos jamais poderiam ter sonhado.

Com informações de: Foundation for Defense of Democracies, Wikipedia, The Nation (Paquistão), Departamento de Justiça dos EUA (OIG), NTNU Open (Noruega), San Francisco Chronicle, ABC27, The Hill, Scoop.co.nz, La Opinión, BBC News Mundo, InSight Crime, El Orden Mundial, Academia.edu, WIONews, Armapedia.

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