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Caso Master: silêncio na Globo
Com a confirmação técnica de que o contato "Alexandre" no celular de Vorcaro não era o ministro do STF, mas sim o contador Alexandre dos Reis, ligado ao "Careca do INSS" e à família Bolsonaro, o silêncio da Globo levanta questões sobre a tentativa de blindar uma extensa lista de figurões da política
Analise
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■   Bernardo Cahue, 11/03/2026

A reviravolta no caso envolvendo o banqueiro Daniel Vorcaro e o Banco Master expôs uma fissura na cobertura midiática. Após três semanas de manchetes que associaram diretamente o ministro Alexandre de Moraes a mensagens de teor suspeito trocadas com o banqueiro, a informação técnica, corroborada pela Polícia Federal e pela análise de dados da CPMI do INSS, impôs uma correção de rota fundamental: o "Alexandre" da agenda de Vorcaro não era o ministro do STF, e sim o contador Alexandre Caetano dos Reis.

O silêncio que se seguiu nos grandes veículos, particularmente na Globo, onde as colunistas Malu Gaspar e Lauro Jardim protagonizaram as revelações iniciais, não é um mero acaso editorial. Ele ocorre justamente quando o foco da investigação deveria se voltar para o verdadeiro novelo de relações que envolve o contador Alexandre Reis e uma vasta gama de figuras políticas de alto escalão, muitas das quais têm ligações diretas com o núcleo duro do bolsonarismo e com a desregulação que beneficiou o Banco Master.

Quem é Alexandre Reis e por que ele muda o jogo?

Alexandre Caetano dos Reis não é um simples contador. Segundo investigações da Polícia Federal, ele é apontado como contador e sócio de Antônio Carlos Camilo Antunes, o "Careca do INSS", em uma offshore nas Ilhas Virgens Britânicas usada para ocultar patrimônio desviado de aposentadorias. Mas o que realmente "vira o jogo" e redireciona a atenção são suas conexões políticas diretas:

  • Flávio Bolsonaro (PL-RJ): Alexandre é irmão de Letícia Caetano dos Reis, administradora do escritório de advocacia do senador Flávio Bolsonaro. Este elo familiar levou a um requerimento para convocar Flávio na CPMI do INSS, justamente para investigar a conexão com o esquema do "Careca".
  • Fabiano Zettel: Cunhado de Vorcaro, pastor da Igreja da Lagoinha e "homem de confiança" do banqueiro, Zettel foi o maior doador individual das campanhas de Jair Bolsonaro (R$ 3 milhões) e de Tarcísio de Freitas (R$ 2 milhões).
  • O veto na CPMI: Apesar das evidências, a CPMI do INSS, presidida por Carlos Viana, rejeitou a convocação da própria Letícia Caetano dos Reis, irmã de Alexandre, evidenciando uma blindagem que agora se estende ao silêncio da imprensa.

A longa lista de blindados: De Campos Neto a Bolsonaro

Com a atenção desviada de Moraes, a lista de figuras que emergem como peças centrais no escândalo é extensa e incômoda para o espectro político que a grande mídia tradicionalmente cobre com luvas de pelica. Os nomes a seguir estão no centro do furacão e parecem ser os reais beneficiários do silêncio:

  1. Roberto Campos Neto: A CPI do Crime convocou o ex-presidente do Banco Central sob a acusação de que a desregulação promovida em sua gestão criou o ambiente para fraudes como as do Banco Master. Foi sob sua gestão que Vorcaro obteve autorização para controlar o banco.
  2. Paulo Guedes: O ex-ministro da Fazenda de Bolsonaro também foi convocado pela mesma CPI para explicar as políticas de desregulação que, segundo senadores, fragilizaram o controle do sistema financeiro.
  3. Jair Bolsonaro (PL): Além de ter recebido milhões de Fabiano Zettel, o ex-presidente viu seu filho Flávio ser diretamente ligado ao esquema pela irmã do contador Alexandre Reis.
  4. Tarcísio de Freitas (Republicanos): O governador de São Paulo foi beneficiário de R$ 2 milhões em doações de Zettel, cunhado de Vorcaro.
  5. Ciro Nogueira (PP): Mensagens de Vorcaro com a namorada indicam que ele usava contatos como "Ciro" para tentar falar com "Alexandre", evidenciando a teia de influência no centrão.
  6. Cláudio Castro (PL): O governador do Rio de Janeiro também consta na longa agenda de contatos de Vorcaro, segundo análises.
  7. Sérgio Moro (União-PR): O senador e ex-juiz, embora critique a "politização" da CPI, viu seu partido e aliados tentarem barrar investigações que miram o núcleo bolsonarista.

Malu Gaspar e Lauro Jardim: Do holofote ao centro da tormenta

Os jornalistas que protagonizaram as denúncias agora vivem um paradoxo. Se por um lado expuseram as entranhas do caso, por outro, a manutenção e insistência da tese de que as mensagens eram de Moraes, mesmo após as evidências técnicas em contrário, os coloca em uma posição delicada. A situação é agravada pelas ameaças que sofrem: Lauro Jardim foi alvo de um plano de intimidação por parte de Vorcaro, que envolvia um assalto simulado para "quebrar seus dentes". Malu Gaspar, por sua vez, teve pedidos de proteção solicitados por senadores, diante de indícios de monitoramento.

A ironia é que, ao insistirem em um alvo que se mostrou equivocado (Moraes), acabaram por desviar a atenção dos verdadeiros algozes que os ameaçam e dos políticos que realmente tinham relações promíscuas com o esquema, muitos deles alinhados ao bolsonarismo. O silêncio atual pode ser uma tentativa de reengenharia narrativa para não expor a própria fragilidade da apuração inicial, mas o custo é a blindagem de um escândalo de corrupção que sangra os cofres da Previdência e expõe a captura do sistema financeiro.

Com informações de Rondoniaovivo, Agência Brasil, O Antagonista, Revista Fórum, O Globo (colunas de Malu Gaspar e Lauro Jardim), GP1, GZH, Jornal O Sul, Folha de S. Paulo ■

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