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O tabuleiro de xadrez do sul da Ásia está em chamas
Com o Paquistão em múltiplas frentes de batalha e a Índia na presidência do BRICS, o sonho de Nova Delhi de reaver o controle total da Caxemira esbarra no fantasma de um conflito nuclear e na espada de Dâmocles da aliança sino-paquistanesa
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■   Bernardo Cahue, 01/03/2026

A escalada simultânea de conflitos na Ásia Meridional não é um mero acaso geopolítico. A declaração de "guerra aberta" pelo Paquistão contra o Afeganistão em fevereiro de 2026 acendeu uma luz amarela em Nova Delhi que, para alguns analistas, pode ser, na verdade, uma luz verde. O raciocínio por trás de uma possível nova investida indiana sobre a Caxemira é tão tentador quanto perigoso: Islamabad, agora sangrando em duas frentes (leste, com a Índia, e oeste, com o Talibã afegão), estaria militar e logisticamente fragilizada, oferecendo uma janela de oportunidade para uma solução unilateral da questão.

Historicamente, a Caxemira é a ferida aberta deixada pela partição das Índias Britânicas em 1947. O que era para ser uma divisão étnico-religiosa transformou-se num tabuleiro de xadrez onde se enfrentam duas potências nucleares. A Índia controla 55% do território, mas nunca aceitou a divisão como definitiva, especialmente diante da insurgência constante na porção que administra. O Paquistão, por sua vez, vê na "causa caxemira" uma razão de Estado, apoiando grupos que Nova Delhi classifica como terroristas.

O contexto atual, no entanto, adiciona camadas de complexidade que vão além da rivalidade bilateral. A situação pode ser dissecada em três frentes interligadas:

  • O Fator Afegão e o Sangramento Paquistanês: A ofensiva paquistanesa contra o Talibã, justificada como resposta a ataques do TTP (Talibã Paquistanês) vindos do Afeganistão, não é um desvio de rota. É um front que drena recursos humanos e materiais que poderiam estar posicionados na fronteira com a Índia. Para Islamabad, a "guerra aberta" com Cabul é existencial, pois grupos como o TTP ameaçam a própria estrutura do Estado paquistanês. A reação afegã, prometendo ataques em solo paquistanês, força o exército do país a se proteger em um raio de 360 graus, algo que a Índia observa com cauteloso interesse.
  • A Vitrine Bélica Indiana: Não por acaso, a Índia realizou em 2025, a poucos quilômetros da fronteira paquistanesa, a operação Vayu Shakti, uma colossal demonstração de força com jatos Rafale, Sukhoi e mísseis de última geração. O recado foi duplo: para o Paquistão, uma lembrança da assimetria de poder (a Índia gasta oito vezes mais em defesa que seu rival); e para a China, uma demonstração de que Nova Delhi não se intimidará com o eixo Pequim-Islamabad. O momento da demonstração, inserido num contexto de tensão renovada, sugere que a Índia está preparando o terreno, ou pelo menos a opinião pública e militar, para uma eventual ação mais incisiva.
  • A Fragilidade do Cessar-Fogo: O cessar-fogo mediado pelos EUA em maio de 2025 sempre foi uma trégua frágil, não uma solução. Ele congelou um conflito no qual a Índia viu cinco de seus caças serem abatidos, evidenciando a eficácia dos equipamentos chineses nas mãos paquistanesas. Para o nacionalismo hindu do governo Modi, essa mágoa não foi esquecida. A "humilhação" militar de 2025 ainda clama por uma resposta que restaure a honra e a supremacia indiana na região.

É neste caldeirão que surge o grande xeque-mate geopolítico envolvendo a China. Pequim caminha sobre uma corda bamba esticada sobre um abismo. Por um lado, é a principal aliada do Paquistão, seu "irmão de ferro", fornecendo 81% do equipamento militar de Islamabad e tendo no Corredor Econômico China-Paquistão (CPEC) uma rota vital para o Oceano Índico. Uma guerra que enfraqueça o Paquistão ou, pior, que resulte em sua derrota, seria um desastre estratégico para os planos chineses de expansão de influência.

Por outro lado, a China senta-se à mesa com a Índia no BRICS, bloco que em 2026 está sob presidência indiana. Para Pequim, o BRICS é um instrumento crucial na construção de uma ordem mundial multipolar e na contestação à hegemonia do dólar. Confrontar a Índia diretamente em defesa do Paquistão poderia implodir o bloco e jogar Nova Delhi definitivamente nos braços do Quad (parceria estratégica com EUA, Japão e Austrália), algo que a diplomacia chinesa tem trabalhado arduamente para evitar.

O paradoxo chinês, portanto, é profundo: como manter a aliança "tout court" com o Paquistão sem inviabilizar a cooperação no BRICS com a Índia? A resposta não é simples. Nos bastidores, é provável que Pequim esteja exercendo pressão máxima sobre Islamabad para conter a escalada com a Índia, enquanto publicamente adota um tom de moderação, como já fez em relação ao conflito com o Afeganistão.

Contudo, a recente negociação do Paquistão para vender 24 caças JF-17 (desenvolvidos com a China) para a Somália mostra que o eixo militar sino-paquistanês não está apenas intacto, mas em franca expansão, buscando novos mercados e influência. Isso sinaliza à Índia que, apesar do discurso de cooperação nos BRICS, a China não abandonará seu principal aliado no subcontinente. A compra de caças pela Somália, um país falido e em reconstrução, pode parecer um evento distante, mas é uma peça do quebra-cabeça da projeção de poder paquistanesa (e chinesa) que cerca a Índia.

A "janela de oportunidade" que a Índia vislumbra é, na verdade, uma porta para um labirinto. Uma nova investida sobre a Caxemira poderia unificar o Paquistão internamente (desviando o foco da guerra com o Afeganistão) e forçar a China a uma reação mais dura do que a desejada. Pequim, no papel de fiador da estabilidade regional e sócio do BRICS, pode ser a chave para evitar o pior, mas seu poder de dissuasão sobre Modi é limitado pelo sentimento de revanchismo indiano.

A paz na região depende, neste momento, de um equilíbrio impossível: a Índia precisa conter seu ímpeto de aproveitar a fragilidade paquistanesa; o Paquistão precisa sobreviver à sua guerra em duas frentes sem puxar o tapete nuclear; e a China precisa performar o milagre de ser, ao mesmo tempo, o melhor amigo de Islamabad e o parceiro confiável de Nova Delhi. Num tabuleiro com três guerras em andamento, a próxima peça a cair pode incendiar não apenas a Caxemira, mas todo o continente asiático.


Com informações de CNN Brasil, Agência Brasil, Deutsche Welle, R7, Correio da Manhã Canadá, China-US Focus, India in Greece, OPEB, Poder Aéreo, Vermelho ■

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