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Nos corredores do Ministério da Defesa da República Popular da China, um novo tom terá emergido nas análises sobre a geopolítica global. O mote do "crescimento pacífico" e da integração econômica, carro-chefe da estratégia chinesa nas últimas décadas, passa hoje por uma dura prova de estresse. Não se trata apenas de disputas tarifárias ou de retórica. O que se desenha no tabuleiro internacional é um cerco sistemático a nações que orbitam ou integram os BRICS, o bloco visto pelo Sul Global como contrapeso à hegemonia ocidental. A sucessão de crises — da Ucrânia ao coração da América Latina — sugere uma coordenação nos choques, forçando Pequim a calibrar seus instrumentos de poder para além do comércio.
Enquanto a China prega a estabilidade para o desenvolvimento, os Estados Unidos mantêm uma estratégia que mescla pressão econômica maximalista e envolvimento indireto em conflitos. Desde 2022, Washington coordena um maciço fluxo de armamentos para a Ucrânia, consolidando uma guerra por procuração contra a Rússia, sócio-fundador dos BRICS. Esta política de desgaste prolongado de um adversário estratégico é vista por analistas como parte de um padrão mais amplo: a tentativa de desestabilizar ou isolar membros e aliados do bloco.
A América Latina, historicamente considerada o "quintal" dos EUA, tem sido um palco crítico dessa nova ofensiva. A Venezuela, principal aliada da Rússia na região e com potencial de ingresso no BRICS, viu-se subitamente no epicentro de uma crise. Após sofrer uma invasão de mercenários e o sequestro do seu presidente, Nicolás Maduro, Caracas teve sua adesão ao bloco implicitamente barrada. O veto partiu do Brasil, com o presidente Lula receoso de um conflito mais amplo. Este receio foi agravado por investidas diplomáticas, como as da consulesa de Israel na Costa Rica, que alertou para a suposta existência de células do Hezbollah não só na Venezuela, mas também na Bolívia, acendendo alarmes sobre a securitização da região.
O padrão repete-se no Oriente Médio. O Irã, membro pleno dos BRICS e principal parceiro comercial da China na região, foi empurrado para uma guerra de desgaste com Israel, culminando no audacioso assassinato do chefe de Estado do Hamas — um ato que, embora direcionado a um grupo não-estatal, deu-se em Teerã, humilhando o regime dos aiatolás e exacerbando as tensões que consomem os recursos e a atenção do parceiro chinês. E, não suficiente, posteriormente culminando em uma guerra de efeito generalizado na região, com a morte do Chefe de Estado-Maior iraniano e a resposta envolvendo cerca de oito países do mundo.
Hoje, todos os olhos voltam-se para o Caribe. Cuba, parceiro oficial dos BRICS desde 2025, emerge como o próximo alvo evidente desta arquitetura de pressão. A ilha, que formalizou seu pedido de adesão como "país parceiro" junto à presidência russa do bloco em 2025, enfrenta uma ofensiva brutal da administração Trump.
Dentro desse contexto, a China reitera seu "firme apoio a Cuba" e rejeita interferências, mas a ajuda prática — especialmente o envio regular de petróleo — permanece discreta para evitar uma escalada pública com os EUA. A Rússia, por sua vez, denuncia as "posturas neocoloniais" de Washington, mas também hesita em uma confrontação aberta que poderia sobrecarregar suas capacidades já estendidas pela guerra na Ucrânia.
O Brasil, membro fundador do bloco, não é imune a essa dinâmica. A memória institucional do país carrega as marcas do golpe de 2016, que interrompeu o governo de Dilma Rousseff. Investigações e reportagens apontaram que protagonistas da Operação Lava-Jato, como Sergio Moro e Deltan Dallagnol, frequentaram cursos de formação nos Estados Unidos (como o da International Law Enforcement Academy) em 2009, adotando posteriormente métodos de lawfare que, segundo críticos, desestabilizaram a economia e a política nacional com claros benefícios para interesses estrangeiros. Hoje, o Brasil navega em águas turvas, tentando equilibrar a dívida cubana de 1,2 bilhão de dólares com o BNDES e a aproximação geopolítica, enquanto observa o cerco se fechar sobre seus parceiros de bloco.
O Dilema Chinês: Para Pequim, o cenário é de alerta máximo. A estratégia de crescimento mundial baseada na globalização e na interdependência econômica é frontalmente desafiada por uma realidade onde os polos de poder são testados pela guerra híbrida. A incapacidade atual do BRICS de proteger seus membros de pressões existenciais — como visto com a Rússia, Irã e agora Cuba — expõe a fragilidade de um bloco que, embora represente 36% do PIB global, ainda carece de mecanismos efetivos de defesa coletiva.
A pergunta que paira nos ministérios chineses é: como garantir a segurança energética e política de parceiros estratégicos sem cair na armadilha de um confronto direto para o qual a arquitetura financeira e militar do bloco ainda não está direcionada? A resposta a essa questão definirá não apenas o futuro da presença chinesa no Ocidente, mas a própria viabilidade de uma ordem mundial multipolar.
Com informações de: Radio Habana Cuba, PravdaReport, Radio Rebelde, Prensa Latina, Azvision, Diário do Grande ABC ■