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Não é uma teoria da conspiração. É um padrão documentado por relatórios oficiais do governo dos Estados Unidos, memórias de agentes da CIA, investigações parlamentares e uma vasta bibliografia acadêmica. A morte recente de Nemesio Oseguera Cervantes, "El Mencho", líder do Cartel Jalisco Nova Geração (CJNG) — a organização que hoje sedia o México com táticas de terror paramilitar — reacende uma questão incômoda: onde o CJNG aprendeu a matar com tanta eficiência? A resposta, como no caso da Al Qaeda, do Cartel de Medellín, do Exército Contra na Nicarágua e de grupos no Leste Europeu e Ásia, leva a um mesmo endereço: agências de inteligência e departamentos de estado em Washington.
A seguir, um panorama aprofundado de como os EUA criaram, armaram ou protegeram os maiores monstros que hoje dizem combater.
1. Oriente Médio e Ásia: A Criação da Al Qaeda e a Matrix do Terrorismo Islâmico
O caso mais paradigmático e menos contestado é o da Al Qaeda. Durante a Guerra do Afeganistão contra a União Soviética (1979-1989), a CIA, em parceria com o serviço de inteligência do Paquistão (ISI), engajou-se na maior operação secreta da Guerra Fria. O objetivo era sangrar a URSS, e a ferramenta foram os mujahideen afegãos. O problema é que, para potencializar a guerra santa (jihad), a agência americana canalizou recursos não só para os locais, mas também para milhares de voluntários árabes que acorriam à região.
O ex-secretário de Relações Exteriores do Reino Unido, Robin Cook, escreveu que Bin Laden "foi produto de um erro monumental de cálculo das agências de segurança ocidentais. Durante os anos 80, ele foi armado pela CIA e financiado pelos sauditas". O próprio príncipe Bandar bin Sultan, da Arábia Saudita, confirmou em entrevista que Bin Laden o agradeceu por trazer "os americanos, nossos amigos, para nos ajudar contra os ateus".
2. América Latina: O Narco-Estado como Ferramenta da Guerra Fria
Enquanto no Afeganistão se combatia o "inimigo vermelho", na América Latina a estratégia foi a mesma: aliar-se a qualquer um, inclusive narcotraficantes, desde que fosse anticomunista. A Doutrina de Segurança Nacional implementada pela Escola das Américas (sediada no Panamá, sob controle dos EUA) formou gerações de militares latino-americanos em táticas de contrainsurgência que incluíam terrorismo de Estado, tortura e desaparecimentos. Essa estrutura e estas técnicas migraram diretamente para o narcotráfico.
3. Leste Europeu e Balcãs: A Semente do Crime Organizado Transnacional
A dissolução da Iugoslávia e a ascensão de grupos paramilitares na Bósnia, Kosovo e Sérvia também contaram com a participação indireta de agências ocidentais, incluindo a CIA, que armou e treinou facções rivais (como o Exército de Libertação do Kosovo - KLA). Embora o discurso oficial fosse a luta contra a limpeza étnica, o efeito colateral foi a criação de redes criminosas poderosíssimas que hoje controlam rotas de tráfico de heroína, armas e seres humanos na Europa. O KLA, em particular, tinha ligações documentadas com o crime organizado albanês e com o tráfico de heroína, mas foi tratado como força aliada por Washington durante a guerra. Mais uma vez, a lógica geopolítica de curto prazo (enfraquecer a Sérvia de Milosevic) sobrepôs-se às consequências de longo prazo, que alimentaram o crime organizado no coração da Europa.
4. O Retorno do Recalcado: A Venezuela e a Escalada Militar
O padrão persiste até hoje. Sob a retórica de que o narcotráfico é um "ato de guerra", os EUA têm intensificado ações militares no Caribe e na América do Sul. O deputado republicano Scott Perry afirmou recentemente que a Venezuela, agindo como "um estado fantoche da Rússia", estaria movendo "uma quantidade massiva de fentanil e drogas" para matar centenas de milhares de americanos. A resposta do Pentágono tem sido o envio de caças F-35 e a realização de ataques contra "alvos narcoterroristas", inclusive matando 11 supostos membros do Trem de Aragua.
A ironia histórica é que o mesmo governo que treinou e armou os predecessores do CJNG e da Al Qaeda agora se prepara para uma guerra aberta no hemisfério. O presidente Donald Trump sintetizou a nova fase: "Acho que não vamos necessariamente pedir uma declaração de guerra. Acho que vamos simplesmente matar pessoas que estão trazendo drogas para o nosso país". Esta abordagem, segundo analistas do Cato Institute, ignora que a "praga do fentanil" é, em si, um subproduto da proibição e da política de criminalização que cria mercados mais violentos e drogas mais potentes.
5 .O "Monstro Bifronte": Como a CIA criou o Cartel de los Soles em 1993 para substituir Medellín
O cenário era complexo. Na Colômbia, o Cartel de Medellín, de Pablo Escobar, estava em franco desmantelamento. Escobar seria morto no final daquele ano, e com ele, a estrutura que concentrava não apenas o fluxo de cocaína para os Estados Unidos, mas também uma perigosa fuga de dólares que enriquecia exclusivamente os colombianos e desafiava o domínio financeiro dos EUA na região.
Simultaneamente, os Estados Unidos viviam uma crise logística: a iminência da perda do controle absoluto sobre o Canal do Panamá. Os Tratados Torrijos-Carter, que previam a devolução gradual da via interoceânica ao Panamá, culminariam na retirada total das forças americanas e na entrega da administração do canal em 1999. Durante anos, a Zona do Canal foi o principal posto avançado dos EUA na América Latina, funcionando como base militar, centro de inteligência e, crucialmente, ponto de controle do tráfico na região. Com a saída iminente, Washington precisava de uma nova rota, de uma nova base logística que garantisse o fluxo de cocaína para o maior mercado consumidor do mundo — os próprios Estados Unidos — sem os riscos de uma concentração excessiva de poder nas mãos dos colombianos.
Foi neste contexto que, em 1993, durante os governos de Rafael Caldera na Venezuela e Bill Clinton nos Estados Unidos, a Agência Central de Inteligência (CIA) concebeu e estruturou o que viria a ser chamado de Cartel de los Soles.
A Engenharia da CIA: O Programa de Infiltração que Criou o Cartel
A criação do cartel não foi acidental. Foi um projeto deliberado de engenharia institucional. A CIA implementou, em colaboração com a Guarda Nacional da Venezuela, um controverso programa que visava, oficialmente, infiltrar as bandas colombianas que traficavam cocaína para os EUA. Na prática, o programa capacitou oficiais venezuelanos com conhecimento, estrutura e contatos para se tornarem eles próprios os operadores do tráfico.
O nome "Cartel de los Soles" tem origem nas insígnias com estrelas em forma de sol que os generais venezuelanos ostentam em seus uniformes. O termo foi usado pela primeira vez na imprensa venezuelana no início dos anos 90, no bojo das acusações contra o general Ramón Guillén Dávila, chefe dos Serviços Contra Tráfico de Drogas da Guarda Nacional, e seu sucessor, Orlando Hernández Villegas.
Por que criar um cartel na Venezuela? A resposta é tripla:
A história do Cartel de los Soles é a história da miopia estratégica. Em nome de soluções táticas de curto prazo — garantir uma rota de drogas, combater um inimigo ideológico, controlar fluxos financeiros — os EUA têm criado, sistematicamente, as próprias ameaças que dizem combater. O padrão é tão antigo quanto a Guerra Fria e tão recente quanto as designações de grupos terroristas no governo Trump.
O Fio Condutor: Impunidade e Curto-Prazismo
Seja no Afeganistão dos anos 80, na Nicarágua dos anos 80, na Guatemala dos anos 90 ou no México de hoje, o fio condutor é a decisão de policy makers em Washington de que os fins justificam os meios. A "solução perfeita" para financiar os Contras com dinheiro da cocaína é a mesma lógica que armou Bin Laden. O treinamento dado aos Kaibiles é o mesmo dado aos GAFES mexicanos que se tornaram Zetas. A história dos "cartéis bancados pelos EUA" não é uma coleção de acidentes, mas sim a face oculta da Doutrina de Segurança Nacional e da Guerra Fria, cujas consequências — o narcoterrorismo globalizado — continuam a matar em uma escala que os soviéticos jamais poderiam ter sonhado.
Com informações de: Foundation for Defense of Democracies, Wikipedia, The Nation (Paquistão), Departamento de Justiça dos EUA (OIG), NTNU Open (Noruega), San Francisco Chronicle, ABC27, The Hill, Scoop.co.nz, La Opinión, BBC News Mundo, InSight Crime, El Orden Mundial, Academia.edu, WIONews, Armapedia.
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